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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

MELAGKHOLIA


me.lan.co.lia. sf. Estado de humor caracterizado por uma tristeza vaga e persistente.

BILHETE
Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...
(Mário Quintana)

Baixinho, baixinho assim eu não te ouço, nem o teu gemido e nem o teu sussurro. Baixinho, baixinho assim eu não percebo nem o teu pavio curto e nem o teu carinho. Baixinho fica dificil de ouvir teu elogio, se me tem febre, se me  tem saudade, se me tem orgulho. Baixinho que nem segredo e escondido assim, parece ilusão de festa, parece que termina quando o dia nasce. Deixa eu puxar seu ouvido para o canto e confidenciar esse desastre que é o meu coração, dizer que aqui dentro pareço uma menininha insegura que tem medo de ter aberto uma frestinha pra você entrar. Apesar de ser assim uma mulher forte e confiante, que samba no meio da roda, que chama pra sair, que deita sem pensar, que chora ao mesmo tempo que ri. 

Ainda assim toma conta, cuidadinho, com esse instrumento de trabalho, com esse ganha pão, sem ele não tem vida pra amanhã, ou sorriso e nem espera, sem ele pode faltar luz e a vela, eu decidi não trazer desta vez, arrisquei, abri a janela. Baixinho assim parece silêncio e com esse deus eu já briguei, discuti, esperneei.

Silêncio para que me ame bem alto, entre buzinas, fanfarras e passarinhos.  

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Ciclo sentimental em fragmentos

INV[f]ERNO
1- Falar sobre o que?
2- Precisamos deixar claro sobre o que estamos falando.
1- Estamos falando de dilaceramento, de aprisionamento, de auto complacência.
2- Sem auto piedade, por favor!
1- Um dialogo entre o dramático e o épico. A cisão entre as químicas do corpo, o nosso desejo e as nossas demências.
2- E o amor?
1- Amor, desejo, doença entre corpos.
2- Doença.
1- Demência.
2- Esse espaço vazio transformado num corpo. As mãos que riscam essas linhas são as mesmas que tocaram, transaram, gozaram...
1- Estes pés que guiam a direção deste desenho são os mesmos que guiaram ele até a porta da casa do sujeito.
2- Essa cabeça, essa demência que planejou esse desenho é a mesma cabeça que cadencia a obcessão de um pensamento que o aprisiona num outro que já não existe mais.
1- Esse é o corpo que fodeu!
2- Fodeu!
1- Fodeu!
Juntos FO-DEU!
1- Agora chegamos aqui no lugar onde queríamos chegar, no centro vital, no drama, na metalinguagem.
2- No coração.
1- Agora esse lugar é o meu coração.
2- O meu coração.
1 - coração.
2 - um coração.
1- O coração de qualquer um.
DEPOIMENTO
Agora esse lugar é o meu coração, aqui me encontro com o que me fragmenta, com o que me envenena. Eu tenho a urgência de um Dark Room vazio que ecoa e evoca a violência do seu silêncio nessas paredes.
Ele foi embora numa tarde de domingo sem sentir, sem tocar, sem olhar, dizendo que não sabia:
- Você não quer mais namorar comigo?
(pausa)
- Responde!
-Não sabe? Não quer? não pode mais?
Naquele dia e depois daquele dia é o teu siêncio que alimenta a minha impaciência, a minha raiva e a minha incompreensão.
É por isso que eu preciso te matar, te matar na ocupação das horas vendidas para o sistema, nas tarde de corrida no parque, na cena, no palco, no teatro.
rasgar tua garganta e deixar jorrar palavras, sanguineas, vermelhas, hemorrágicas.
perfurar teu pulmão e permitir que o som ecoe,
esganar e arrancar esse tijolo da sua boca,
essa parede intransponível que você edificou com o seu silêncio de concreto,
com o seu cuspe de cascalho,
com os seus dentes de ladrilho.
Esse lugar é o esgoto da minha sentimentalidade, o amor aqui é escoado feito bosta fétida pelo chão,  o mijo é uma espécie de lágrima apodrecida que escorre pelos encanamentos até desembocar em mim.
Esse lugar é o meu coração, oco, solto, morto no qual o seu corpo flutua anímico, apodrecido e silencioso.
ESSA É UMA MENSAGEM DE CELULAR: "eu não sou mais apaixonado por você"
"lanço-me,
atiro-me,
vomito-me,
venero-me,
nessa cidade desencontros
fracos, inconstantes, entre tantos
viro-me no avesso, do avesso de mim mesmo
não me reconheço
afago-me
afogo-me
cuspo-me
entrego-me
e desapareço
nessa cidade desencontros
fracos, inconstantes, entre tantos
fátuos prazeres, corpos, desejos quereres,
necessidade vira encontro"
PRIMAVERA
22 de setembro encontro transcedente com as foraças primitivas da minha alma. constatação. "EU SOU NATUREZA"  
REENCONTRO COM A PAIXÃO.
A paixão chega
me atravessa
a paixão chega
me descompassa
me deixa em festa
a paixão chega
me para
me cura
me testa
tira os meus medos
me deixa em festa
entra
pode entrar
chega devagarinho
pisa de mansinho
destranquei
a porta pra você
entrar
E nessas noites de lua
dentro de mim eu sinto o meu peito pulsar,
o tesão queimar,
eu sinto um jeito macio e gostoso de respirar.
respira
respira
respira
Esse coração que respira, se abre, se destranca, se faz presente na sua pequenês de orgão regenerativo, de símbolo ativo de resistência, um pólo radioativo de mim mesmo.
é esse o coração que te saúda.
é esse o coração que te saúda.
é esse o coração que te saúda.

