sábado, 19 de junho de 2010

Poema

Enfim, um poema limpo
sem vísceras
nem lágrimas
sem saliva
nem gozo
só o poema
sem poesia.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Entremeio

Modo de usar: lê em sussurros...
 
Victoria Abril e Antonio Banderas em "Ata-me!" de Pedro Almodovar.

Para R. H. S.


Queria encontrar o fio e desfazer a trama que todo dia se emaranha no meu coração. Refazer o novelo, desenrolar a novela sem mescla de drama. Vem. Ajuda-me neste enredo, tira de mim o medo de voltar pra tua cama. Desenlaça meus cabelos; qualquer bobice, exclama. Ata-me! neste ponto. Ensaia a cena, prepara o ato, enfrenta a chama. Lança as teias deste conto, escreve em mim o gosto de ser tua cortesã e tua dama. Vem. Aproxima o rosto, aperta os laços, dize que também me...

domingo, 6 de junho de 2010

Esse sentimento

"Ah, não acreditas em mim. Pois eu acredito na sua descrença e já penso em como parecer mais verdadeiro, em mostrar dados, fatos; esta aí: minha vida. Mostro-a com minhas duas pequenas mãos. Ainda não posso falar, porque toda essa correria me fez perder o fôlego.
Respira então criança.
Acredito nas pessoas e no poder de revelação delas, daí que surja sempre a desconfiança em mim. Estou sendo correto? - pergunto."
Mateus, O Antigo




Aprendi que não se diz "respira, criança" olhando nos olhos e pronunciando os fonemas de "respira, criança". Dizemos isso estendendo as mãos, tomando nos braços, beijando. É assim que se faz. Assim devemos fazer para que a criança confesse o vaso quebrado e não precise mais mentir, e perdoamos.

As crianças mentem o tempo todo e não é de maldade que o fazem. Eu minto às vezes e sei que você quase sempre duvida de mim. Digo que você deve mesmo duvidar, mas apesar da dúvida peço que confie em mim. Confie no amor que declarei assim: olhando nos olhos e pronunciando cada fonema de "eu te amo" - um "eu te amo" sufocado entre tantas outras palavras desnecessárias, erguidas como barreira entre a verdade enunciada e a realidade imediata.

Não acredite, porém, se sob a garoa fina eu pedir para que vá embora. Eu quero que fique. Eu quero você sempre perto e não sei por qual motivo. Não sei porque eu te amo e não acredite em nenhuma de minhas tentativas de explicação - eu não sei explicar e talvez não queira mesmo racionalizar esse sentimento. Não esteja tão certo de que quero ficar sozinha se por acaso eu voltar as costas - eu quero que impeça minha partida. Mas de tudo isso, e tantas outras coisas de que você pode duvidar, não duvide nunca de que eu te amo.

E se eu disser que não espero nada de você, duvide. Eu digo isso apenas para que você não se sinta constrangido; trata-se de uma resignação forjada - uma defesa contra esse peso tão pesado e disforme que é a esperança. Eu não espero nada de você, apenas que me surpreenda nesse meu querer. Não exijo nada de você, mas eu quero tanto...

Não sei se cabe ao amor dissipar a amargura que nasce na alma no infinito dos tempos, de um tempo que o homem nem ousa medir. Não sei se é preciso estar vazio para o amor se fazer pleno - isso é você quem diz. E se não fosse você a dizer, eu teria amado essas palavras? E se não fossem suas as palavras, eu te amaria tanto? Ninguém deveria se preparar para o amor, julgando que um dia estará pronto - porque amamos, plenos ou vazios, por tudo o que fazemos e dizemos. Eu te amo por tudo o que você faz e diz; te amo por tudo o que você quer fazer e dizer; te amo por tudo o que você não quer fazer ou dizer; por tudo o que silencia.

E também te amo pelo que eu mesma faço ou desfaço, digo ou apago, grito ou calo.

dez/2004

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Futuro Imperfeito

Antecipo o final:

Não de todo desperta, abrirei os olhos para o vulto ao pé da cama. Demoro a reconhecê-lo. Jamais o surpreendera assim, me observando. Talvez estivesse absorto entre ideias inóspitas; refletia, possivelmente, um futuro sem razão.

Voz doce, trêmula. Ar sóbrio em trajes negros. Luto pelo amor extinto.

- Não quero mais, Marcela.

- Tá bom...

sexta-feira, 28 de maio de 2010

maria, Maria


(Ilustração de Camila Paulino)


Ou isto ou aquilo. Hoje sou Maria, não mais maria. Porque maria era aquela que quanto mais se pedia, mais e mais chovia. Infindáveis versos de Drummond me fizeram encharcar a alma com toda sorte de águas. Deus bradou um dom. Hoje existe apenas Maria; a que olhava e sorria: "Bom dia!". Nunca pude ser a mais bela,  mas conheço bem a altura de minha janela e sorrio: "Bom dia!". Também não sou a mais sábia menina - que essa guarda em seus olhos toda a dor do mundo e eu não sofro tanto assim. Tudo o que faço (e já fazia) é sorrir: "Bom dia!".

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Meus amores vãos

Em memória de Ísis Rodrigues



Suponho que me entender
não é uma questão de inteligência
e sim de sentir, de entrar em contato...
Ou toca, ou não toca.
Clarice Lispector


Não é o gosto pelo trágico, meu amor. É a aversão pelo que é metade.

Eu não queria ter abandonado sua cama sem me despedir, há alguns anos. Eu não queria ter feito você adoecer, há alguns meses. Eu não queria ter batido a porta do seu carro, hoje à tarde.

