terça-feira, 25 de agosto de 2009

Aniversário

O blog completou 2 anos sem festa nem vinho, mas com a certeza de que há um sentimento que subsiste às adversidades do tempo, espaço e massacrante rotina.
Te amo, Murillo. 

"De repente me bateu uma saudade da metafísica; daquilo que é caleidoscopicamente sublime. Quando transformo esse encontro de almas em ação cotidiana, me sinto menos só. Te amo."
Murillo Marques, 21/08/2009, por sms

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Ao amado, o antigo



§
Nesta manhã de claro sol reconheço a existência de homens mutilados caídos uns sobre os outros em nosso chão. Sei que outros corpos haverão de tombar ainda hoje e amanhã e depois. Ontem; ontem era permitido fechar um instante os olhos, esquecer o mal e o que está além. Esquecer o desconhecido em que habitam nossos fantasmas. Além do mal, porém, há a lâmina que passeia meu corpo. Sinto-a nítida beijando a profundidade de minha pele, buscando o limite de meus ossos. Sinto o contato vibrante com o metal; a incisão imperativa redizendo sempre "abra os olhos". Tenho me esforçado por não esquecer, para manter-me em vigília - sabemos quão difícil tem sido: descobrir o que é afago, entender o que é distância; amar a nudez desses mortos e chorar por eles.

Nesta manhã, clara do sol, ouço seu clamor e respondo: sim. Lutemos juntos, pois será impossível descansar enquanto houver guerra. Juntos, não seremos mais fortes e não teremos o mundo somente nosso. Seremos ainda apenas nós entre todos, sob os olhares cegos de toda a gente. Seremos apenas você e eu, ainda que desejemos ser todos, ainda que partilhemos com os famintos nosso pouco vinho e nosso nenhum pão, nossa muita luz que nada lhes ilumina. Mas há os campos e há a guerra. Lutemos. Juntos. Uniremos nossas mãos.

Faz sol nesta clara manhã. Entrelacemos as mãos e reinventemos as palavras que temos dito todos os dias, ainda que não haja emissão de sons e letras. Sabemos que estão próximas as palavras; soluçando sobre nossos ombros, sempre estiveram. Neste agora estão contidos o que foi e o que será. Assisto proclamadas águas banhando os cortes e chagas, restituindo nossas cores mais belas.

Permanece em nossa casa a visita da manhã. Não esqueçamos, amado, que unir as mãos e entrelaçá-las é também unir os corpos - pensamentos e sentires - de modo que nenhuma linha, tênue que seja, os divise. Em vindouros combates, conseguiremos ser os mesmos sentimento, porta e palavra ao chegar da noitinha?
§

sábado, 1 de agosto de 2009

Dueto


Por que tem de ser assim
um solo em dueto
minhas perguntas seus silêncios.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Rayuela


“Certo dia, deu-se conta de que seus amores eram impuros porque pressupunham essa esperança, enquanto o verdadeiro amante amava sem esperar o que quer que fosse fora do amor, aceitando cegamente que o dia se tornasse mais azul e a noite mais doce..."
Julio Cortazar

Caminhar
entre o céu e o inferno
já não é
um jogo de amarelinha
e
nossas palavras cruzadas
são como espadas
em combate.
Somos, então, adversários
nos mesmos pátios
onde fôramos
companheiros
de
travessuras.
Qual moira às avessas,
desfazem, nossos passos,
a urdidura.
Mas a pedra, a pedra na linha,
no meio do meu destino,
será a mesma
que carregarás
por todo o teu caminho.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A rua da província

desenho de Aldo Zanetti


Vamos tomar um chá de pernas com a velha senhora que vende seus minutos de prazer em tantos buracos, negociaremos um chá de glandeos, períneos, auréolas e pêlos. Ao fundo o som decadente de um blues irritante em sua sala de neons multicoloridos.

Esta velha senhora de néctar ousadamente delicado me deixa aos berros, coloca-me incerto de minha certezas planas, vamos beber o sumo candido em sua poltrona aveludada. Dona dos meus olhos, mostra-me o amor de suas virginias, abraça-me com seus paêtes e suas unhas encarnadas, deixa-me vulnerável com seu ópio, com seu sistema falho de ovulação.

Minha deusa, passei por muitas janelas em toda essas noites em que estive a vagar e a lutar contra dragões. No entanto, só agora que cheguei nessa província é que me deparo novamente em frente aquela única, de candeeiro baixo e paredes corroídas, em que eu não posso entrar.


sábado, 4 de julho de 2009

Carta ao dignissimo senhor D.


Digníssimo senhor D, venho por meio dessa carta informar ao senhor que o inverno chegou, as mocinhas trajam roupas mais quentes e os rapazes usam cachecóis, as árvores estão cada vez mais secas e peladas e as noites são um misto de marrom com um bordô meio enviezado para a tristeza.
Pelo visto o senhor tem trabalhado demais, e sua mãe, me diga dela, melhorou daquelas moléstias que o fez desaparecer tão repentinamente?
Por aqui as coisas andam frias, acho que logo mais a neve irá tampar a porta de entrada da casa. Sinto que é preciso que Agosto chegue logo e com ele os raios de sol primaveris, lembro-me bem do calor daqueles dias agostinos em que nós andávamos a contemplar os lírios e a dar risadas dos tolos obsecados que corroboravam com o cinzento ar matinal da cidade grande.
A Maricotinha está namorando firme, a Juju anda iludindo uns amores tolos. Terminei aquele livro e escrevi aquele texto, terminei o curso de datilografia e estou trabalhando numa repartição pública. Acho que me alistarei para o exército no verão, ouvi dizer que o Brasil está precisando de braços fortes para a luta armada.
Querido amigo, mande lembranças.Essa sua ausência que culmina nesse silêncio não lhe cai bem.

