sexta-feira, 30 de maio de 2008

Sou uma fazedora de caixinhas...

Eu sei fazer caixinhas. Nelas, escondo toda sorte de matérias. São miçangas, fitas, pedrinhas coloridas, agulhas e alfinetes, moedas sem valor, fotos e cartas, peças de antigos jogos de tabuleiro. Minhas caixinhas não são como a de Pandora. Não contêm quaisquer males. São inofensivas e, talvez, inúteis. Minto. Há dias em que algumas pulsam rancorosas; e sinto medo.

Traço nova caixa, esperando que desta vez permanecerá vazia, na compreensão exata das distâncias que nos cercam. Mas se toda grande distância não é de todo lacuna, poderia permanecer desabitado o novo espaço? Percebo minhas mãos a despregar botões de velhas camisas, amando-os como se fossem o corpo que um dia as vestiu. Não culpo estas minhas mãos. Buscam, apenas. Não um objeto, mas um halo de santidade. Algo como uma idéia. Um motivo. Qualquer sentido que as faça quedar em oração. E movem-se. Dezoito pequenas peças circulares abrigadas na caixa lilás. Lilás. Lilases são as flores nela desenhadas – o fundo em que repousam se faz entre azul e cinza, sem que possa ser dito cor de chumbo. A leveza desta combinação de cores será para sempre associada ao que na caixa está contido.

Precisarei de envelopes perfumados nesta tarde. Não conheço destinatário que os mereça; serão meus e ocuparão a caixa azul. São olhos. Pálidos. Aproximam-se de mim; sou agora o mirante. Tudo lhes pertence – toda terra, toda água e toda gente, até onde a vista alcança. Tudo. Todo o amor e toda a fúria. Poucos sentires para seu anseio em descobrir novos ares e aromas. Não. Nenhum endereço será inscrito em meus envelopes. Tremo por desconhecidas terras que jamais tomarão conhecimento de suas cores. Mas vejo, grande, a caixa azul. É um pouco céu. Um tanto mar. Em muito de sua altura, letra. Não poupo esmero e afeição no fabrico dessas caixas, mesmo quando ensaiam qualquer gesto de piedade.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Falsa Oração

em face a lucidez de suas palavras
ofereço a incerteza de minhas letras


Peço ao Senhor Jesus Cristo, por intermédio
das mitologias grega, egípcia, africanas, indígenas, cristã (...),
Que não me abandone nos momentos de cruzes
ou na crueza da aflição

Desde o dia de hoje até que me acabem os anos.

Que eu veja a escureza de alma dos seres humanos
e num ato de carrasco inexperiente, covarde e piedoso de si
Possa cravá-la no branco das folhas de papel
em cenas de flagelo intermináveis

Até que amanheça o dia.

Comprometo-me a mergulhar na poesia
e dela fazer meu pão de todas as horas
Comungar a minha vida
e nunca dizer não

Até que venha o tédio.


* para Fábio Gomes

terça-feira, 13 de maio de 2008

Se eu fosse...

Eram os seus gestos que eu amava. Amava de um amor investigativo que buscava decifrar as imagens desenhadas no espaço pelo movimento de suas mãos. Eu não gostava muito de falar, pois a cada frase dita, seguiam o sorriso e a pergunta: “O que você quis dizer com isso?”. O sorriso anunciava que ela já conhecia a resposta de antemão, a pergunta denunciava a mim mesma que eu não sabia como havia amarrado aquela seqüência de palavras e que não havia explicação para as coisas que eu pensara. Amava, mas sem reverência, aqueles gestos de professora. Meu amor era feito de inveja. Nas brincadeiras de criança, minha voz nunca era ouvida. Admirava-me com a atenção que todos lhe dedicavam quando se punha a nos contar histórias e a explicar coisas. Quando eu crescesse, era como ela que eu deveria ser — mesmo sabendo que jamais seria.

Se eu fosse... Esse era o tema de redação que nos foi proposto. Se eu fosse isso, faria aquilo; meus colegas quiseram ser muitas coisas e coisas extraordinárias fariam com as propriedades que viessem a adquirir em sua transformação. Foram prefeitos, governadores, presidentes. Médicos, professores, Deus. Jogador de futebol, pugilistas, costureiros. Príncipes, princesas, magos. Trapezistas, atores, milionários. Divertiriam a si e aos outros. Extinguiriam a miséria, a ignorância, as doenças. Já não haveria luto, dor e lágrima.

Eu, eu quis ser um pássaro. Naquele tempo, acreditava que os pássaros não fizessem quase nada. Acreditava que buscassem em seus vôos apenas o prazer de estarem livres. Um pássaro não se preocupava com outro pássaro, para o bem ou para o mal. Exatamente o que eu queria: voar, sozinha. Havia certa poesia no meu escrito de menina de nove anos. Poesia que continha e escondia minha fuga ao pressentir a impossibilidade de se construir algo importante. Era assim que eu tecia e justificava meus insucessos futuros.