Eu queria que todo aquele amor em cânticos, tivesse se feito carne ao menos por uma noite para eu me sentir mais viva. Eu queria que aquele desejo demoníaco, se satisfizesse todos os dias de nossas vidas para eu me sentir eterna. Eu queria que você me lançasse palavras duras, ásperas, que expressassem a medida exata do seu desprezo por mim; para eu saber o meu lugar, para eu sentir que você está vivo.

Eu queria que você tivesse me resgatado; segurado firme a minha mão e não me deixasse fugir nunca mais: porque eu já não sei viver sozinha.

Eu queria que você tivesse me assassinado - docemente - na última noite, me punisse por toda a minha vileza: porque eu já não sei morrer sozinha.

Eu queria que você me curasse ou me ferisse: porque eu já não sei amar sozinha.

Eu queria que você, o que ainda me ama, fosse capaz de me desejar. Você que às vezes me deseja, fosse capaz me alcançar. Você que sempre me alcança, fosse capaz me amar.

Eu queria que vocês tivessem corpo, nome e voz.

Não, não quero nada - abismo e silêncio, talvez - mas que seja por inteiro.


*


Perdão, minha pretinha, por dedicar em sua memória um textinho tão mal escrito, cheio de rasgos sentimentais, feito no calor da hora - caneta bic em papel manchado de lágrimas. Mas pra além do sorriso mais bonito do mundo que você tinha, eu lembro de você recitando e se emocionando com o "Poema em Linha Reta" do nosso Álvaro de Campos. Lembro das palavras da Clarice que me serviram de epígrafe e que foram as últimas que você usou em seu perfil. Penso na blusa vermelha d' "O Teatro Mágico" que você usava quando toquei suas mãos frias pela última vez e eu sei, eu sei que "sou tão perto de você". Te amo. Esteja bem. Luz!

domingo, 23 de maio de 2010

"Não era preciso que dissesses..."



Não era preciso que dissesses dos precipícios. Tenho caminhado em derredor deles e, vez ou outra, mergulho. Mergulho num salto largo rumo ao que minha vista sequer alcança: não aprendi ainda a decifrar teus olhos. Sei que são duros como a rocha onde firmo meus pés, sei que são áridos como os vales de adiante. Não poderei cultivá-los como faço em meus jardins. Os jardins são espaços de artifícios que servem às minhas tentativas de enredar toda sorte de passantes. Apresento-lhes as cores e as fontes, mas, sabíamos desde sempre, eles são cegos. Esmagam as pequeninas flores a pés desnudos e partem; deixarão nestas terras senão um tanto de si. Resistem os penhascos e as selvas, permanecemos nós.

sábado, 22 de maio de 2010

Reencontro II

§

Naquela noite redescobri como pude amar o menino. Lembrei-me. E lembrar, desta vez, não trouxe lágrimas. É certo que chorei. Mas um chorinho de alegria tão aérea, como jamais a tive. A nascente de alegria assim seja, talvez, o saber que nossos percursos não deformaram o que outrora nos fez unidos. 

Não, menino, não é ousadia supor seu percurso, seus caminhos. Sei que foram distintos dos meus pelo fato único de que em nenhum momento dessa jornada estivemos lado a lado. Minha visão talvez estivesse embaciada, porém confio em meus outros sentidos. Nesse tatear estradas nunca estive desatenta ou menos viva. Posso então dizer que foram distintos nossos percursos - estarei certa.

E nesses caminhos, tais quais navegantes ferindo mares intocados, tanta maravilha encontramos. Crescemos? Sim; mas não assim tão muito, pois somos ainda capazes de decalcar no mundo as cores da poesia. Reencontrando o seu, meu canto fez-se mais vívido. Reconhece em si a agudeza da vida, o pulsar destes algarismos todos, os infinitos signos. Reconhece sem decifrá-los.

Eu queria ter dito "vai-te embora, rapaz morto" e estaríamos já há mais tempo libertos - mas era o espinho de suas vidas outras que ainda feria meu seio e confundia-se com minhas já vividas angústias.

Éramos, menino, feitos de diversa matéria, porém éramos iguais em essência: o primeiro homem e a primeira mulher. O sopro que nos trouxe à vida foi o mesmo que espraiou o orvalho de minhas carnes fora de seu paraíso... Banida, estive vagando a lançar maldições e murmurar feitiços; busquei seus medos e brinquei com eles; eu era, então, sombras.

Mas hoje somos o pássaro e a menina; as primeiras coisas, dores e clamores, são passadas. Estão limpos os nossos olhos porque houve o intervalo da reinvenção. Eis que criamos nova mão e novo braço, verdadeiros cuidados a quem amamos. 

O braço acolhe, a mão entrega: a Deus. E hoje em meus braços você é uma oferta. Sei que são outros seus deuses, deusas e mitos; mas você bem sabe que já foi um dia meu único objeto de fé. Há, portanto, fração de seu sentido em mim - havia. Hoje faço o sacrifício último. Adeus, menino bonito.