Do sempre seu companheiro de parque,

Mizu.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

O Trem das Cores




Eu queria um texto cheio de imagens, desses que vão refletindo como espelho aquilo que a gente não mostra claramente ao falar de amor, de solidão e de esperança, deixando toda a intenção real de quem escreve sublimada.
Um texto universal que falasse todas as línguas e ressonasse o som da chuva, chiando pelas encostas do riacho e desembocando na parte mais densa do mar tombando gotas fluídas de verbos esvaidos em flancos inflamados que pudessem dizer da paz que é sentir-se bem.
Eu queria saber usar as cores vibrantes e rubras dos tangos argentinos, que as minhas palavras escorressem como o sangue de minhas mãos cortadas pela lamina prata da navalha dizendo assim das escatologias, das visceras, daquilo que está dentro e que se põe exposto a partir do momento que o verbo se torna hemorragia de sensações.
O meu texto deveria pretender falar de coisas inerentes ao ser humano, mas eu percebi que sobre isso eu não sei falar, eu não consigo estabelecer a ponte entre o tu e o eu, não há o que dizer. Eu não sou poeta.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Jogos




Yann Tiersen - Comptine d´un Autre été: L´Aprés Midi
Found at skreemr.com

Nesta roda, também fui brincante:
ladrilhei as ruas que não eram minhas
para amores que não serão meus.
Sem mais voltas, finda a ciranda,
vou embora, digo adeus.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O marasmo.

1.
Assim ao Poeta a Natureza fala!
Enquanto ele estremece ao escutá-la,
Transfigurado de emoção, sorrindo...
.
Sorrindo a céus que vão se desvendando,
A mundos que vão se multiplicando,
A portas de ouro que vão se abrindo!
("Supremo Verbo" - Cruz e Souza)
2.
Marasmo: s.m. Magreza extrema, abatimento físico; atonia. / Fig. Estagnação, apatia, indiferença, descaso.
( Aurélio)
Eu tento escrever sobre esse nada, quero dizer desse vazio que não deixa a pena prosseguir. O marasmo.
Eu já tive a necessidade de ter algo para dizer, de saber como sentir, de me motivar para acender aquele cigarro. Hoje não.
Eu vivo, eu trabalho, eu não estudo mais.
É como viver da impressão, da imagem. Da imagem vazia.
Um significante vazio de significados, é incrível como até essas palavras não têm mais nexo, não tem poesia e nem tem sensibilidade é o verbo cru no presente que se esvai em linhas brancas, quero dizer nem em linhas porque as linhas não existem mais, é um universo branco que se borra com uma tinta preta, fedida, podre de palavras nulas.
Se eu pudesse pensar, ou agir, eu arrumaria meu quarto, tiraria as roupas do chão, dobraria meus lençóis, terminaria aquele projeto, colocaria a vida no ciclo comum de nascimento, crescimento e morte. Mas eu não quero.
Prefiro essa cadência de desencontros que não me encontra, prefiro esse samba de nada que um dia se chamou silêncio, prefiro a minha cadeira, a minha porta, os 3 metros de quarto em que me encontro nesta segunda feira ensolarada, mas fria.
O silêncio já não diz, o que é certo não convém, o que era para ser brilhante ficou perdido e o homem que eu me tornaria não faz mais diferença.

domingo, 10 de maio de 2009

Corpos Celestes

"Wrapped in Colour", Andrea Blackman


Se tua vista alcança-me em palavras, não te desesperes: és habitante em meu espaço. Todavia, se buscas ainda nestes infinitos: o corpo: haverás de tecer outras redes; caminhos de cometa haverás de percorrer. E eu-ilha, eu-planeta, permanecerei naquela mesma órbita, permanecem as mesmas coordenadas. Estarei aqui, à espera da colisão, talvez impossível, porém desde há milênios em mim inscrita
-
profetizada.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Não te enganes, isto é prosa


um dois três... cigarros
nunca aprendi a tragar
mas sorvi cada um deles
- teu prazer secreto -
como se teu sexo fossem

sexta-feira, 17 de abril de 2009

O Encontro ou "A persuasão de Caronte"


Orfeu, de Moreau (1826 - 1898)


Passos que se cruzam entre pernas que se trançam, nos pés sapatos, meias, pêlos, peles áridas que não se tocam e vão andando, misturando, corporificando e massificando tantos eus que estão aglutinados em nós. Neste mar de loucas enunciações entrecruzadas, entrelaçando-se, na grande metrópole o coito cotidiano segue, são milhões de referências, citações e soberbas ironias. Daqui ele vai para lá, risos, risadas, gargalhadas e histerias recheiam a tarde, passos entre braços, entre bolsas, entre rádios-celulares de alta resolução com seus mega-pixels que retratam o nada que se vê dentro de tudo. Corre as flores para a entrega, zarpa a moto pro delivery, são pastas de executivos, cabelos batidinhos, saias, meias calças, lojas, frango assado rodando na porta da padaria, exposições de arte assando dentro das galerias, livros, descontos, comprados, vendidos, difundidos, amassados, amarelados. Ali no café, depois no banco pra ir pro ponto. Prédio que mete tudo no céu sem vaselina ou saliva pra deslizar. Caos de manhã, aquecimento global a tarde, programa a noite. Vasto, vasto campo subterrâneo, rodam as loucas catracas numa sinfonia jazzistíca, apitos sonoros fecham portas errantes de uma vida que passa entre faíscas soltas dos fios elétricos que guiam o senhor Clímeno e seu cão Cérbero, que cuidam da distribuição das vidas pelas grandes estações subterraneas. Num instante, no meio da multidão que habita o Reino dos Mortos, o tempo se dilata. A lira põem-se a chorar. Eurídice vestida no seu manto azul celeste segue o fluxo putreficado dos que já morreram, mas por um instante ouve, reconhece e lembra. Olha para o tocador que com lágrimas nos olhos deixa-se engolir pelo som eletrizante do caos, ele abaixa a cabeça com sua candida lágrima a corroer o peito preenchido de silêncio. Eurídice olha-o e segue seu caminho.