Aconteceu que a professora gostasse do meu texto. Não apenas o leu em voz alta na sala de aula, como o leu em voz alta nos corredores para vários professores de outras turmas. No recreio, alunos de outras salas e séries pediam para ler minha redação. Êxito literário na 3ª série é coisa muito séria. Então eu sabia escrever? E se descobrissem que eu era uma farsa na próxima redação? Esses dias me trouxeram a questão que ainda permanece.

A professora quis que brincássemos de política. Pela primeira vez em muitos anos haveria eleições para presidente em nosso país. Fato de importância imensurável, já que muitas pessoas lutaram para que tivéssemos o direito de votar em eleições presidenciais. Pois então, deveríamos nós, alunos da 3ª série A, em nossa sala de aula, numa escola pública de periferia, exercitar nossos direitos democráticos. Dois grupos de alunos escolhidos por sorteio apresentariam, cada qual, seu candidato e tinham a tarefa de defender suas propostas. O árduo desta tarefa estava em convencer os colegas eleitores de que nosso grupo e não o outro merecia seu voto.

Não poderíamos comparecer aos debates sem termos feito uma pesquisa sobre os presidenciáveis. Assistimos aos horários eleitorais na TV e recortamos notícias de jornal, tudo para compor o perfil de nosso candidato em oposição ao adversário. O mais importante, porém, foi conversar com nossos pais, tios, vizinhos, irmãos mais velhos, que compartilharam suas experiências com relação a um passado que nos parecia ao remoto e que agora ganhava vida diante de nossos sentidos.

Preparada para o debate, defendi com paixão o candidato no qual eu não votaria. Assim, nos meus primeiros passos em política usei palavras nas quais não acreditava com o objetivo de convencer e obter a vitória. Conseguimos eleger nosso candidato.

O episódio da redação somado ao dos debates e outras coisas das quais me lembro, fazem com que eu perceba o modo velado com que a professora exercia sua liderança. Jamais dissera “faça isso”, “é assim que deve ser”, mas seus gestos eram as palavras em vida. Palavras às quais deveríamos dar corpo para em seguida dissecá-lo.

Nunca mais pude deixar de pensar que as palavras eram perigosas e que dedicaria minha vida na tentativa de dominá-las. E eu já não queria estar só. Precisava compartilhar, aprender e ensinar - porém, preciso destruir a máscara que separa meu discurso de minhas ações. Discernir o que são as verdades e quais são as farsas.


(Escrevi este texto em 2004, pensando na professora Teka, mas como homenagem a todas as pessoas inspiradoras que me deixaram lições. Publicado originalmente por ocasião do 15º aniversário da Oficina Cultural "Sérgio Buarque de Holanda", em São Carlos, na antologiaConsurso Literário "Contos de Poesias", Tema: Brasil, mostra a tua cara. São Carlos, RiMa, 2005. A publicação no blog foi motivada pela postagem da Liz).

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Poligamia


*para ler ouvindo Poligamia (dedico à Paula Toller!rs)

São tantos rostos,
são tantas bocas,
são tantos ais,
são tantos uis.

São tantos pés,
são tantas mãos,
são tantos peitos,
são tantos erros.

São tantos e um,
são tantos em um,
são múltiplos,
são cúbicos.

são tantos sem razão.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Arlequinal

Edward Hopper, Excursion into Philosophy, 1959.


As vidas estilhaçadas
compõem desiguais caminhos
— retalhos originais

"Os versos que escrevias,
enquanto juravas amor
à humanidade vil,

sempre foram canto hostil.
Não pensaste nunca a flor
que teu falo recebia."

Entre palavras armadas,
estamos, assim, sozinhos.
Não há quem cante os meus ais.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Eclipse

estranho que, no meu riso, haja sempre o siso
em meu amor, mil formas de não amar
se ora me escondo, ora me entrego
eclipsante, como as faces do luar
mas nova, plena ou minguante
não é, ainda, a mesma lua?
não sou a mesma e tua,
dependente de luz
de estrela para
brilhar?


* ao meu amor, minha lhama, meu sol

quarta-feira, 9 de abril de 2008

"Medo de estar..."

(arte de Flor Garduño)

para a Dê

Medo de estar sob teus olhos e ao alcance de tua voz;
Desejo de me render ao teu domínio e desfalecer em teu colo.

São puros os meus desejos; os medos, imemoriais.

Minha face tomada pelo perfume em teus cabelos;
minha boca em teus ombros: embriaguez.

São puros os meus desejos; os medos, imemoriais.

Minhas mãos, amantes, em tua pele de lírio;
Nossos lábios unidos, luz das manhãs.

São puros os meus desejos; os medos, imemoriais.

O frêmito em teu corpo na morada dos meus braços;
nossas pernas enlaçadas, teias de amor.

São puros os meus desejos; os medos, imemoriais.