Mundo maravilhoso, 
que guarda em algum lugar secreto 
o pássaro encantado que se ama…

Rubem Alves


§

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Reencontro



Para um instante e pergunta, olhos contra olhos:
- Cadê, hein?
Diante de minha expressão de dúvida, enfatiza:
- Cadê, hein? Cadê a marca do 666 no seu corpo?
Não sei o que responder. Percebo-me ainda mais nua; descoberta em meu segredo, pois sei que um demônio habita o meu coração.
Calo, atônita. O demônio sorri.
Novamente, só. Penso em como eu era. Penso nos meus atuais gestos de súcubo. Tenho a resposta tardia e desnecessária, pois ele bem sabe:
- Diga você. Foi você quem a inscreveu em mim, há exatos dois anos.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Ritornelo

A perplexidade diante das palavras não é privilégio das crianças e dos poetas. Também nós, pessoas comuns, nos surpreendemos distraídos a repetir uma sequência de fonemas, como fôssemos pregoeiros; religiosos. É o efeito encantatório das palavras que subtrai nossas vidas da banalidade, do usual. Nem sempre se trata de uma palavra por si bela, como "centopeia"... É tão gostoso repetir inúmeras vezes... centopeia... escandindo... centopeia. Inúmeras. Inúmeras. Acalma. Deixa mais leve o espírito. Repetir os sons à exaustão, reduzindo os semas, esvaziando o significado... ah, maria maria... tereza... repetir, reduzir, dessignificar... ah, maria... ah, tereza... joão raimundo joaquim joaquim joaquim escandindo joaquim joaquim joaquim joaquim joaquim joaquim o amor comeu metros e metros de gravata joaquim joaquim

segunda-feira, 15 de março de 2010

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Palavra


"Pensar numa flor é vê-la e cheirá-la

E comer um fruto é saber-lhe o sentido." - Alberto Caeiro


O que mais me apavora são os sons abstratos das palavras que eu não vejo, eu ouço, eu penso, eu construo por meio desse código o discurso, eu sinto todas as sensações. Eu juro que sinto. Me sinto, em muitos momentos, fantoche das palavras que eu sei que existem aqui dentro, mas quando pulam da minha boca ou da tua boca pra fora não são mais simples combinações de códigos ou palavras que a gente aprendeu, são sim a combinação de todas as outras palavras que ainda não sabemos e que nos fazem organismos vivos.


Minhas palavras são folhas mansas levadas pela rudeza dos ventos fortes que passam, são abstratas demais as minhas sensações, é quase impalpavel e imensurável o tamanho dos meus sentimentos. No entanto são tão fluídos, tão vertiginosos e tão invísiveis que precisavam ser concretos em folhas de papel, em livros de romance, em páginas policiais, em textos de teatro, em muros, em portas, em cimentos frescos em traseiras de caminhões em adesivos autocolantes em embalagens de shampoo em lousas verdes pretas e brancas em caixas de sapatos em outdoors em corpos nus.


Eu queria poder dizer o que eu sinto.


As palavras correm no ar, fragmentam-se nos ouvidos alheios, os sons do meu amor são captados por todos ouvidos que me cercam, mas os sons do meu amor servem de fato para ti uma pessoa no interlúdio da nota anterior e da seguinte.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Vem, ou a oração do amor carnavalizado.


Vem meu amor,

vem

que eu estou inteiro

intenso

pleno e de peito aberto.

Vem meu amor,

vem

nas faltas

nas inconstâncias

e inconsistências

vem na insegurança.

Vem meu amor

vem

me conhecer como eu realmente sou

vem me reconhecer.

Vem meu amor bandido

mesmo sem circunstâncias

sem caridade

vem pra girar minha cabeça

vem pelo sexo

pelo beijo

vem

por aquilo que pulsa

por aquilo que jorra

por aquilo que goza

vem

por aquilo que geme

vem meu amor

pela falta de sol

pelo excesso de chuva

pelo mormaço

vem...

...vem

...

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Poeminha para Quarta-feira

para R.H.S.
Que tudo se desfaça em chamas; meu corpo em brasa...
Chamaste-me e meu fogo se fez no teu.
Que tudo se desfaça em chamas e restem somente cinzas;
Que tudo seja desfeito, mas só ao fim do carnaval.

 Álbum Nihilistes da banda Celeste.









quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Transitivo Indireto

(The Embrace, Schiele)

para R.H.S.


Gosto do teu cheiro e do teu gosto.
Do suor e do gozo.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Dessine-moi un mouton

Outro dia, desses dias em que chorei, o André me abraçou pra eu nunca mais querer partir e disse que eu era uma menina. Menininha de seis anos. Sorriu. Sorri; chorando ainda porque preciso crescer e não sei como isso acontece.
Eu imaginava que a gente crescia um pouco a cada amanhecer, então, já velhinhos, a gente passava a encolher e encolher até desaparecer pra sempre desse mundão de Deus. Acho que foi meu pai que me ensinou assim. Mas o sol vem muito freqüentemente por aqui e continuo a mesma tontinha de vinte e cinco anos atrás. O pai gosta de contar causos pançudos e eu tento acreditar, porque sei que cada história é um presente.

Meus olhos brincam com qualquer coisa, pequeninha, que eu ganhe. Seja a boneca que vi num anúncio de televisão (tão linda), o caramelo comprado na doceria do seu Sílvio ou a letrinha que me foi ensinada ontem. Eu me alegro muito facilmente ainda, percebe-se.

Só às vezes, e às vezes tem se repetido com frequência, sou triste. Triste, me transformo na boneca de louça que minha mãe sempre teimou em não quebrar. Ela fingia que sim, mãe brava, mas eu sei que os cuidados persistem. Desse jeito amor de mãe põe medo em criança que quer crescer, pois em muito lembra a dívida que todos nós temos com nossosenhorjesuscristinhoquemorreunacruzparanosredimirdospecados. Mãe, quando a gente-anjinho morre, vai pro céu? Se eu rezar bastante e tomar biotônico acordo bem crescida?