domingo, 22 de março de 2009

Sobre as meninas e os lobos

Com o tempo a gente aprende que seguir regras, preceitos e dogmas não é garantia de que tudo vai dar certo. Ao contrário. Regras, preceitos e dogmas presumem uma realidade ideal e, muitas vezes, esquecemos o sentido da Vida em nome de aparências que se pretendem ideais. Deixamos de existir em nossa integridade para que tudo pareça e chegamos a crer mais nas parecências do que no ser. Regras, preceitos e dogmas geram medo. Medo de não ser aceito, medo de magoar, medo de ser magoado. Geram também perversidades. Porque tudo parece, há aqueles que em certas esferas de vivência suprimem de alguma forma o outro, o que teme e também o bravo. O inferno não são os outros. Há um pequeno inferno em cada um de nós e é preciso vencê-lo não apenas nas aparências. Apenas o verdadeiro respeito pelo outro; o reconhecimento dos limites entre o eu e o outro permitem a liberdade, permitem que a Vida se efetive em seu mais humano significado. Com o tempo a gente aprende que as piores coisas acontecem com quem menos merece. Aprende-se tarde demais, porém é quando as imagens falsas são quebradas e os elos verdadeiros fortalecidos.

Isso não foi um capítulo de auto-ajuda e não pretende ser nada além de um desabafo (desculpa, Menino Trovador, não foi esse o combinado para este espaço... mas eu precisava gritar... sei que ao correr seus olhos sobre essas linhas, eu os sentirei como um abraço...)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Tristeza no Céu



No céu da cidade

há também uma hora de

silêncio

Em que Deus não se pergunta nada.

ele só faz convulsionar lágrimas,

torrenciais e tempestivas,

de crocodilo pelo chão.

E põe-se a assoprar e apagar

os raios de sol

maldizendo

e extinguindo

um coloridinho

besta e inútil por de trás do morro.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Ausência



Beirut - Nantes
Found at skreemr.org


a mim, me confundem as tuas faltas
mais que a tua ausência em mim
a minha falta na tua falta
Campo Mourão/PR

domingo, 18 de janeiro de 2009

Fim de tarde na beira do mar


Relâmpago no mar,

é a mão de Deus que desce dos altos céus

para apanhar um golinho d'agua.

Marinheiro na beira do mar

senta,

bebe,

fuma

esperando que Deus alivie sua ressaca.



A lamparina acesa,

os barcos atracados no cais

Iaiá servindo um golinho d'aguardante

é o paraíso terreno.

Num fim de dia sem sol,

peixes fartos:

o silêncio da enseada se rompe,

às vezes pelos estrondos da mão n'agua,

às vezes pelo canto eufórico do marinheiro

à beira mar.

sábado, 17 de janeiro de 2009

"Hoje eu quero tocar a memória..."


Hoje eu quero tocar a memória com a ponta dos dedos e ouvir a quentura de sua face. Quando enternecida pelo longo tempo, a memória se nos dá febril. Seus beijos são labaredas em noite de chuva fina. Gosto de roçar os cílios na face dos dias passados; mas, sobretudo, amo sabê-los distantes de mim.
Desenho meu espaço neste instante e ao que não mais há, concedo qualquer gosto quimérico. As letras e as imagens são intensas como aqueles dias de sol em que estendíamos alvos lençóis sobre os varais; como as noites frias em que contávamos lágrimas sob a lua. Sempre a história de ontem; a mesma cor, o mesmo gosto.

Vou dando corpo às lembranças; vou lembrando o corpo de sensações então esquecidas. Esquecidas somente para que neste momento eu pudesse recordá-las; aproximam-se num tumulto de vozes como se me quisessem oferecer consolo, palavras de afeto.

Então revelo meu segredo em baixa voz: minhas mãos já aprenderam a morte. Pouco ou nada mudou. De nada valeu gritar o fim e anunciar novas paisagens. Sempre torno ao mesmo ponto, ainda que faça meu curso em espirais.

sábado, 3 de janeiro de 2009

"Algumas vezes, pessoas lançam ao mar..."

Algumas vezes, pessoas lançam ao mar pedidos de socorro em garrafas; outras vezes, os lançam por sob as portas e os fazem penetrar as casas e as vidas. Não importa em que língua falem, a quem queiram falar, ou o quê; são sempre os mesmos pedidos de socorro.

Não estou diante do mar; mas lanço garrafas com bilhetes e durmo ao canto gostoso das vagas. Um canto que não é, ainda, o murmurinho do mar; apenas o som do amor que eu imagino para aquele corpo de maré.

Maré - eu sei que não estará nunca, sem ir embora um pouquinho. Mas eu imagino: imagino infinitos e eternos; de outro modo não sei fazer. Os dedos brincam desenhos na quentura da areia, silenciosos grãos: invento meu novo amor.

Que os ventos não soprem antes que eu o saiba verdadeiro, quente, doce.

(outubro/2006)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Puzzle

Fui teu puzzle de 1000 peças.
Jogo de monta e des-
monta; esquecido e incompleto,
neste agora em que cansaste
de brincar.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

"era uma vez ..."


era uma vez, tudo de mim em duas palavras:
o não e o sim

mas só, apenas hoje, sou universo em vocábulos:
sempre ou talvez.





Imagem: olhares

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Um querer de Hamlet para hoje e para o resto dos dias.

Sei que não poderia escrever isso aqui neste blog. Desculpe-me querida Arlequinal, mas palavras me somem da ponta da pena e não há nada que eu possa fazer a não ser refletir o bloco de pedra que se entalou em minha garganta, e a dúvida que me assola, nas palavras do mais célebre personagem Shakespeariano.