Medo de ler nas tuas formas o que imagino todos os dias:
esta linguagem sem palavras que nasce em mim.



(dez/2006)

segunda-feira, 31 de março de 2008

Cidade do Silêncio



Neste beco tão florido e silencioso fica a casa eterna daqueles que têm meu nome. Aqueles que eu conheço e que me compadeço. Moram ali quatro meu bisavô, seus dois varões e aquele que mora lá antes do tempo.
Eu os visito em tempos esparsos, em tempos de adeus, caminho descendo aquela pequena ladeira e passo por casas conhecidas, por pessoas que eram antes que eu fosse, passo por pessoas que partiram antes que eu pudesse chegar. São casas singelas, pequenas e apertadas, mas que guardam grandes memórias.
A brisa toca meu rosto e ao longe além dessa cidade silenciosa o sol alaranja o mármore, as folhas despencam das árvores na minha frente e cobrem um chão de adeuses e louvam do chão os deuses, implorando misericórdia para quem dorme.
Caminhando, descendo, percebo que um desconhecido preocupa-se em lavar os quintais e a água desce, escoando, escorrendo, seguindo o fluxo da ladeira intermitente levando folhinhas, lavando pedrinhas, passando pelas raízes desobstruindo passagens, seguindo, perdendo o volume, se diluindo, tornando-se umidade do chão.
Logo chego no portão da casa dos meus compadecentes, mas não ouso chamar. Eles dormem.
Olho para a casa como aquele que olha para as estrelas em busca do infinito. Olho para a casa, como aquele que olha nos olhos da pessoa amada buscando o eterno. Porém o eterno se desfaz e o infinito silencia, agora somos paz, agora somos silêncio.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Chuva



Meu deus, a chuva parou! Abri a porta nesta manhã e andei pela grama molhada, meus pés descalços sentiam o chão e a terra e os olhos molhados enchiam-se da luz do sol. Sentei-me embaixo duma árvore, numa pedra molhada, eu queria assistir o dia claro. A branca tez umedecia-se pelas finas gotas do vapor que voltava para o céu e os resquícios da chuva ainda molhavam o dia. Aquela massa densa de água molhava minhas têmporas, meus olhos, meus cabelos e lábios. Era uma espécie de suor que corria em sentido inverso, um suor que entrava pelos poros, tempestiava o branco dos olhos, relampejava nos cristais marrons de minha visão e acabava pelas transfusões químicas da poluição por cair acidamente de volta à terra corroendo as maçãs, o verde da grama e infertilizando a terra da semente.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Fragmento



"Porque, num universo em guerra, encontrei você. E em todo canto semeei as cores do amor..." (Fragmento)




* para Scaliest

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Ou: "és eternamente responsável por aquele que cativas"







idealização:
Murillo Marques

execução e direção de fotografia:
Hugo Henrique

direção artística:
Marcela Primo

rsrsrsrsrsrsrsrsrsrs


Fonte: debaixo d'água

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

The Red Dry Leaves



Autumn.
Dawn.
Red Dry leaves.
The Moonlight kissed the street and she appeared among a rain of red dry leaves. Probably she was singing a song; maybe she had blue on her brown eyes.
Loafing, She laughs, Loafing, He drinks. Loafing, the leaves brought fine cares, when all the things are new and the entire world is sensitive.
Keys.
Door.
Room.
They were just hands and kiss, bed and sheet, hips and arms, lips and moans. It was 5 a.m. and he slept, while she stood on the left side of the bed. She was extremely tired; she had red lips, red nails, red thoughts. She had a mirror on a dressing table in front of her, a mirror which had never reflected her before; She looked around that unknown room and smiled when she laid her eyes upon that unknown face sleeping like a child on the bed. The walls had a suburban smell and the first rays of sun were crossing the curtains and everything she could see were painted by morning colors.
The night was about to go out and the morning was singing the autumn song.
She dressed her fine black stockings, then the skirt and the blouse. On the table near the keys and the empty bottle of wine were the cigarettes. She lit one. On the cigarette box was a little post it, saying “The money in the wallet is yours” she took his wallet in the coat pocket and she paid herself.
Keys.
Door.
Street.
The car drivers were blowing the horns, people were walking and the sun started to shine. “Just one more day and that will be enough” she thought. How many thoughts haunted her mind before she got home? She needed go on, she must go on, step by step she walked home.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

O Vazio

Era uma casa completa. Tinha os móveis, os retratos, um jogo de sofá e televisão.Na cozinha tinha panelas, panos de prato, cristais e geladeira. No quarto cama, guarda roupa, tapete persa e cortinas. No banheiro tapetinho, escovinhas para os dentes, papel higiênico, escovinhas para os cabelos, toalhas e sabonetes. Felicidade.