Faz um sol bem bonito - com montanha gaivota e mar - um sol que seja abraço infindo e eu sei que não vou mais querer fugir. 


(imagens do livro Le Petit Prince, de Antoine de Saint-Éxupéry)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Texto antigo com gosto de novo

§ 

Navegando os ventos de tua íris, aprendo melhor a imperfeição dos meus amores. Deixo o corpo um tanto solto, embalada pelo tropel de tuas ondas - tão azuis como o céu onde recolheste tuas mágoas. E todo ele, o meu corpo que já imagino teu, se faz também em vagas; projeto em mim o movimento das estampas que tens amado; pequeninas flores de toda cor. Esqueço-me por instantes que são tecidos leves os teus desejos; distintos, distantes dos retalhos que tenho reunido em minhas vestes arlequinais. Esquecendo um tanto as correntes que ancoram meus passos, posso amar-te. E há temores em meus braços quando lanço a impossível rede que trouxesse teu perfume até mim. Não quero hoje a dor dos espelhos; mirando as tempestades inscritas em minhas janelas, perco-me, como se fossem por mim o peso de tuas águas. Mergulho em tua pupila, menina dos olhos, evitando sentir na língua o sal de minhas tormentas.

§

Para Gabriela Camargo e seus amores,
aos meus amores.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Ao amante




§

Escondo minha face de seus olhos, porque a mim mesma não me posso ver em tantos espelhos. Ferem-me o peito essas imagens, entenda. 

Entenda que eu não busquei suas mãos; o contato se fez ao acaso, ou por algum motivo que somente se revelará quando vierem sobre nós as estrelas. As estrelas e a voracidade de suas luzes; verdadeiras luzes - luzes que roubam de nós todos os sentidos, deixando apenas a fome e o insaciável. Entenda. 

Entenda que eu não posso morar em seus braços, por mais hospitaleiros que possam parecer. Tenho já a minha casa e não foi sem lutas que levantei suas paredes; amo cada grão de areia que juntei para construí-la; amo o barro e o sangue com os quais temperei seu reboco; amo as frestas pelas quais observo os encantos de alheios jardins. Mas, entenda, que eu não posso tocar aquelas flores. 

E também não engane a si, se eu mesma sou capaz de ouvir seus pés à minha porta - você já está aqui dentro. Sinto que já está aqui dentro, mas eu, eu estarei sempre no detrás das velhas cortinas e não permitirei que seus olhos me alcancem, porque são viajantes. 

Tenho medo de seus olhos e não farei de meu corpo algum porto ou pouso; tudo o que sou são esses muros e essas velas apagadas.
 
Sei da fragilidade desta minha casa e antecipo a existência de tormentas, ou leve sopro, que a faça ruir. Neste dia terei de retomar a insegurança de meus caminhos, tortos. Serei novamente espírito peregrino em desconhecidos céus. Por isso, amante, peço que entenda. Entenda que, hoje, eu tenho pouco a oferecer, embora seus sinais sejam estrada para mim.
 
§

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Amar é pensar

"Penso em ti, murmuro o teu nome; não sou eu: sou feliz."
("O Pastor Amoroso", II, Alberto Caeiro)


- Diga: o que vê quando olha dentro dos olhos dele?
- Eu vejo que são verdes.



"E sentiu que de novo o ar lhe abria, mas com dor, uma liberdade no peito."
("O Pastor Amoroso", VIII, Alberto Caeiro)

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Textos de brisas, ventos e algas...



Nesta enseada a brisa tropical anuncia a chegada da chuva que cai levando cores, lavando nomes, aquificando sons. É neste colorido de sensações que seu nome me vêm à boca, escorre pelos dentes como um bulbucio lacrimoso e engasgante. Olho ao redor e estou sentado na beira do cais, deixo os pinguinhos caírem sobre o papel, ninguém está aqui. E a guerra tempestuosa de nuvens contra o oceano escurece o horizonte e eu, espectador solitário, envolvido numa brisa quente de lembranças ponho-me a contemplar maravilhado as teias relampejantes que trincam destinos e abrem caminhos .
* *
*
Nesse dia vejo o sol que sai fugídio pela tangente do meu campo de visão. Lá vai ele colorindo o horizonte de uma noite de esperanças, de corpos lívidos que se encontram e se separam numa dança de desencontros.
* *
*
Em cantos
me despeço
em adeuses tronxos
Dez entre cantos
eu me perco entre todos
que me rodeiam.

sábado, 31 de outubro de 2009

Um ponto é...



.


Um ponto é uma convenção como tantas existentes. Sinal que se quer preciso - um sinal para quem o lança e para quem o recebe. Nisso e não em outro fato reside seu significado, suas significações.

Eu queria precisar uma ruptura. Eu queria precisar um começo
na outra linha, parágrafo (dois dedinhos), letra maiúscula. E tenho feito isso, deixando entre as linhas espaços em branco.
Mas são cavalos-marinhos, peixinhos, que pontuam minha vida - há muito desde que disse isso certa vez. Equilibro meus passos entre muitas dúvidas e algumas exclamações, reticências. Convenções?!...

Gosto disso.