A todos que aqui nos visitam eu digo que não, por favor não quero ouvir sermões, eu já tenho uma coleção deles no meu armário. Eu sei que tudo tem a sua hora, que quando Deus fecha uma porta abre uma janela, que existem coisas melhores guardadas, que tudo tem um motivo e dessas paspalhadas todas eu já estou farto.

Por hoje eu quero Odes infernais, sistemas digestivos inteiros, sucos gástricos e ácidos que me ponham numa efervescência completa, que me façam digerir o bloco de pedra, o grito que não sai e a lágrima que não cai.


"Ser ou não ser. Eis a questão: é mais nobre sofrer na alma as pedras e flechadas de um destino ultrajante ou pegar em armas contra um mar de problemas, e enfrentando todos, acabar com eles? Morrer, dormir... mais nada. E no sono acabar com a aflição e os mil choques naturais que a carne traz em si. Essa é a consumação que se deve querer como uma bênção. Morrer, dormir. Dormir, sonhar talvez: isso é que é difícil! Porque os sonhos que podem existir nesse sono da morte, depois que nos livramos desta confusão mortal, nos fazem parar para pensar. É isso que tanto prolonga a calamidade desta vida. Quem há de preferir as chicotadas e o desprezo do tempo, a humilhação do opressor, a arrogância do orgulhoso, as dores do amor desprezado, a demora da lei, os desaforos do poder, e os chutes que os talentosos pacientemente recebem dos indignos, quando o próprio sujeito pode encontrar a paz na lâmina nua de um punhal? Quem é que agüenta esse fardo, gemendo e suando numa vida dura, senão pelo medo de alguma coisa depois da morte, o país desconhecido, fronteira que ninguém cruza de volta, que confunde a nossa vontade, que nos leva a preferir os males que já temos do que voar para outros que não conhecemos? É assim que a consciência transforma todo mundo em covarde, é assim que a cor natural da determinação acaba desbotada pela palidez do pensamento, e grandes projetos importantes perdem o rumo, e não podem ser chamados de ação."

Morrer, dormir. Dormir, sonhar talvez: isso é que é difícil depois de um final de semana como este.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Às manhãs

 
Eleven a.m. - Edward Hopper
As manhãs acordam tarde
Já não há como sorrir
E segue o canto triste:
“Estou tão feliz”.
Se fora ontem,
Quem sabe?
Quem sabe não teria
compactuado da felicidade
pura e simples do coração
que se mostra aos olhos meus?
Mas não hoje...
Não neste momento,
Nestas dez horas em que levanto
Querendo estar em coma.
Não nesta tardia manhã que segue uma noite
de mal caídas
lágrimas
(luciféricas? malditas? dementes? lúcidas?)
Não... Não sou capaz de me unir
ao coração puro e simples,
que a noite e o dia já não me bastam!
Busco o limbo, o lugar dos não-sentidos,
dos não-sentimentos, da não-vida e da não-morte...
Só quero negar se puder neutralizar todos os valores:
O dramático, o épico, o lírico
Já não me convencem mais
A realidade (se há) tampouco.
Não resta em mim
nenhum dos humores...
Se não me é de posse o ódio,
Também o amor abandonei/desde o princípio
“Pássaro de asas tortas,
(dos amigos, de Carlos, de Vinicius,
de quem mais? Não me lembro agora...)
Queria dominar teu canto zombador,
Marcar tuas dádivas inexclusivas
Com números profetizados,
Lançar-te ao lago de fogo.”
Não sou Deus. E estou tão feliz!

29 de Dezembro de 2006

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Trem de Carga



"As partes idas
dos vagões são
três passadas,
nos cora as ações"

O astro


Homenagem a Marlon Brando

Sentidos vagos,
tormentas,
suplícios,
incongruências, martírios.
O corpo celeste
na cama perene.
O olho não preenchido
que sente a falta
do membro.
O corpo sereno
saltado na cama maldita,
gemidos internos
esporram estrelas
que grudam no lençol.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Receita para um abraço infinito



"No mais, quando distante o abraço,
há sempre que se dizer um "olá".
Quando ausente o beijo,
precisamos (sempre) compartilhar o silêncio
e, nele, nos fazer mais unidos."


Dante Gabriel Rossetti, Paolo and Francesca Da Rimini (Detail) [1855]


Uniremos algumas três palavras e de sua indissociabilidade será gerado um sentimento. Quero entrelaçá-las num sempre e nunca desatado nó - serão chave para nenhuma porta. Quero o amálgama entre riso e lágrima e que sejam nova palavra em vida.


E a palavra seja instante subtraído de seu universo; e a palavra esteja só. Toda ela, palpitando apenas minha no ninho de meu corpo. Amarei a palavra.

Palavra, sentimento, porta.

Mas este senão de pequenas e muitas coisas procuradas está me enlouquecendo. Meus olhos não percebem os espelhos a fluírem do ventre e sobre tais estilhaços calco os pés desnudos.

À dispersão dos gestos, somam-se outros passos; discípulos e perseguidores tingindo de sangue o solo que a custo semeei; e sei que essas tintas são o mesmo sol espargido em incessantes fios pelos beirais de nossas casas; fios que embriagam nossas plantas e tomam nossas janelas, umedecem as paredes de nossos quartos em assombrosas figuras.


Tanta seiva entorpece-me; são revelações condenando à vida quem lhes ampara. Abrem meu peito em versos e outros maiores golpes; contam-me a existência de um leito em que convergiram estas águas. Mergulhos irrefletidos incidem sobre nossos corpos; submerge a fonte onírica de onde provieram as primeiras gotículas de lucidez.