Era Borges o morador daquela casa. Muitas vezes durante todos os anos que ali morou abriu as portas daquela casinha para as festas, para a entorpecência e para os cidadãos da aldeia. Mas um detalhe é valioso para os fatos que virão a seguir, Borges nunca saiu de sua casa, nem por motivo de doença grave. Era medo, era aflição, era insegurança, era um sei lá o quê de apavoro que rondava seus pensamentos.

Os anos passavam e Borges se bastava naqueles cômodos e Borges contentava-se com o mundo visto pela janela. Eram flores que nasciam na primavera, era a brisa fresca que entrava no verão, era a folha seca do outono que grudava no vidro e era o galho pelado que batia no telhado no inverno. Borges era feliz.

Numa noite dessas que a gente rola de um lado para o outro na cama sem conseguir dormir Borges ouviu um barulho na sala e foi ver o que era. Num pulo assustou-se, o sofá tinha sumido. Acendeu as luzes da casa, procurou achar o vão por onde o patife do bandido havia entrado, mas nada encontrou, nem uma marca de arrombamento ou uma marretada na massaneta. Naquela noite ficou tão apavorado que trancou a porta de seu quarto e ali debaixo das cobertas pegou no sono só quando o dia raiou.

Na dia seguinte tremeu, tremia, abriu os olhos e percebeu-se apenas com as roupas do corpo a cama havia sumido, o guarda roupas, o tapete persa, as roupas os chinelos o travesseiro a coberta a poltrona abriu a porta desceu as escadas a cozinha estava deserta sem sinal de vida sem sinal de garfo de faca de pia de torneira os quadros da parede esbranquiçaram as pessoas nas fotografias sumiram a televisão escureceu. Borges andava pela casa e o passo do pé passeava pelo assoalho e o eco batia no teto passando pelo pé e batendo na sola de volta, a respiração dentro da casa era uma conversa de fantasmas do século XV.

E naquela manhã, quando Borges olhou pela janela de sua casa e viu os campos floridos e o dia ensolarado que ali fazia, percebeu que sua casa era vazia.Ouviu um barulho vindo da cozinha, andou receoso de encontrar os larapios que lhe roubaram toda sua vida, mas só encontrou uma porta batendo, era a porta que dava para o campo da aldeia. Então era por ali mesmo que os contraventores tinham levado as relíquias de sua vida.

Mais que depressa correu para a fora de sua casa, a porta encerrou-se em suas costas e Borges percebeu-se do lado de fora, com a terra invadindo os vãos de seus pés e os sol perfurando suas retinas. Sentiu medo. Decidiu voltar para dentro de casa, mas a porta estava trancada. Era uma casa deserta.

A PALAVRA

A palavra não diz nada, a palavra é vento
é água rolando na ribanceira, cachoeira.
Me diz,
Me disse,
Me dissestes.
Silêncio.
A palavra armada,
concreta e discreta,
não se assina
assassina a liberdade, o pensamento,
a leveza de uma brisa metafísica.
A palavra se constrói.
A palavra se destrói,
num átimo,
numa sequência de idéias,
em meia duzia de linhas.
A palavra se corrompe
se disfarça
não diz nada.
A palavra se encerra aqui.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Devastação...

Tudo começou assim...
Um casal, uma cama, música.
Não existisse a cômoda, talvez...
Mas uma gaveta foi aberta
e as águas vieram torrenciais
Tudo acabou assim.


quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Poème

O poema a seguir é bastante antigo. Publiquei no meu antigo blog em 27 de janeiro de 2004, mas creio que eu tenha escrito em 1997.
A republicação se deve à visita recente de Moghrama a este blog. Uma blogueira tunísiana que merece todo nosso apreço e respeito.
Dans un bois plein de fleurs
Je pourrais au loin courir
Courir au-devant du coeur
Au-devant de mon avenir

Je n'aurais pas d'argent
Je n'habiterai pas un château
J'aurais seulement le chant
Le fort chant des oiseaux

Sinon ça, ce sera ma vie
Je vivrai pauvre et contente
Mais l'avenir n'est pas vivre
Il est mourir doucement

Et au ciel, je serai une étoile
Qui s'allume fortement
Quand la nuit déroule ses noirs voiles.

Em um bosque cheio de flores/Poderei ao longe correr/Correr ao encontro do coração/Ao encontro do meu futuro.

Não terei dinheiro/Não habitarei um castelo/Terei somente o canto/ O forte canto dos pássaros

Mas isso, isso será a minha vida/Viverei pobre e contente/Mas o futuro não é viver/É morrer docemente.


E no céu, serei uma estrela/Que brilha fortemente/Quando a noite desenrola seus negros véus.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Briga de Casal


a Genivaldo de José

O quarto estava ali, com suas estantes, sua cama, seus criados mudos, sua escrivaninha, sua TV de vinte e nove polegadas da marca CCE, alguns livros, cinzeiros, cobertas, cinzas, sapatos, meias, calças, camisas, toalha molhada, cinzas, cinzas, cinzas...