entra
pode entrar
chega devagarinho
pisa de mansinho
destranquei
a porta pra você
entrar
Não espere,
os ciclos são,
onde você está.
luta,
luto
fruto
pulso
incongruente
demente
presente
naúsea
do fato em mim
sem verões ou outonos
o presente se faz
acontece
explode
em frenesi.
Esse texto é uma obra inclonclusa, ciclica e sem constatação. Fecha aspas.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

domingo, 6 de novembro de 2011

Procissão

I.

Santos saem dos oratórios,
meninos,
crianças,
senhorinhas,
velas amarelas,
canto entoado na seda da noite quente.
Passos que caminham e murmuram
pelas ruas centenárias do mártir,
do louco,
do homem pleno.
As pedras do caminho
ecoam sons negros,
gritos,
balidos
na noite alta.
Marília,
Barbára,
Gonzaga,
Joaquim,
Silvério,
Cláudio.
Senhoras com seus véus
audazes
- que esquecem os banidos,
ignoram
os parvos,
degradam
a memória
dos sem espíritos -
com suas vozes
vorazes,
velozes,
atrozes
em suas penitências,
em seus pecados,
em suas sandálias
deixam soarem os sinos das igrejas
escandalosos
sobrepondo os ecos
noturnos
das pedras douradas.

II.

De dentro da igreja saem negras
robustas,
senhoras augustas,
sons eloquentes,
Glórias!
Vivas!
Memórias pendentes.

Evocação

I.

"Não chores tanto, Marília,

por esse amor acabado:

que esperavas que fizesse

o teu pastor desgraçado,

tão distante, tão sozinho,

em tão lamentoso estado?"

A bela, porém, gemia:

"só se estivesse alienado!"

Cecília Meireles


II.

"Marília, tu chamas?

Espera, que eu vou!"

Tomás Antônio Gonzaga


Pelas portas que adentrei conheci Vila Rica, aquela protegida pelo gênio original

-Tomás Antônio Gonzaga, o exilado, e sua casa,

casa de mil portas,

casa de mil ares.

Marílias se descortinam

em horizontes e janelas.

Marília efígie de rosto virado,

passarinho

que revela tempos idos.

Marília doce amada do poeta,

esquecida,

extraviada,

trocada.

Marília nos morros,

Marília na vista,

revista,

transfigurada,

deixada.