São outros os sentidos que habitam o profundo em que construímos nossos paços e ensaiamos nossos dias. Sorvemos as emissões de sons dos quais já não nos ocupamos; na superfície instável, florescem segredos a lançar amantes contra as rochas. Mas, ei-los, no silêncio e na escuridão, pois que resistem: porta, sentimento, palavra.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Surrealismos



esta falta de
foda
me funde a
cuca



Jovem Virgem Auto Sodomizada Pelos Cornos de Sua Própria Castidade - Salvador Dali

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Sem título e sem final

Summer Interior - Edward Hopper


Eu sempre quis as coisas simples. Vez ou outra esquecia-me disso, mas acabava por recordar. Nesse então, gritava a todos os ventos meu desejo de leveza; eram-me pesados os dias, as vestes, as palavras. Segundos. Não tardava e eu estava de volta ao mesmo quarto, refugiando-me nas mesmas velhas e novas manchas no teto. E elas pareciam mesmo falar, pingando a chuva de ontem e a de agora.

E já não sei se o simples e o leve coincidem. Pode ser que não, embora tente associar esses dois também ao amor e à beleza. Talvez eu esteja errada mesmo. Eu nunca compreendo. Mas era simples, sempre foi simples: estar lá, entre as mesmas paredes; meu corpo e só; era, ainda é simples. Mas o amor, o amor e os novos espaços capaz de criar, ultrapassa os limites da beleza e da simplicidade. O amor revela novos medos, caleidoscópicas palavras e construções sintáticas - o mesmo arquetípico sentimento.

Flores

"as flores do jardim da nossa casa
morreram todas"

Porque durante toda a nossa vida teremos três amores, independente do número de pessoas que passem pela nossa vida.
O primeiro é o clichê, aquele que a gente nunca esquece, sempre estará lá como a ferida mal cicatrizada, ou o agouro mal curado. Leva consigo uma sublimação mágica dos tempos da primeira ruborização, leva um gosto de saudade que nunca cessa.
O segundo é o amor intenso aquele que vigora a paixão e a intensidade ímpar do sentir-se amado e amar em retorno, muitas vezes egocêntrico, mas assim mesmo surreal e verdadeiro. É quando o individuo se vê só no meio da multidão, esperando um telefonema, um "oi", um "sim, eu aceito" que muitas vezes nunca chega, é o amor verdadeiro, mas passageiro.
O terceiro é menos primaveril como o primeiro, sem muitos veraneios e calores internos como o segundo, mas é aquele que vai querer casar, namorar e te acompanhará para o tempo que for necessário. É o amor de velhinhos à beira do mar com chapéus de palha, chinelas havaianas e tardes alaranjadas.
Enfim, tem sorte aquele que encontra numa mesma pessoa essas sensações, aquele que consegue perceber as modificações e as múltiplas faces do ser amado. Isso requer muita paciência e muito desentendimento, muita briga e muita aceitação, muita desidealização do que poderia ser feito e muito contentamento com o que é de verdade, muita lágrima e riso, muita roupa intima jogada com os dentes pra fora da cama, muito café, muito sms, muita cadeira de balanço, muitos esquecimentos de datas e fatos importantes, muita abdicação e muito sonho sonhado juntinho. Para que assim seja compreendida a inexplicabilidade do eu e do outro bricolado numa tessitura de quereres.
Ah, não tenho muito o que dizer por esses dias, esse texto é mais uma droga que escrevi e que não deu certo...

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Fragmentos (ou Contradições)

Olho para o mundo sem a desconfiança de quem acaba de ser ferido - ferimento causado por lanças inimagináveis.

Abraço. Beijo. Amo. Abraço sem braços. Beijo sem boca. Amor sem mágoa.

Vejo o presente como a um espelho que me devolve imagens invertidas do passado. Presente delicado; cores ricamente combinadas.

Não alcanço o dia em que senti pena de mim mesma em meu sofrimento de palavras.

Piedade? Posso percebê-la quando sou surpreendida pela confusão alheia. Desta vez não há como sentir-me culpada. Porém não consigo ser piedosa, daquela piedade distante; asséptica. Sinto-a como se mil cristais cantassem em estilhaços dentro de mim.

Mesclados aos fragmentos de transparência, líquidos quentes e frios - que não são ainda sangue.

São apenas uma idéia daquilo que poderia ser o sangue, sem perderem a propriedade de cobrir todo sentimento com cores e impressões indeléveis.


terça-feira, 28 de outubro de 2008

Exceção...

Brindemos, amigo meu!

Brindemos aos corações cativos, porque brindes à liberdade são clichê!
Brindemos aos copos que se quebram na mesa ao lado.
Brindemos aos aniversariantes de hoje e aos de ontem... e aos do mês passado, porque deles não me esqueci. Esquecer-me-ei dos aniversariantes do próximo mês?
Brindemos aos poetas, estão vivos e passeiam entre nós!
E peçamos piedade, piedade aos "puretas" que nada sabem sobre o nosso amor.
Brindemos ao poeta de régua e compasso, esquadro medindo o tempo e o espaço, ao poeta que amava Drummond e os seus três mal-amados; ao poeta que sorvido em "minutos de sabedoria" , mostrou-se sabedor de todos os segredos que convulsionam os nossos corações.


"Junto a ti esquecerei..."
(João Cabral de Melo Neto)

I
Junto a ti esquecerei as inúmeras partidas
- as cordas e as amarras nunca se quebraram
e talvez por isso eu permanecerei imóvel sob a tua influência...
Tu pesarás para mim como produto de âncoras
como a pedra amarrada do pescoço do pecador.
Os portos passarão a ser beira de cais
as terras longínquas nada mais me dizem
- quebrei a bússola para evitar a tentação.
Tua presença é poderosa como urros na floresta.
Sinto que extingues em mim
a sombra dos navegadores.