Lá estava a janela, posta em cima da cama, e a fresta estava aberta e daquela fresta um raio de luz cortava o escuro, como uma faca entrando no peito do jagunço, pensei comigo que ninguém nunca percebeu como o céu fica limpo algumas horas antes do dia nascer.

A lua brilha intensa, tontinha, ingênua às três horas da manhã achando que os casais são felizes e que se amam pelas ruas contemplando um lirismo cafona e antigo.

“Lua cretina mal sabes como são claros os pesares desse peito!”

São três horas e ele lá fora, na rua, onde está o rum, eu sei há de ter uma garrafa de outro dia, maldito rum...Ah! Esse gosto puro e quente que me desce goela abaixo, me faz divagar essa lâmina lunar estancando o breu alcoólico desse quarto que teima em me afogar enquanto ele não chega.

São cinco e cinquenta e dois, o quarto continua aqui, abro meus olhos embaçados, onde estou, o cinzeiro a cama as estantes a TV as cinzas as cinzas ah! Cinzas...Acho que acordei com o tilintar de chaves no portão, o rum onde está o rum...Vazio do outro lado da cama. Ele abriu o portão, a lua, foi, embora, ele abriu o portão, a lua, foi, embora, ele subiu degrau por degrau do maldito corredor cantarolando El dia que me quieras.

Eu sei que ele está do outro lado dessa porta sem encontrar a chave redondinha, se, se, se eu, seu eu pudesse eu até levantaria. Mais cinco minutos e ele abre a porta, ah, a luz inunda o quarto e ele não me viu.

Fechou a porta, não achou o interruptor, me procurou, tateou o lençol revirado, derrubou as cinzas, chutou a garrafa, acendeu o cigarro, tirou os sapatos, desabotoou a camisa, sentou na cama, me procurou, receou chamar pelo meu nome, ensaiou, murmurou, cerrou os dentes, mas fui mais ágil:

“estou aqui.”

“ oi meu bem?Desculpe, eu, estava...” esbaforiu uma mentira opiante.

“dorme querido, antes que o sol nasça.”

Deitamos na cama e dormimos antes do dia raiar. Afinal, ninguém gosta de dormir com o sol nascendo na janela.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Again

(L'etreinte, Pablo Picasso)

Um tanto de água; um tanto de sal.

Corpos entregues ao mar
- amores distantes; lágrimas -
corpos unidos; suor.

Sal; tempero da vida: Amor.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Almost



Eu só, no meio da tarde.

Pensamento breve ilumina a orvalhada face:
a aurora em teus olhos abriga e aquece
a madrugada fria: o corpo meu.

No meio da tarde, eu. Só.


*Ao Glauber.


domingo, 13 de janeiro de 2008

Eu





submersa no teu mundo,
que é o meu mundo vestido em águas:
calmas ou revoltas






segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Go Back...

Quão difíceis foram os tempos de exílio?

― Muitas foram as batalhas travadas e, de
arma em punho, um tanto de mim se
perdia, a cada golpe desferido. Depois, era
caminhar os campos: reconhecer, entre
os corpos tombados, os rostos de meus
irmãos. O calor da guerra, tudo desvirtua. Já
não é defender nossas terras e vidas que
almejamos. Antes, anseamos beber, num
cálice de glória, o sangue inimigo. Em dias tais, não
só a matéria, mas sobretudo a alma se faz
cativa. E quando o último, entre eles ou
nós, cai derrotado, ainda não é o fim. Havemos
de preparar o retorno; peregrinar ao encontro de
quem sempre ou nunca nos esperou. Não creio que
seja eu, mas estou de volta ao lar: ferida, maculada;
aqui estou, tal como não era quando parti. Há
quem ouça meus rumores? Há quem saiba o que
eu sei?

A guerra se faz com lâmina e fogo; a guerra é o amor.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

A Onda

Dessa vez pensei, juro, pensei. Passou a onda e pensei um mar, passou o sal e me senti no mar. Mareou, marejou.
A onda passando, suave e sonora.
Ah, saudadinha boa, a água do mar me saudadifica. A onda na areia esvaindo entre o grão e a conchinha deixa marcada a pegada molhada de outrora.
Ai saudade doida que vai e vem,
se esvai
e quando vem passa pelos dedinhos enrugando, envelhecendo.
A pele envelhece a a água, a onda, o mar...
Ali na beira daquele mar eu vejo o horizonte, eu vejo o céu, eu vejo o sol. Ali, bem ali naquela linha rente entre o céu e o mar o sol vai debulhando, mergulhando, dissolvendo-se como uma enorme aspirina.
E a onda vem espumante, desfazendo a grande azia do mar,
toca os meus pés,
minha alma,
toca uns pensamentos tontos que se escondem no coral abandonado da minha mente.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Cecília Meireles

4o. Motivo da rosa

Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.


Serenata

Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.

Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.

Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.