Marília, imagem

deformada,

empoeirada

que regressa

nas quadrinhas

bobas, apaixonadas e

insubstanciadas de verdade

no peito de um triste pastor que anseia por escuta.

Marília centenária.

Marília encarquilhada.

Marília eterna.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Esperando... (inspirado em Becket)

(uma repartição pública, dois namorados, uma explosão, um barulho de vidro trincando e uma samambaia seca)

- Nada a fazer!
- O que?
- Nada fazer! (pausa vazia)
- Eu te amo. (pausa e eles se olham)
- Perdemos o bonde, ele passou. (aflito). O bonde se foi (perdido)
- Eu te amo (pausa e eles não se olham)
- A gente devia ter aproveitado enquanto ainda existia o tempo e o mundo ainda era um espaço e ter pegado o bonde até Paris, (maravilhado e sonâmbulico) poderíamos ter pulado da Torre de mãos dadas em cima das cabeças dos namorados franceses.
- Eu te amo (pausa)
- (ele o olha assustado, seco e indiferente) Eu também.
- Então vamos para casa. (pausa)
- Não podemos sair daqui, estamos esperando...
- O que?
- (irritadíssimo e descrente) L'amour.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Cozinha

(porcamente inspirado na belíssima Alice Ruiz)
dias de quibebe, noites de quiabo
flores, orquídeas e gérberas
sorrisos de
dentes de alho
tormentos, choros, lágrimas
debaixo da terra como nabo
raiz forte
mesa quadriculada
incenso de macela-do-campo
pote de geléia
e gerâneo
sumo de dor eloqüente
fritado e uivado com cebola roxa
óleo quente
bote
serpenteado
falta de sal grosso
falta de caralho
falta do seu gosto
falta do meu parco avental
molhado e suado
de Hilda Hilst
cantado e melado de Alice Ruiz
sujo e fedido de
Adélia Prado
de te acender velas Colasanti
de te ler Flores Belas
(daquela mesmo que esse som possa te ter lembrado)
falta de te sentar nessa cadeira
e te reler toda minha vida
numa nota dissonante
do tempo perdido
na cozinha
preparando
dias de chuchu
sem tempero e sem orvalho,
lacrimado.
Vendo o vento levar o cheiro
o fio do cabelo,
o semblante
a suculência tardia
do coração de galinha,
derrubar a jarra de suco
de frutinhas vermelhas silvestres
que eu com tanto gosto
apanhei
e preparei
para esperar um dia da tua vida.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Homem Urbano I

Dia de inseto, esmagado pelo mundo.
No adestramento do dia que segue, o mundo coloca o homem em seu lugar, no limiar da proibição velada da liberdade de pensar o homem sente-se dono do seu caminho, limpa a bunda com as cartas de amor que ontem escrevia para o destinatário silêncioso da ausência.
Felicidade de concreto é o relógio pontual na mesa do patrão, consentimento ao que se pensa custa caro para o bolso do patrão. Absolvição da trangressão é a morte do patrão.
Dia de inseto transfundido para homem, pequenês de pigmeu choca a invisibilidade do mundo gigante dos seres humanos. Dificuldade de minhoca é não ter mão para limpar a boca.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Palmas

Chegou o verão
e o
sol se pôs,
no passado
das ondas quebradas
pelo canto
ignóbil
gélido
e
cândido
da
gaivota triste.
Nas tentativas de ser,
a ressaca moral
tangível
e
efêmera
entorpece
os casais que observam
o
oceano em silêncio.
-Silêncio.
A
comunicação dos corpos
se põe em cores outonais
com a queda
frisante
do astro
no fosso avermelhado
do mar incandescente
a verborragia
da incompreensão
cintila com
as estrelas
na primavera do infinto.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Saldo