II
A tua atitude te eleva para o alto.
Vejo que cortaste definitivamente todas as amarras.
Daqui eu adivinho os olhos dos homens
perdidos no tempo que nada descobrirão de ti.
Deixa que os não-poetas falem de tua beleza,
esses nunca compreenderão o que há em ti de sombras
de sementes germinando, de vozes de cavernas.
Nem ao menos que é o teu olhar que nos aproxima
que nos torna irmãos para o resto do tempo.
Eu te reconheceria entre todas, porque tua presença eu a pressinto.
Deixa que tuas formas eles a tomem pela essência.
Esses te perderão ainda mais
e nunca compreenderão tuas inúmeras sugestões
que tu mesma desconheces.

III
Esquecerei os teus convites de fuga.
As coisas presentes serão absolutamente insignificantes.
Sentir-me-ei em tua presença como o primeiro homem
que se ia apoderando de todas as formas conhecidas.

IV
Esquecerei todos os convites de fuga.
Os portos serão para nós apenas
as âncoras e as amarras.
Nossos olhos não mais distinguirão
caravelas e transtlânticos sobre o mar.
Nossos ouvidos não mais perceberão
o barulho das ondas que são um chamamento constante.
Então leremos poetas bucólicos
debaixo de uma árvore que deverá ser frondosa.
Indefinidamente rodaremos em torno dela como num carrossel
indefinidamente estarás comigo.

1937

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

O tempo da espera...

O tempo da espera também me faz viver. Contar nos anéis cada segundo; saber que entre os dias há o instante em que silenciam os males. Eu queria levar meus pés aos campos onde caminha seu corpo; nos espaços em que, graves, acenam seus gestos. Porém, sei que isso não faria de mim, sua companheira; não seria pra você, aquela que sou. Decerto, sabíamos quem éramos, por isso existiu o amor. Quisera eu fosse o corpo e o rosto em que pudesse repousar sua face ao fim do dia, dos tantos dias que parecem não ter mais fim. Entretanto, sabemos, isso não faria de mim melhor amante — e não aprendi de todo, confesso, como ser a amante esperada. Espero, apenas. Brincando com a areia da praia, juntando esses peixinhos que pontuam minha vida — espero. Que há sempre neblina em meus olhos; e não tem sido também a névoa a nos fazer próximos? Ouvir o mar e seus ruídos é quanto basta para que permaneçam o nome e o amor. Eu quero tanto, tanto... e tanto querer já está contido em meu silêncio. O mesmo silêncio que sustenta minha espera pelo impossível, pela luz nascendo de sua boca e adormecendo estes cortes, estas inquietações.

*texto antigo, com pequena variação.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Biografia para Neusa Sueli com o mesmo desfecho de Emma (a Bovary, de Flaubert)

Inspirado numa leitura de Navalha da Carne


Hoje quando cheguei, o Vado ainda estava aqui. Então foi mais cedo que a gente brigou a briga nossa de todo dia. Antes, quando eu ainda me chamava Olímpia Eugenia, eu não brigava por nada. Ficava sempre quieta porque a tia me ameaçava bater e mais uma porção de pragas que me jogava se eu não procurasse andar direito. Eu ainda acreditava em Deus, naquele tempo, e tinha medo de sofrer todos os martírios que, dizem, existe no inferno. Agora eu sei que o inferno e a purgação são aqui mesmo nesta terra. Sei que o céu e o paraíso não existem em nenhum lugar.

Eu queria ter tido muitos irmãos, mas o dia em que eu nasci, em 17 de março de 1934, foi também o dia em que morreu minha mãe. Eu bebezinha fui ser cuidada por uma tia, ali mesmo na região de Sorocaba, onde o pai morava. A tia era boa. Era a tia Lurdinha quem me dava o comer e o vestir. Ela me ensinou a lavar, engomar e passar; me ensinou a fazer comida e a cuidar da casa.

Então, quando eu tinha seis anos e já sabia fazer todas essas coisas, fui cuidar do pai na tapera em que ele vivia. Desde que a mãe se fora, ele não mais conheceu mulher e passava os dias trabalhando na roça dos outros. Ele pouco falava comigo ou com qualquer pessoa. Quando chegava em casa de noite, ele tragava umas cachaças e cantava músicas tão tristes que me doía o coração só de ouvir. Parecia que ele já sabia que não existe nem céu nem paraíso. Só de vez em quando é que ele quebrava o silêncio e dizia: "- Limpinha! 'ocê precisa arrumar logo um marido, que não demora e eu desinfeto desse mundo e 'cê fica mais sozinha!".

Mas o pai não imaginava que eu queria, mesmo, era ser como a voz bonita de mulher que eu ouvia no rádio. Eu queria cantar cantigas que também enchessem qualquer coração de tristeza, tristezinha bonita, que faz o coração levinho.

O pai não queria saber do meu querer; me arrumou noivo e vestido. Eu tinha quatorze anos quando entrou aliança no meu dedo. Depois da festa, que durou três dias, o pai tomou uma colher de arsênico e descansou o corpo que carregava a alma havia tanto tempo morta.

Meu marido era homem bom e mascate. Junto dele, viajei muito por esses interior todos e aprendi toda sorte de vendagem fajuta. Ele também pouco falava comigo. Mas também não me batia, como fez o Vado ainda há pouco. O que me tristecia era ver tanta riqueza que ele vendia e a tão pouca que ele me dava. As peças estampadas que me negava eu via cobrindo o corpo das meretrizes nos lugarejos onde passávamos. Eu queria ser aqueles corpos e os vestidos que usavam, os anéis e colares que ostentavam nas janelas.