Dia de Primavera

Um sopro, não uma palavra. Um sopro, não um olhar. Um sopro, não um musculo articulado. Era só um sopro para a porta não fechar, um sopro para a mala não encher, um sopro e findava-se o adeus. O gesto rotatório das areias que movem o sim e o não com um simples sopro se confundiriam e o não viraria sim e o sim não mais existiria.
Sentado no sofá assisto do décimo andar o dia que passa pelo plasma simbiótico da minha janela. O dia esta assim, parado.O ar se rarefaz sem vento, sem movimento.Os dias primaveris são lentos. O tempo da maturação da flor não é o mesmo tempo da maturação de meus ais que floriram numa pálida tarde invernal.
O tempo da maturação da flor densifica a exatidão dos sentimentos que se rarefizeram. Olho para aquele horizonte, olho para as montanhas, verdinhas, estupidazinhas e me lembro da ausência, do quarto escuro e do frio que gela as terras comodais deste apartamento, ao norte as geleiras pérfidas dos sonhos perdidos, ao sul a lareira que nunca fora acesa, a oeste seu retrato me gela os calcanhares e a leste sinto o incomodo dos alpes gelados ao tocar em suas cartas e seus dizeres.
Da minha janela o sol vai escurecendo este mundo gelado, esta é a escuridão. O frio e o silêncio da escuridão sem palavras, sem os olhos e sem promessas. E tudo é raro, e tudo é escasso, e tudo é denso, e tudo é fraco e cheio de defeitos. Seis meses, cento e cinquenta e oito dias. O dia não veio, seus olhos não vieram, as palavras não disseram, os abismos se fizeram mais altos, a morte gelada come meus membros e orgãos, decepa-me as pontas, arranca meus pêlos. E tudo é frio, e tudo é solitário, e tudo é silencioso.

sábado, 22 de setembro de 2007

Amor Perfeito


Meu peito acordou bosque pleno de flores cor-de-roxo anunciando a chegada da primavera. Retiro-nas, uma a uma, delicadamente e desde a raiz. Com um laço de fita, arranjo-nas em buquê e as ofereço ao amado ausente.


Violeta Parra - Gracias a la Vida
Found at skreemr.com

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Resposta em duas partes

Poema que escrevi durante uma série de conversações poéticas com o amigo Fábio Leonel de Paiva e com o qual representei a cidade de Osasco no Mapa Cultural Paulista no biênio de 2005/2006.


Resposta em duas partes

I


Altaneiros teus versos cruzam mares
De palavras concertadas em luz...
O tolo viu-se belo em teus cantares
— melodia e vaidade, sonhos nus —

Faz-se um mundo o que era tão estreito
E dilui-se já em questão cruel:
Que beleza existiu no antigo feito?
Alçou, teu canto, uma pedra ao céu.

Nenhum mérito ou leveza contidos
No prisma com carinho esquadrinhado,
Na dedicatória tão mal escrita,

Nos alheios ditos... minha desdita...
Pois são um grito desequilibrado
— Tecido sobre versos jamais lidos.

II

Por instantes o pássaro impedido de cantar se imaginou liberto
E agora o eco da gratidão soa triste em mim
Em quaisquer ouvidos sou

Voz muda
Interrompida
Esquecida

Nos subsolos
escorregadios
da memória escondida

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

O Olho



Sentado na cadeira, os olhos piscam. O quarto está vazio, fumaça, cinzas e o silêncio das auroras de meus dias. Um espelho, uma cadeira, os olhos que abrem e fecham. Sentado na cadeira, as pupilas dilatam-se, a formigação de meus ais abrem meus poros e do espelho me subtraio. Só olho o olho que se olha refletido, o olho vermelho.
O olho que abre.
O olho que fecha.
Num estado eufórico de dançar o olho se olha. Sentado na cadeira percebo que o olho é só uma metáfora do olho que vejo, é só uma metáfora daquilo que entendo. Eu que não entendo nada do que vejo.
O amor ganha um nome e está representado pela figura em cima do criado mudo, a dor ganha um nome e é representada por Januário Almeida Barbosa, o homem que se foi.
O braço não é mais o braço o braço entrelaçado é um abraço. E numa explosão de cores a mente se dissolve o vermelho torna-se azul, que se explode num amarelo derramado da gema do ovo caído, e a água da torneira com seu barulhinho azul de gotejar alucina meus ouvidos numa sinfonia fácil de executar e o branco que se funde na janela, o copo de leite se transforma em nuvem, algodão tão macio de pisar e a tinta verde que jorraram no quintal parece tão fofinha, do décimo andar sinto vontade de saltar no verde clarinho, tapete macio para se deitar. Enquanto o roxo, o lilás vão tomando conta de mim, meus sentidos se dissolvem no amarelo quentinho que vai inundando paredes, provocando gargalhadas e despertando felicidades fáceis de sentir. Ele não voltará e o quarto ali, refazendo, resignificando, numa catarse sem fim.
Sentado na cadeira, os olhos piscam.