"Desde minha fuga, era calando minha revolta (tinha contundência o meu silêncio! tinha textura a minha raiva!) que eu, a cada passo, me distanciava lá da fazenda, e se acaso distraído eu perguntasse “para onde estamos indo?” - não importava que eu, erguendo os olhos, alcançasse paisagens muito novas, quem sabe menos ásperas, não importava que eu, caminhando, me conduzisse para regiões cada vez mais afastadas, pois haveria de ouvir claramente de meus anseios um juízo rígido, era um cascalho, um osso rígido, desprovido de qualquer dúvida: 'estamos indo sempre para casa'".
Lavoura arcaíca - Raduan Nassar


O tempo senhor do destino se encarrega de readequar os propósitos da vida. Era assim que eu divagava e me distanciava de tudo aquilo que um dia me compôs, numa quase noite de réveillon eu percebia como o dia, que antecedia o nascimento de um ano bebê, morria.

O ar se condensava e o tempo se estendia em fatias espessas me obrigando a olhar para minha vida, de repente um telefonema. Eram as contas sentimentais que eu protelava tanto para acertar com aquele que um dia partiu sem saber o quanto me doía agora e sempre a falta que seu lugar à mesa de homem da casa fazia.

Eu tentava não embargar a voz e me mostrar o mais forte que eu conseguia, não podia me dar ao luxo de sentimentalismos toscos em plena véspera fúnebre de morte e nascimento, os compassos do relógio espalhavam minhas lágrimas na cadência desordenada de um tic tac sem fim, era uma bomba prestes a explodir, era uma agonia de morte e um sopro de vida.

No computador surgiam as inúmeras ramificações do passado e o presente se transformava em incerteza pelas coisas que fiz, pelas coisas que deixei de fazer e pelas coisas que eu não poderia mais me arrepender de ter feito.

O tempo senhor do destino se encarrega de readequar os propósitos da vida - nessa falta de raiz, nesse chão arenoso e movediço eu procuro calcar a estabilidade que protela em chegar, minhas dividas sentimentais me assolam - é hora de morrer ano sangrento! - é hora de quebrar a linearidade do tempo num pequeno átimo de metafísica que transforma o velho em novo, o número 23:59 se torna 00:00, um choro derradeiro, um passo para o espaço e a obrigatoriedade de sonhar. É tudo novo de novo e de novo num ciclo sem fim, deve ser a tal 'vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro'.

Eu tenho medo do relógio não virar dessa vez, do agonizante vegetar, da fada da prosperidade esquecer o número da casa onde eu estarei esperando sua visita, do feto nascer morto.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Atrito



atrito: sm. 1. Fricção entre dois corpos. 2. Deisnteligência, desavença.

"Flor, minha flor
flor vem cá."
Grupo Galpão - Romeu e Julieta
Estávamos parados olhando para aquele horizonte negro que se abria no terraço da casa, a cidade inteira brilhava no espaço corrosivo do silêncio.
- Você quer uma cerveja?
- Quero.
- Você está bem?
- Estou.
- Vamos conversar?
- Aham.
- Fala alguma coisa.
- Ah, sim sobre o que você quer falar?
E era nessa sucessão de sins, e de agradabílissimas respostas que vertíamos o silêncio em repetitivos rodeios de cortesias. Eu não queria a cerveja e ele não queria falar, o céu queria ser noite e a noite trovejava incessantemente raios de silêncios que afastavam cada vez mais aquele pequeno espaço entre as duas cadeiras colocadas diante do infinito.
Eu pensava no mundo que se descortinava em contradições dentro dos meus pensamentos e todos os nãos que precisavam ser ditos fugiam da materialidade do som da minha voz, me perdia na abstração de sensações e nas muitas implicitudes que rondavam a minha falta de verbo - eu queria dizer que eu não consigo dizer não, eu não consigo brigar, eu não consigo lidar com as situações de desespero e de conflito, por isso eu aceito. Eu sou esse apanhado de nãos que não se materializam, eu sou o conflito interno que não se propaga. - Diante dessa lua imensa nos acariciávamos e sorríamos para o nada, engatilhavamos muitos assuntos para abafar o ruído do silêncio e fazíamos planos de cruzeiros pelas águas do Pacífico. Era perfeito sanar o tédio com miraculosos planos de vida que pressupunham um futuro, era no depois que transbordávamos a amplitude das dissonâncias do hoje, era sempre numa espera que alimentávamos a felicidade e que esquecíamos as nossas competições - eu queria dizer que eu não vou falar algo que você não queira escutar, justamente porque você não quer escutar eu não falo, tento amenizar meus pareceres e tento abrir a escuta para o que eu não ouço de você, mas eu não ouço nem mesmo os seus defeitos ou o que te torna humano, você não transparece, eu não transpareço, nós ficamos então na linha da perfeição, daí falta atravessamento, construção em conjunto, falta dueto no videokê e na vida, falta a falta, a saudade, e as fraquezas da carne que a saudade proporciona mesmo que essas fraquezas aconteçam no mundo subterrâneo da sua mente - eu gostava de abraçar você nos meus momentos de intempéries, eu sorria para você na inexatidão do meu sim, a gente transava na contradição das nossas idealizações.
- Vou pegar outra cerveja.
- ...
- Você quer?
É claro que eu não quero cerveja, eu nunca gostei de cerveja, eu sempre te enganei.
- Você quer?
- Traga a mais gelada.
E num sorriso voltamos ao ato amoroso de observar as malditas estrelas etílicas que reluziam na lata de cerveja.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Ciclo