E gosto de tocar mãos que me tragam estrelas, flores, pedrinhas.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Iniciantes

Duas coisas estão certas: 1) as pessoas já não se importam mais com o que acontece com os outros, e 2) nada mais faz alguma diferença de verdade. Vejam só o que aconteceu. E mesmo assim, nada vai mudar entre mim e o Stuart. Mudar de verdade, quero dizer. Vamos ficar mais velhos, nós dois, já dá para ver na cara da gente, no espelho do banheiro, por exemplo, nas manhãs em que usamos o banheiro ao mesmo tempo. E certas coisas à nossa volta são mudar, ficar mais fáceis ou mais difíceis, uma coisa aqui, outra ali, mas nada será diferente de verdade. Acredito nisso. Tomamos nossas decisões, nossas vidas foram postas em movimento e vão seguir adiante, até a hora em que vão parar. Mas, se isso for mesmo verdade, e daí? Quer dizer, a gente acredita nisso, e mantém isso escondido, até que um dia acontece uma coisa que devia mudar tudo, só que aí a gente vê que, no final das contas, nada vai mudar. E daí? Enquanto isso, as pessoas em volta da gente continuam a falar e a agir como se a gente fosse a mesma pessoa do dia anterior, ou da noite anterior, ou de cinco minutos antes, mas na verdade a gente está passando por uma crise, o coração sente que sofreu um estrago
(trecho extraído do conto Tanta água tão perto de casa - Raymond Carver)
*
Why do you come here when you know it makes things hard for me?(...)I'm so sorry!
*
Cena criada a quatro mãos com Anna Carolina Consenza no domingo dia 27/09, para nossa aula de montagem. O texto foi criado a partir do trecho extraído acima e de experiências de vida. Peço licença a minha querida Marcela, mas é que esse texto diz muito para mim.
*
(para ler ouvindo Suedehead - Morrissey. A cena só terá sentido se for lida ao som dessa música) http://www.youtube.com/watch?v=0AvuweztG4Q
(ritmo intenso, ofegante de respiração acelerada)
Ela - Desculpa.
Ele - Porque você fez isso?
Ela – Medo! Medo de acordar de manhã e olhar pro lado e ver que você está lá!
Ele – Mas era pra ser assim não era?
Ela – Não sei!
Ele – Não sabe? Quinhentas pessoas dentro daquela igreja sabiam e você não sabe?
Ela – Esse casamento não era pra mim!
Ele - Então pra quem era?
(silêncio)
Ele – Quem é você?
Ela- A esposa.
Ele - Egoísta
Ela – você tá aqui pra quê? Pra pedir pelo amor de Deus pra eu me casar com você, pra dizer que me ama e que toda sua vida se resume a uma mulher que você nem por um segundo conseguiu perceber quem era?
Ele – Você nunca se entregou e eu sempre me doei (...) pra você me deixar plantado no altar. Caramba, eu tô aqui, você não tá se vendo? Até ontem você dizia que me amava e que a gente ia ser um só pra sempre.
Ela – A gente ia...
Ele - Acabou?

terça-feira, 22 de setembro de 2009

...sempre, sempre, sempre...

"Apesar disso - escutem bem - todos os homens
Matam a coisa amada;
Com galanteio alguns o fazem, enquanto outros
Com face amargurada;
Os covardes o fazem com um beijo,
Os bravos, com a espada!"

Balada da Prisão de Reading,
Oscar Wilde.


Amado,
creia-me:
seus beijos são palavras caídas de algum céu.

Se minhas linhas parecem demasiado doces ao seu paladar, lembre-se: palavras caem, como hão de cair todos os anjos.

Hoje, chama-me “estranha” e lança aos ventos seu repúdio contra mim e minha pouca compreensão de si, dos outros, da vida. Entristeço-me por saber que há razão em seus dizeres, e mais por ter fingido esquecer.

Outrora também fui desconhecida de seus olhos e desde já eu o amava. Naqueles dias, nos salões e nas ruas, entre tantas vozes que se elevaram, foi a sua, em timbre e palavra, que me trouxe do sono que nunca, em verdade, abandonei.

Meus olhos não eram, e não serão, como os seus. Seus olhos, castanhos, estavam tomados pela cólera nascente apenas nos que sabem e revoltam-se contra inimigos reais; enquanto os meus, estes tateiam o espaço ordinário dos descrentes, dos apenas desejantes. Meu rosto, sabíamos desde o princípio, era face do deserto.

  
Minotauro acariciando a una mujer dormida, de Picasso (1933)Como o leite e bolachas de mel, porém, sobrevieram suas palavras. Tomei do alimento em seus lábios, bebi do calor em sua boca e, confesso, sonhei você para mim.

Nas ruas, de tantos rostos que sorriram, de muitos que choraram, foi o seu — distante — que eu quis e amei. Rompia em meus desejos os alicerces de nossa casa, enquanto que nos seus passos eu antevia florescerem as paredes. Com temor, amaríamos cada uma das frestas.

...

Você nunca quis minha realidade, eu sei. Buscava apenas aquilo que de mim são sonho e fantasia. Mas busquei todo você em toda parte, ainda que não me fosse dado conhecer senão parte do que éramos, tantos são os fragmentos de que nos compusemos. Peço, porém, que, antes de acusar-me por deixá-lo ao relento em certos dias, lembre-se: nos campos onde havia fogo e tantos gritos — que nenhum outro cavaleiro ousaria descer as portas e romper as correntes — eu lá estive em demanda. Abriguei seu medo e sua culpa em meus braços e em meu seio estiveram adormecidos.

Eram nossas mãos que se tocavam; eram nossas mãos, a minha e a sua.

Recebi, e não esqueço, o impossível amor... Se no espaço de seu corpo não nasceram os cometas, seja talvez porque tudo quanto semeei foi a vida estática.