Canções

Fui agora mexer nas tuas cartas.
Quem pudesse voltar a acreditar
Nessas palavras doidas e transidas
De febre no delírio da paixão
Que arrastaram num sonho as nossas vidas
Misturando-as na mesma reacção!

Aqui há um juramento além da morte.
Ali dizes que vens logo à noitinha;
E um cheiro a vinho e a fruta – Que doidice!,
Paira naquele quarto de hotel
Onde fiquei três dias e três noites
Esquecido de tudo à tua espera!

Estávamos em Março; Primavera.

Nesta um abraço ainda cinge e aperta
Meu corpo vibrante,
E ali rasga o papel o teu ciúme
Num beijo sensualíssimo de amante.

Além, mais alto, impões que te apareça
– E a noite era uma noite muito fria!

Tanta carta a falar do nosso amor,
Tanta coisa que morre e nem nos deixa
Sequer um vago som de simpatia?

O que eu chorei quando esta recebi,
Esta que diz: «Não volto a procurar-te.»
E atrás de ti segui por toda a parte,
Até que te encontrei; e ardentemente
Voltámos à loucura que findou.

Como é que a gente pode mudar tanto
Sem sentir pela hora que passou
– Por essa hora linda de prazer,
Uma saudade, um pormenor qualquer
– Ficarmos alheados ou suspensos
–Uma tristeza, uma tremura, um ai
Que nasce e vai morrer lá onde a realidade
Começa e não acaba e nunca expira?...

Não leias estes versos.
Tudo isto,Tudo isto, afinal, é só mentira.

(Antônio Botto)

António Botto nasceu em Abrantes, em 1897, tendo vindo a falecer em 1957, no Brasil, para onde emigrara em 1947. Viveu em Lisboa e foi contemporâneo e amigo de Fernando Pessoa.

Lindo poema, lindo mesmo.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Nossa Senhora dos Ventos

O fino fio de vento que entrava pelo quarto, soprava uma cantiga e brincava com os pêlos do braço da menina que olhava para fora e via um movimentar calmo de lá para cá das folhinhas das árvores, era a origem dos ventos.
Uma cigana de traços firmes, espelho na mão, saia rodada e coroa na cabeça saía para a boemia da noite, para a liberdade bacante do Breu, seu mais que velho e conhecido amigo. Cigana brava, sorria e dançava levemente e quando sua saia rodava o vento obedecia de lá para cá, de cá para lá. A cigana andava por entre matos e se sentia movida pela música que seus guisos emitiam ao bater nas pedrinhas do chão e corria, dançava, rodopiava e os ventos voavam em torno das saias que espiravam em zunidos fáceis de cantar e ela assoviava e cantava e rodava e voava num ato livre e leve de dançar, caía deitada nas relvas e dos pássaros e das terras se desposava. O vento úmido molhava a terra firme deixando um barro mucoso por entre as pernas do mato, tufões copulavam e uma prole de ventinhos nascia, um manso ranger de dentes, as mãos apertando o barro, os gemidos eólicos que batiam no telhado da cidadezinha era resultado da profanação da cigana que ventando deixava que as senhoras árvores ouvissem os ecos da noite fria. Ali eram só os ventos e as terras, a cigana e o espelho, a noite e a lua que refletida no espelhinho prenunciava um azul clarinho e um amarelinho meio avermelhado no horizonte. A cigana e seus guisos, as saias que rodavam, os cabelos que batiam, os dentes que rangiam. Logo pela manhã, os cabelos presos, os passinhos cautelosos, apenas um rebolar de quadril e o tontinho do guisinho apenas soando uma brisa fresca que movimentava a folha na água, que despetalava a ultima margarida e entrava pela janela, brincando com os pêlos do braço da menina que olhando pela janela perguntava "qual a origem dos ventinhos?"

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Arlequinal



Não sou um mundo só de palavras:
posso oferecer deleite e refinada vinha
a quaisquer-bem-me-queres.

Sei mais que sons e gestos ensaiados;
quando finda a luz, cessa a cena
- e findará, em qualquer aurora.

Apesar da máscara pregada à cara,
há sempre uma amarra que se desprende -
um losango que cai.

São pesadas as minhas vestes arlequinais;
não obstante, tenho o coração a mostra.
Nu, mas em retalhos.


§ Ilustração de Sidnei Akiyoshi, feita em 2005 para o layout do meu antigo blog.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Túnel das ilusões


Eu andava por aquele túnel e percebia-me chegando ao fim, a luz estava próxima, os pensamentos envoltos em sensações de um outro lugar. Eu andava por aquele túnel e eu não estava ali, estava nas quimeras esplendorosas, no abstracionismo de amores novos e perdidos, mas ali eu não estava.