"Ah, o amor é um capitoso vinho,
que nos embriaga,
que nos embriaga com um só pinguinho."

Furacão furioso que corrói a calmaria dos campos.
Tempestade intempérie que amolece o barro da terra e funda a orvalhada nesse chão de incertezas.
Em minutos se faz a calmaria, cheiro de terra molhada, mormaço, céu alaranjado e um clima de possibilidades propícia o desabrochar, as gotas embebedam a semente, enraiga-se a sensação de pertencimento e surge o botão.
E desabrocha em latentes e febris tensões, comichões, calores nítidos e plenos de sensações pulsantes. Toda flor que desabrocha quer ser deflorada ou pelo vento que passa, ou pelos dedos firmes da mão que rija acolhe, pela abelha que suga o mel ou pelo chão que nutre a força.
Cor, coito e vibração segue a semente gozando e florindo seus dias, sedenta e cheia de erupções sua seiva transborda pulsante o aroma orgiástico, enamorado e primaveril. Fecunda solos pelo vento, poliniza tudo que outrora fora devastado, multiplica-se em gozos caleidoscópicamente fulgurantes para aos poucos ir-se esvaindo, murchando, apodrecendo.
Então transforma-se, aduba o solo e espera furacões.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Cadência




"Comprei a casa de um amor, sem estar na posse dela;
vendida embora me ache, possuída não fui ainda."


(Julieta cena ato III cena 2)
Dancing couples - Ivan Koulakov



Vai longa noite,
vai ao encontro
de sonhares noturnos vãos,
fonte sibilante de horas ausentes,
amansa
a saudade silente.
Volta!
Volta,
pela madrugada
alma prudente
que a falta da lágrima prestante
seca a retina
nebulosa
dos meus olhos cadentes
torna vã a suplica
latente
de um louco amante enfermo,
febril e
descrente.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O que não é o que não pode ser

Das flores que ainda não colhi, dos beijos que nem se quer vou provar, dos trabalhos que não são pra mim, das provas que já reprovei, das que me reprovarão, da falta de vontade de prosseguir, da incerteza do caminho que vou trilhar, da lágrima que teima em não cair, do cabelo que finjo não cortar.
De todas as situações que eu não quero me livrar, dos problemas que não quero resolver, da existência que não florescerá, dos amigos que não fiz, dos amigos que não vi, dos que não pedi, dos remédios que não tive coragem de tomar, do pessimismo que tento me livrar, dos rumores do coração que não terminei.
Das provas, dos trabalhos, dos ritos
do que me impede
do que me pesa
do que me esmorece
do que me desencoraja
do que não consigo escrever
do que não tenho motivo pra falar
daquilo que não acontece
da vida que não é pra mim
da vida que não vivi
da idéia de vida
da imagem subjetiva da vida
da imprecaução da felicidade
da não felicidade
do medo
do erro
do medo do erro
da possibilidade
da negativa
do não
da desistência de mim.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