Sim, pois também nossos lábios estiveram unidos; é certo que não mais em palavras: silenciamo-nos nesses beijos. Meus olhos estiveram novamente cerrados; a avidez em meus cabelos pintou gris o horizonte. Brotaram as águas de tantas tormentas, assistimos pacientes ao esvaecer de nossa morada.

Volta, então aos labirintos, corredores tão íntimos seus...

Quanto a mim, repousarei sob seus umbrais. Tenho ainda alguns fios que poderiam ser lançados, não estivéssemos tão ferozes em nossa calma, não fôssemos tão incansavelmente nós.

...


Será capaz, você, de velar o meu sono? Velará meu sono, para que eu seja, ainda nos dias em que tentarei matá-lo? Nos dias em que jovens portando espadas invadirem seu esconderijo e ferirem seu corpo em meu nome, ainda assim, lembrará que há entre nós o amor? Saberá que nossos beijos foram ausência em saraivada, caindo de todo céu?

Marcela P.

22/09/2005

"Fumo subia de toda a terra, dos oceanos vaporosos. O fumo do seu louvor!
A terra era como um turíbulo oscilando e balouçando, uma bola de incenso, uma bola elipsoidal. O ritmo morreu de vez; o grito do seu coração estava quebrado.
Os seus lábios começavam a murmurar os primeiros versos, sempre, sempre;
e foram até os versos médios, desatinadamente, gaguejando
e errando: depois pararam.
O grito do seu coração estava quebrado."

Retrato do artista quando jovem,
James Joyce

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Por que me tentas?

polvo

envolveste-me em teus tentáculos
metendo-me em desatino

fizeste de mim o Pecado
e de si o perdido menino

 mas por que me tentas, ainda na partida,
e não tentas, comigo, o clandestino?

Foto de Vlad Gansivsky, encontrada no blog pequenos delitos.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Aniversário

O blog completou 2 anos sem festa nem vinho, mas com a certeza de que há um sentimento que subsiste às adversidades do tempo, espaço e massacrante rotina.
Te amo, Murillo. 

"De repente me bateu uma saudade da metafísica; daquilo que é caleidoscopicamente sublime. Quando transformo esse encontro de almas em ação cotidiana, me sinto menos só. Te amo."
Murillo Marques, 21/08/2009, por sms

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Ao amado, o antigo



§
Nesta manhã de claro sol reconheço a existência de homens mutilados caídos uns sobre os outros em nosso chão. Sei que outros corpos haverão de tombar ainda hoje e amanhã e depois. Ontem; ontem era permitido fechar um instante os olhos, esquecer o mal e o que está além. Esquecer o desconhecido em que habitam nossos fantasmas. Além do mal, porém, há a lâmina que passeia meu corpo. Sinto-a nítida beijando a profundidade de minha pele, buscando o limite de meus ossos. Sinto o contato vibrante com o metal; a incisão imperativa redizendo sempre "abra os olhos". Tenho me esforçado por não esquecer, para manter-me em vigília - sabemos quão difícil tem sido: descobrir o que é afago, entender o que é distância; amar a nudez desses mortos e chorar por eles.

Nesta manhã, clara do sol, ouço seu clamor e respondo: sim. Lutemos juntos, pois será impossível descansar enquanto houver guerra. Juntos, não seremos mais fortes e não teremos o mundo somente nosso. Seremos ainda apenas nós entre todos, sob os olhares cegos de toda a gente. Seremos apenas você e eu, ainda que desejemos ser todos, ainda que partilhemos com os famintos nosso pouco vinho e nosso nenhum pão, nossa muita luz que nada lhes ilumina. Mas há os campos e há a guerra. Lutemos. Juntos. Uniremos nossas mãos.

Faz sol nesta clara manhã. Entrelacemos as mãos e reinventemos as palavras que temos dito todos os dias, ainda que não haja emissão de sons e letras. Sabemos que estão próximas as palavras; soluçando sobre nossos ombros, sempre estiveram. Neste agora estão contidos o que foi e o que será. Assisto proclamadas águas banhando os cortes e chagas, restituindo nossas cores mais belas.

Permanece em nossa casa a visita da manhã. Não esqueçamos, amado, que unir as mãos e entrelaçá-las é também unir os corpos - pensamentos e sentires - de modo que nenhuma linha, tênue que seja, os divise. Em vindouros combates, conseguiremos ser os mesmos sentimento, porta e palavra ao chegar da noitinha?
§

sábado, 1 de agosto de 2009

Dueto


Por que tem de ser assim
um solo em dueto
minhas perguntas seus silêncios.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Rayuela


“Certo dia, deu-se conta de que seus amores eram impuros porque pressupunham essa esperança, enquanto o verdadeiro amante amava sem esperar o que quer que fosse fora do amor, aceitando cegamente que o dia se tornasse mais azul e a noite mais doce..."
Julio Cortazar

Caminhar
entre o céu e o inferno
já não é
um jogo de amarelinha
e
nossas palavras cruzadas
são como espadas
em combate.
Somos, então, adversários
nos mesmos pátios
onde fôramos
companheiros
de
travessuras.
Qual moira às avessas,
desfazem, nossos passos,
a urdidura.
Mas a pedra, a pedra na linha,
no meio do meu destino,
será a mesma
que carregarás
por todo o teu caminho.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A rua da província

desenho de Aldo Zanetti


Vamos tomar um chá de pernas com a velha senhora que vende seus minutos de prazer em tantos buracos, negociaremos um chá de glandeos, períneos, auréolas e pêlos. Ao fundo o som decadente de um blues irritante em sua sala de neons multicoloridos.