Eu andava, a luz me cegava, o pensamento me anestesiava. Eu estava ali naquele túnel e ela também, negra flácida, cabelos grisalhos, olhos caídos, desaprumada com um cadáver no colo. Tetas murchas, azeite jorrado, fétidas entranhas, o pretume do chão se molhava e a sujeira misturava-se ao odor, urinava.

Eu não estava ali, ela estava. Eu tinha a moeda, ela pedia. Eu tinha o casaco, ela tremia. Eu tinha os sonhos e eles esmagavam-na.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Carpe Diem

O hoje? não sei.
Tampouco sei dizer do que passou,
do que será.

Sei do que nunca há
nem há de ser... sei das
voltas e das espirais.

Sei porque entendo o verso,
o reverso do que sempre esteve:
sempre estará.

Estrela, és tempo para mim.
Tempo que não meço, mas vem e volta,
tira as coisas do lugar.

Teu mais forte brilho
Não hás de mostrar, tão assim, sem enigma
Haveremos de decifrar... de sentir.

Não sei se hoje ou quando.
Talvez nunca; sempre talvez...
Não raro, repito dizeres tais.

Não é concha, o teu habitar:
Estrela, és: ora no céu, ora no mar.
Isso, apenas isso eu sei.












§ Para Gabriela Camargo.

sábado, 25 de agosto de 2007

"Não, meu coração não é maior que o mundo"

Ilustração de Rita Braga
Meus lábios, minha voz...
Eu quero dizer.
Deveria?

Deveriam meus braços
tornar a ser abrigo?
Quereria.

Num abraço, próximo está o corpo querido;
mas distante dos lábios, a precisa fala.
Desejaria?

Outras histórias e gestos vividos. Como
ler no tato - no olhar - o pulso desejante? O desejo amante?
Poderia.

Se eu pudesse ver o quanto queres me dizer,
entenderias, talvez, que sou abrigo de teus anseios.
Por fim, deveríamos?

§ Ilustração de Rita Braga.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Mundo, mundo, vasto mundo.

A conversa é a interação de dois corpos, um pergunta e o outro responde, numa dança de sons, gestos, cores, risadas tornando o momento da enunciação um ballet de sentimentos. Um ato singelo de manifestar um interesse, uma curiosidade, um nada ou um tudo cheio de nada. É pela conversa que acessamos o outro, é pela conversa que nos colocamos como objeto sentimental para o outro.
Os corpos transcendem numa conversação, o olho pisca, a mão cala, o corpo dança a língua fala. Numa conversa refletimos o eu e o outro busca em nós aquele eu das sensações perdidas.

"Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
Seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração."

Não sei porque me deu vontade de escrever sobre coisas infâmes. "Eu não devia lhes dizer, mas essa lua e esse copo de ópio deixa agente saudosista como o demo!"

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Noite

Foto de Rui NabaisEra apenas uma noite.

Uma noite, muitos rostos;
muitos rostos e a embriaguez.
Não a embriaguez do vinho;
era o sabor da descoberta que nos entorpecia.

Vimo-nos, é certo, pela primeira vez.
Cada qual tirou o véu de seu coração e sorriu.
Deveríamos chorar, pois a janela estava aberta
e não era belo o que se mostrou. Mas sorrimos...

Havia o céu... nenhuma estrela;
a lua, Ártemis crescente, a lua eu já ofertara a outrem...
Restávamos nós e a rua - havia o céu e a perdida lua.
Ouvíamos, já, um ao outro?

Vozes confusas, talvez embaraçadas.
O fuso em mãos, novos sentimentos teceríamos:
renascíamos em cada palavra e, em todas elas,
Nossas vozes fundiram-se.

Não era belo o que se mostrava,
Mas tudo a nossa volta e a nós mesmos
O sorriso reinventava:
Olhar o chão e ver estrelas
No topo de um poste, avistar tão linda lua.

Era apenas hoje. Eram todos os amanhãs de nossas vidas.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Luas e Copos

Ali naquele lugar eu davaneei junto a ti, sorrateiramente pensávamos tufões e redemoinhos que giravam entorpecendo mentes e postes e luas, embaçando sorrisos, confundindo palavras, transcendendo risadas e provocando histerias.
Ali, bem ali, tinha um coração, um copo e uma lágrima que nunca caiu.

Sim

Entre o anúncio e a ação há segundos intermináveis.

"Quero te pedir uma coisa!"

Quantos quereres contidos? Olvidados mundos renascem neste intervalo.

E porque nossos souvernirs quebraram-se em bolsos de jaqueta, mochilas; porque nossos tesouros perderam-se de nós, menino e menina, enquanto brincávamos de roda, a resposta - qualquer que fosse, quaisquer fossem os pedidos - deveria ser sim!

Aqui estou, amigo querido, à sua espera!

Trago as mesmas vestes arlequinais; uma garrafa de vinho e muitos céus de muitas luas para reinventarmos.

Poderia ser conhaque.