Um dia, nessas andanças, eu estava lavando roupa na beira do riacho, cantando as músicas tristes que o pai cantava para ninguém. Apareceu um moço, que era mais um boto de tão bonito, e disse que eu tinha voz de artista. Tinha certeza de que se eu fosse para São Paulo e me apresentasse na rádio, enricava em dois tempos e que ia viver coberta de luxo. Eu contei para o senhor meu marido e ele escarneceu de mim, numa gargalhada que ainda hoje toca na minha cabeça.

No dia seguinte eu parti com o moço bonito, me disse que eu não me chamaria mais Olímpia Eugênia Chalipp, mas Júlia Márcia, apenas. Na cidade grande, eu cantei. Cantei em um lugar bonito de paredes vermelhas de veludo, onde homens importantes aplaudiam minha voz. Ele disse que precisava ser assim, pois era ali que o dono da rádio me conheceria. Como eu era nova, eu precisava pagar para cantar, e como não trouxera nenhum dinheiro, dizia o homem boto, teria que me deitar com um senhor muito rico que pagaria para mim; se não o fizesse me cobriria de pancadas.


Eu queria cantar e me deitei com aquele senhor e com muitos outros, sem nunca receber convite para cantar em nenhuma rádio. Quando me atingiu a tísica, perdi minha voz e meu protetor. Não sei como me curei, pensava que fosse com o poder de Deus; não, agora não acredito mais em Deus. Em nenhum deus.

Uma vez curada, meu corpo recebeu muitos outros homens e nomes: Ana Pia, do Machado; Solange Magrinha, do Jorge; tantas de tanto. Hoje eu era a Neusa Sueli, do Vado. Agora, volto a ser Olímpia Eugênia, do meu pai. Como ele, mergulho numa colher de arsênico e desinfeto daqui.


*Texto com o qual representei a cidade de Osasco na Fase Estadual do Mapa Cultural Paulista 2007/2008.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Fragmento I

* Quadro de Salvador Dalí

É uma falange de dispersões que rodopia.

Hoje não chora, amanhã não ri, depois de amanhã esqueceu, daqui a um mês vinte e duas partes e daqui a um ano trezentos e tantos pedaços.

Lembrar é a causa de não seguir.

Dentro do grande armário das lembranças restam apenas grãos de areia guardados.

Grãos que remetem a praias distintas e distantes, grãos que constróem um mosaico de infortúnios e lamentações.

Lembrar, lembrar, lembrar e num sopro esquecer.

Esparramar e não saber se o vento voltará ou se a areia ficará dispersa,

perdida.

Para sempre perdida.

sábado, 9 de agosto de 2008

...postelunar... - aniversário de 1 ano


Poste Lunar 09/08/2007 05:01h Osasco


Sol: 16 Leão 23 Ascendente: 19 Câncer 10
Lua: 1 Câncer 23 2a. casa: 24 Leão 42
Mercúrio: 9 Leão 17 3a. casa: 1 Libra 04
Vênus: 29 Leão 52 Fundo do Céu: 3 Escorpião 08
Marte: 1 Gêmeos 21 5a. casa: 0 Sagitário 02
Júpiter: 9 Sagitário 56 6a. casa: 24 Sagitário 14
Saturno: 26 Leão 55 Descendente: 19 Capricórnio 10
Urano: 17 Peixes 53 8a. casa: 24 Aquário 42
Netuno: 20 Aquário 45 9a. casa: 1 Áries 04
Plutão: 26 Sagitário 31 Meio do Céu: 3 Touro 08


11a. casa: 0 Gêmeos 02


12a. casa: 24 Gêmeos 14

Seu Projeto:

Você nasceu na Terra para desvendar muitas intrigas, e envolver-se em situações e problemas de difícil solução. Nesse sentido, você terá de tomar cuidado para não se tornar o alvo principal dessas intrigas, assim como também deverá ser muito cauteloso para não pisar desnecessariamente nos calos alheios. De qualquer forma, o destino lhe trará muitos segredos que não poderão de forma alguma ser revelados, sob pena de acontecer coisas bastante fortes, talvez mais fortes das que você pensar, na hora em que se ver obrigado a administrá-las. Você se interessará por conhecer os meandros da alma humana, e será um psicólogo natural, tendo a capacidade de atrair as pessoas que precisem de apoio e conselho. Tome cuidado para não misturar esta habilidade com os assuntos amorosos, apaixonando-se por pessoas que precisem de ajuda, em vez daquelas que possam oferecer-lhe amor.

Fonte: Quiroga.net

Peregrino

"saudade? este
sopro que, em meu
corpo, grita."

sábado, 12 de julho de 2008

Nada

Nunca gostei que me olhassem fundo nos olhos. Meus olhos significam mais do que as milenares palavras de um dicionário.

Certa vez, numa situação de amor, lançaram-me um olhar febril de paixão, meus olhos convulsionaram-se de uma fria languidez e aqueles olhinhos souberam enfim o que tanto havia no meu coração. Aquela face empalideceu, o sorriso se desfez ao compreender o mistério que há no espaço entre o ver e o olhar.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Visto a máscara...


Visto a máscara e corro todos os bailes, mas eles não sabem. Eles não sabem que suas vozes e suor permanecem nas estampas que lhes envolviam os corpos, mesmo neste instante em que os namorados se fizeram conhecer e os risos recolheram-se no sono da embriaguez.

Então sou eu a buscar os retalhos esquecidos nos cantos dos salões. Tingidos de vinho ou sangue, são eles que compõem meu costume.

Parece não ter passado muito tempo desde que recusei meus trajes mais antigos. Tentei vestir o muito leve que são a cor do vento e o som de luas espirais. Permiti que desconhecidas vozes deslizassem sobre meus sentidos enquanto eu permanecia quieta, silenciosa. Não o silêncio de quem cala, mas o silêncio de quem não sabe e precisa aprender.

Aprender que as mãos — as minhas próprias e quaisquer outras — guardam algum segredo, algum encantamento: ainda que cerradas em punho, ainda que voltadas para o céu em completo abandono de prece.