Esta velha senhora de néctar ousadamente delicado me deixa aos berros, coloca-me incerto de minha certezas planas, vamos beber o sumo candido em sua poltrona aveludada. Dona dos meus olhos, mostra-me o amor de suas virginias, abraça-me com seus paêtes e suas unhas encarnadas, deixa-me vulnerável com seu ópio, com seu sistema falho de ovulação.

Minha deusa, passei por muitas janelas em toda essas noites em que estive a vagar e a lutar contra dragões. No entanto, só agora que cheguei nessa província é que me deparo novamente em frente aquela única, de candeeiro baixo e paredes corroídas, em que eu não posso entrar.


sábado, 4 de julho de 2009

Carta ao dignissimo senhor D.


Digníssimo senhor D, venho por meio dessa carta informar ao senhor que o inverno chegou, as mocinhas trajam roupas mais quentes e os rapazes usam cachecóis, as árvores estão cada vez mais secas e peladas e as noites são um misto de marrom com um bordô meio enviezado para a tristeza.
Pelo visto o senhor tem trabalhado demais, e sua mãe, me diga dela, melhorou daquelas moléstias que o fez desaparecer tão repentinamente?
Por aqui as coisas andam frias, acho que logo mais a neve irá tampar a porta de entrada da casa. Sinto que é preciso que Agosto chegue logo e com ele os raios de sol primaveris, lembro-me bem do calor daqueles dias agostinos em que nós andávamos a contemplar os lírios e a dar risadas dos tolos obsecados que corroboravam com o cinzento ar matinal da cidade grande.
A Maricotinha está namorando firme, a Juju anda iludindo uns amores tolos. Terminei aquele livro e escrevi aquele texto, terminei o curso de datilografia e estou trabalhando numa repartição pública. Acho que me alistarei para o exército no verão, ouvi dizer que o Brasil está precisando de braços fortes para a luta armada.
Querido amigo, mande lembranças.Essa sua ausência que culmina nesse silêncio não lhe cai bem.

Do sempre seu companheiro de parque,

Mizu.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

O Trem das Cores




Eu queria um texto cheio de imagens, desses que vão refletindo como espelho aquilo que a gente não mostra claramente ao falar de amor, de solidão e de esperança, deixando toda a intenção real de quem escreve sublimada.
Um texto universal que falasse todas as línguas e ressonasse o som da chuva, chiando pelas encostas do riacho e desembocando na parte mais densa do mar tombando gotas fluídas de verbos esvaidos em flancos inflamados que pudessem dizer da paz que é sentir-se bem.
Eu queria saber usar as cores vibrantes e rubras dos tangos argentinos, que as minhas palavras escorressem como o sangue de minhas mãos cortadas pela lamina prata da navalha dizendo assim das escatologias, das visceras, daquilo que está dentro e que se põe exposto a partir do momento que o verbo se torna hemorragia de sensações.
O meu texto deveria pretender falar de coisas inerentes ao ser humano, mas eu percebi que sobre isso eu não sei falar, eu não consigo estabelecer a ponte entre o tu e o eu, não há o que dizer. Eu não sou poeta.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Jogos




Yann Tiersen - Comptine d´un Autre été: L´Aprés Midi
Found at skreemr.com

Nesta roda, também fui brincante:
ladrilhei as ruas que não eram minhas
para amores que não serão meus.
Sem mais voltas, finda a ciranda,
vou embora, digo adeus.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O marasmo.

1.
Assim ao Poeta a Natureza fala!
Enquanto ele estremece ao escutá-la,
Transfigurado de emoção, sorrindo...
.
Sorrindo a céus que vão se desvendando,
A mundos que vão se multiplicando,
A portas de ouro que vão se abrindo!
("Supremo Verbo" - Cruz e Souza)
2.
Marasmo: s.m. Magreza extrema, abatimento físico; atonia. / Fig. Estagnação, apatia, indiferença, descaso.
( Aurélio)
Eu tento escrever sobre esse nada, quero dizer desse vazio que não deixa a pena prosseguir. O marasmo.
Eu já tive a necessidade de ter algo para dizer, de saber como sentir, de me motivar para acender aquele cigarro. Hoje não.
Eu vivo, eu trabalho, eu não estudo mais.
É como viver da impressão, da imagem. Da imagem vazia.
Um significante vazio de significados, é incrível como até essas palavras não têm mais nexo, não tem poesia e nem tem sensibilidade é o verbo cru no presente que se esvai em linhas brancas, quero dizer nem em linhas porque as linhas não existem mais, é um universo branco que se borra com uma tinta preta, fedida, podre de palavras nulas.
Se eu pudesse pensar, ou agir, eu arrumaria meu quarto, tiraria as roupas do chão, dobraria meus lençóis, terminaria aquele projeto, colocaria a vida no ciclo comum de nascimento, crescimento e morte. Mas eu não quero.
Prefiro essa cadência de desencontros que não me encontra, prefiro esse samba de nada que um dia se chamou silêncio, prefiro a minha cadeira, a minha porta, os 3 metros de quarto em que me encontro nesta segunda feira ensolarada, mas fria.
O silêncio já não diz, o que é certo não convém, o que era para ser brilhante ficou perdido e o homem que eu me tornaria não faz mais diferença.