São quase oito

Em meio a instrumentos, ferramentas individuais, músicas e supostas poesias me vejo aqui perdido.
Olho o meu irmão, vejo o nosso fazer e não encontro sentido em prosseguir.
Para onde levaremos essas individualidades escatológicas? Para qual lugar essa prática nos leva, o que nos transforma e o que nos trespassa?
Não sei.
Talvez eu suponha que seja a simples vontade de mostrar-se, a felicidade momentanea do "eu sei", a concubinação do eu pela imagem oca que a gente produz e pelo prazer falso do aplauso vazio e sem sentido do final.
É dificil optar pelo "não sei", pela descoberta e pelo coletivo.
E afinal de contas o que é o coletivo? Como eu comungo com o meu irmão?
Estamos tão perto e ao mesmo tempo dispersos, somos amplos mundos que não se influenciam, que não trocam e em nada se completam.
São quase oito e eu almejo o fim dessa angústia chamada ensaio.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Conversa de passarinhos.

Sua voz quando ela canta me lembra um pássaro,
mas não um pássaro cantando: lembra um pássaro voando.”
Ferreira Gullar


Meu olhar procurou conforto na arvrinha onde mora um passarinho, mas ele não teve companhia.
Ah, Essa vida é um breve desconforto permanente.

Por que não amantes?
Por que não amores?

Meu olhar ficou voando com ares de pintassilgo e tristezas de sabiá.


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Palavra


"Pensar numa flor é vê-la e cheirá-la

E comer um fruto é saber-lhe o sentido." - Alberto Caeiro


O que mais me apavora são os sons abstratos das palavras que eu não vejo, eu ouço, eu penso, eu construo por meio desse código o discurso, eu sinto todas as sensações. Eu juro que sinto. Me sinto, em muitos momentos, fantoche das palavras que eu sei que existem aqui dentro, mas quando pulam da minha boca ou da tua boca pra fora não são mais simples combinações de códigos ou palavras que a gente aprendeu, são sim a combinação de todas as outras palavras que ainda não sabemos e que nos fazem organismos vivos.


Minhas palavras são folhas mansas levadas pela rudeza dos ventos fortes que passam, são abstratas demais as minhas sensações, é quase impalpavel e imensurável o tamanho dos meus sentimentos. No entanto são tão fluídos, tão vertiginosos e tão invísiveis que precisavam ser concretos em folhas de papel, em livros de romance, em páginas policiais, em textos de teatro, em muros, em portas, em cimentos frescos em traseiras de caminhões em adesivos autocolantes em embalagens de shampoo em lousas verdes pretas e brancas em caixas de sapatos em outdoors em corpos nus.


Eu queria poder dizer o que eu sinto.


As palavras correm no ar, fragmentam-se nos ouvidos alheios, os sons do meu amor são captados por todos ouvidos que me cercam, mas os sons do meu amor servem de fato para ti uma pessoa no interlúdio da nota anterior e da seguinte.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Vem, ou a oração do amor carnavalizado.


Vem meu amor,

vem

que eu estou inteiro

intenso

pleno e de peito aberto.

Vem meu amor,

vem

nas faltas

nas inconstâncias

e inconsistências

vem na insegurança.

Vem meu amor

vem

me conhecer como eu realmente sou

vem me reconhecer.

Vem meu amor bandido

mesmo sem circunstâncias

sem caridade

vem pra girar minha cabeça

vem pelo sexo

pelo beijo

vem

por aquilo que pulsa

por aquilo que jorra

por aquilo que goza

vem

por aquilo que geme

vem meu amor

pela falta de sol

pelo excesso de chuva

pelo mormaço

vem...

...vem

...