Aprender que os pés sempre tornam ao antigo movimento — o mesmo andar desordenado de quando criança — apesar de o ritmo mostrar que, para além do mal, a vida e o desejo também são motrizes de mim.

Silêncio de quem acreditou nascer, em algum corpo de amante, o beijo que fizesse não mais pensar em infinitos e eternos sobre os quais, de fato, nada sei dizer.

Não estive sóbria naquelas manhãs; mas a fuga aos sentidos era necessária e esperada enquanto houvesse vestígios de tantas festas.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Amor Perfeito II


"Porém, como uma promessa de vida nova, te digo:
Regarei, cuidarei e amarei..."



Aprendi a máxima irrefutável de que não basta recolher as flores caídas e encerrá-las em livros. O muito cuidado não lhes restituiria vida ou beleza. Ensinaste-me que devemos reinventá-las junto ao corpo, como são inventados os amores. Conduzir os lábios ao cálice; estreitar o dorso aos espinhos; despentear suas pétalas para que, ausente, persista o perfume entre os dedos.

Ensinaste a mim o que aprendeste das orquídeas e dos narcisos. Não sabias, porém, que eu já lançara meu corpo a toda sorte de bem-e-mal-me-queres ou que, desde o primeiro instante, já me precipitara e me perdera no espelho de teus olhos. Não, não me condenes por esmagar flores em livros nem reclames a memória de eflúvios em tuas mãos viajantes. Contudo, se puderes chorar esta flor morta — parte do que em mim há do mais vivo amor apieda-te também das violetas.

Pequeninas, confundidas e esquecidas entre o solo fértil e as plantas dos teus pés.

domingo, 6 de julho de 2008

De quando beijei a morte...

Francis Picabia, Femme aux oiseaux



Eram cinco ou seis grãos de areia dispostos de modo a imitar a forma de uma casa. Casa branca, murada baixa, cortinas azuis a cobrir a vista de seu interior. Dois pássaros: amarelo; preto. Nunca alçaram vôo, senão no interior da casa que desde sempre habitaram. O mesmo espaço ruinoso persistia em sua brancura de paredes, tal como se fizera existir no instante de sua construção. Então num sopro - muito leve sopro de menina - cada um dos grãos ventou o som de sua própria voz, lançando em espanto as aves dormentes.

marcela p. em 13/11/2004

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Conversinha Real


- E então não é lindo?
- Lindo! Mas tem de tudo mesmo?
- De tudo, só não tem favela. Proporcionamos saneamento básico e um programa de educação sexual para reduzir a natalidade.
- E fome, têm?
- Distribuímos cestas básicas, vale refeição, décimo terceiro, quarto e quinto salários para os trabalhadores. Aqui a fome passa longe!
- Casas?
- Próprias.
- Economia?
- Crescente.
- Desemprego?
- Nulo.
- Homicídios, seqüestros e roubos?
- Quase zero. Sequestro, o que é isso mesmo? Ah! Deixa de bobeira Manuel, não precisamos de cadeia, aqui o cidadão é honesto.
- E aquelas mulheres ali no porto?
- São Helenas, Marias e Joanas esperando por marinheiros, poetas e economistas.
- E os tísicos? Elas também esperam os tísicos?
- Já disse que tu terás a mulher que quiseres na cama que escolherás.
- Mas eu ainda não sou feliz.
(Tosse, tosse, tosse.)
- Respire Fundo Manuel!
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- É disso que precisas, ar fresco, prostitutas bonitas e banhos de mar. Isso não é felicidade?
- Majestade, um quase defunto como eu destoa nesse paraíso.
- Então não vais ficar Manuel?
- Sinceramente? Vou-me embora. Pasárgada é um soneto de amor romântico encerrado.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Deitada no topo...

Gustav Klimt - The Sunflower


*para ler ouvindo The Scientist, Coldplay;
continuar ouvindo depois de ler e,
se possível, voltar ao começo...



Deitada no topo do meu girassol, esqueço melhor o mundo. Mundo inventado em pedacinhos de papel; desenhado nas paredes de meu quarto com um movimento de olhos. Às vezes, o corpo cansa desses jogos - de vida ou de invenção - e precisa estar quieto. Esqueço tudo; esqueço de mim na superfície desta ou daquela flor. É o sol, somente, a vestir quentinho a pele nua, o coração exposto. Nenhum êxtase ou comoção; apenas a calma, a serenidade.


sábado, 28 de junho de 2008

"mar de amor, ..."




mar de amor, em ondas
me vagueias, enreda-me em tuas teias
ardentes águas-vivas





Imagem: First Light, Christina Hope (1989)

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Romeu Silenciado.


Não foi o rouxinol nem foi a cotovia. Acendo um cigarro apressada olhando pela janela, não há notícias suas no rádio nem no jornal. Desaparecido.

Faz tempo que você se foi, prometeu-me um sinal, uma volta, um vôo rasante para me buscar. Dizem que está no México, mora num trailer, vive os dias mais quentes andando pela relva curta que nasce aos poucos na terra vermelha da América Central.

Daqui dessa janela o universo é azul, monocromático, estático. O frei veio benzer-me, nos casou há dias e também não traz notícias suas. Confessei, me matarei numa tarde cinzenta. Como uma mulher vive sem o marido antes que ao menos o ato fosse consumado?

Está confessado, mato-me agora e ninguém me possui.

O que é uma rosa? Um cheiro, um nome, uma cor? Continuaria sendo uma rosa mesmo tendo outro nome? Claro.

Cigarro, arsênico e pólvora.

Um bilhete singelo: Querida volto hoje para buscar-te.

Não foi o rouxinol nem foi a cotovia a madrugada é eterna.


* Ilustração de Octavia Monaco para o livro Romeu e Julieta, Nicola Cinqueti