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Textos de brisas, ventos e algas...



Nesta enseada a brisa tropical anuncia a chegada da chuva que cai levando cores, lavando nomes, aquificando sons. É neste colorido de sensações que seu nome me vêm à boca, escorre pelos dentes como um bulbucio lacrimoso e engasgante. Olho ao redor e estou sentado na beira do cais, deixo os pinguinhos caírem sobre o papel, ninguém está aqui. E a guerra tempestuosa de nuvens contra o oceano escurece o horizonte e eu, espectador solitário, envolvido numa brisa quente de lembranças ponho-me a contemplar maravilhado as teias relampejantes que trincam destinos e abrem caminhos .
* *
*
Nesse dia vejo o sol que sai fugídio pela tangente do meu campo de visão. Lá vai ele colorindo o horizonte de uma noite de esperanças, de corpos lívidos que se encontram e se separam numa dança de desencontros.
* *
*
Em cantos
me despeço
em adeuses tronxos
Dez entre cantos
eu me perco entre todos
que me rodeiam.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Iniciantes

Duas coisas estão certas: 1) as pessoas já não se importam mais com o que acontece com os outros, e 2) nada mais faz alguma diferença de verdade. Vejam só o que aconteceu. E mesmo assim, nada vai mudar entre mim e o Stuart. Mudar de verdade, quero dizer. Vamos ficar mais velhos, nós dois, já dá para ver na cara da gente, no espelho do banheiro, por exemplo, nas manhãs em que usamos o banheiro ao mesmo tempo. E certas coisas à nossa volta são mudar, ficar mais fáceis ou mais difíceis, uma coisa aqui, outra ali, mas nada será diferente de verdade. Acredito nisso. Tomamos nossas decisões, nossas vidas foram postas em movimento e vão seguir adiante, até a hora em que vão parar. Mas, se isso for mesmo verdade, e daí? Quer dizer, a gente acredita nisso, e mantém isso escondido, até que um dia acontece uma coisa que devia mudar tudo, só que aí a gente vê que, no final das contas, nada vai mudar. E daí? Enquanto isso, as pessoas em volta da gente continuam a falar e a agir como se a gente fosse a mesma pessoa do dia anterior, ou da noite anterior, ou de cinco minutos antes, mas na verdade a gente está passando por uma crise, o coração sente que sofreu um estrago
(trecho extraído do conto Tanta água tão perto de casa - Raymond Carver)
*
Why do you come here when you know it makes things hard for me?(...)I'm so sorry!
*
Cena criada a quatro mãos com Anna Carolina Consenza no domingo dia 27/09, para nossa aula de montagem. O texto foi criado a partir do trecho extraído acima e de experiências de vida. Peço licença a minha querida Marcela, mas é que esse texto diz muito para mim.
*
(para ler ouvindo Suedehead - Morrissey. A cena só terá sentido se for lida ao som dessa música) http://www.youtube.com/watch?v=0AvuweztG4Q
(ritmo intenso, ofegante de respiração acelerada)
Ela - Desculpa.
Ele - Porque você fez isso?
Ela – Medo! Medo de acordar de manhã e olhar pro lado e ver que você está lá!
Ele – Mas era pra ser assim não era?
Ela – Não sei!
Ele – Não sabe? Quinhentas pessoas dentro daquela igreja sabiam e você não sabe?
Ela – Esse casamento não era pra mim!
Ele - Então pra quem era?
(silêncio)
Ele – Quem é você?
Ela- A esposa.
Ele - Egoísta
Ela – você tá aqui pra quê? Pra pedir pelo amor de Deus pra eu me casar com você, pra dizer que me ama e que toda sua vida se resume a uma mulher que você nem por um segundo conseguiu perceber quem era?
Ele – Você nunca se entregou e eu sempre me doei (...) pra você me deixar plantado no altar. Caramba, eu tô aqui, você não tá se vendo? Até ontem você dizia que me amava e que a gente ia ser um só pra sempre.
Ela – A gente ia...
Ele - Acabou?