domingo, 10 de maio de 2009

Corpos Celestes

"Wrapped in Colour", Andrea Blackman


Se tua vista alcança-me em palavras, não te desesperes: és habitante em meu espaço. Todavia, se buscas ainda nestes infinitos: o corpo: haverás de tecer outras redes; caminhos de cometa haverás de percorrer. E eu-ilha, eu-planeta, permanecerei naquela mesma órbita, permanecem as mesmas coordenadas. Estarei aqui, à espera da colisão, talvez impossível, porém desde há milênios em mim inscrita
-
profetizada.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Não te enganes, isto é prosa


um dois três... cigarros
nunca aprendi a tragar
mas sorvi cada um deles
- teu prazer secreto -
como se teu sexo fossem

sexta-feira, 17 de abril de 2009

O Encontro ou "A persuasão de Caronte"


Orfeu, de Moreau (1826 - 1898)


Passos que se cruzam entre pernas que se trançam, nos pés sapatos, meias, pêlos, peles áridas que não se tocam e vão andando, misturando, corporificando e massificando tantos eus que estão aglutinados em nós. Neste mar de loucas enunciações entrecruzadas, entrelaçando-se, na grande metrópole o coito cotidiano segue, são milhões de referências, citações e soberbas ironias. Daqui ele vai para lá, risos, risadas, gargalhadas e histerias recheiam a tarde, passos entre braços, entre bolsas, entre rádios-celulares de alta resolução com seus mega-pixels que retratam o nada que se vê dentro de tudo. Corre as flores para a entrega, zarpa a moto pro delivery, são pastas de executivos, cabelos batidinhos, saias, meias calças, lojas, frango assado rodando na porta da padaria, exposições de arte assando dentro das galerias, livros, descontos, comprados, vendidos, difundidos, amassados, amarelados. Ali no café, depois no banco pra ir pro ponto. Prédio que mete tudo no céu sem vaselina ou saliva pra deslizar. Caos de manhã, aquecimento global a tarde, programa a noite. Vasto, vasto campo subterrâneo, rodam as loucas catracas numa sinfonia jazzistíca, apitos sonoros fecham portas errantes de uma vida que passa entre faíscas soltas dos fios elétricos que guiam o senhor Clímeno e seu cão Cérbero, que cuidam da distribuição das vidas pelas grandes estações subterraneas. Num instante, no meio da multidão que habita o Reino dos Mortos, o tempo se dilata. A lira põem-se a chorar. Eurídice vestida no seu manto azul celeste segue o fluxo putreficado dos que já morreram, mas por um instante ouve, reconhece e lembra. Olha para o tocador que com lágrimas nos olhos deixa-se engolir pelo som eletrizante do caos, ele abaixa a cabeça com sua candida lágrima a corroer o peito preenchido de silêncio. Eurídice olha-o e segue seu caminho.

domingo, 22 de março de 2009

Sobre as meninas e os lobos

Com o tempo a gente aprende que seguir regras, preceitos e dogmas não é garantia de que tudo vai dar certo. Ao contrário. Regras, preceitos e dogmas presumem uma realidade ideal e, muitas vezes, esquecemos o sentido da Vida em nome de aparências que se pretendem ideais. Deixamos de existir em nossa integridade para que tudo pareça e chegamos a crer mais nas parecências do que no ser. Regras, preceitos e dogmas geram medo. Medo de não ser aceito, medo de magoar, medo de ser magoado. Geram também perversidades. Porque tudo parece, há aqueles que em certas esferas de vivência suprimem de alguma forma o outro, o que teme e também o bravo. O inferno não são os outros. Há um pequeno inferno em cada um de nós e é preciso vencê-lo não apenas nas aparências. Apenas o verdadeiro respeito pelo outro; o reconhecimento dos limites entre o eu e o outro permitem a liberdade, permitem que a Vida se efetive em seu mais humano significado. Com o tempo a gente aprende que as piores coisas acontecem com quem menos merece. Aprende-se tarde demais, porém é quando as imagens falsas são quebradas e os elos verdadeiros fortalecidos.

Isso não foi um capítulo de auto-ajuda e não pretende ser nada além de um desabafo (desculpa, Menino Trovador, não foi esse o combinado para este espaço... mas eu precisava gritar... sei que ao correr seus olhos sobre essas linhas, eu os sentirei como um abraço...)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Tristeza no Céu



No céu da cidade

há também uma hora de

silêncio

Em que Deus não se pergunta nada.

ele só faz convulsionar lágrimas,

torrenciais e tempestivas,

de crocodilo pelo chão.

E põe-se a assoprar e apagar

os raios de sol

maldizendo

e extinguindo

um coloridinho

besta e inútil por de trás do morro.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Ausência



Beirut - Nantes
Found at skreemr.org


a mim, me confundem as tuas faltas
mais que a tua ausência em mim
a minha falta na tua falta
Campo Mourão/PR

domingo, 18 de janeiro de 2009

Fim de tarde na beira do mar


Relâmpago no mar,

é a mão de Deus que desce dos altos céus

para apanhar um golinho d'agua.

Marinheiro na beira do mar

senta,

bebe,

fuma

esperando que Deus alivie sua ressaca.



A lamparina acesa,

os barcos atracados no cais

Iaiá servindo um golinho d'aguardante

é o paraíso terreno.

Num fim de dia sem sol,

peixes fartos:

o silêncio da enseada se rompe,

às vezes pelos estrondos da mão n'agua,

às vezes pelo canto eufórico do marinheiro

à beira mar.

sábado, 17 de janeiro de 2009

"Hoje eu quero tocar a memória..."


Hoje eu quero tocar a memória com a ponta dos dedos e ouvir a quentura de sua face. Quando enternecida pelo longo tempo, a memória se nos dá febril. Seus beijos são labaredas em noite de chuva fina. Gosto de roçar os cílios na face dos dias passados; mas, sobretudo, amo sabê-los distantes de mim.
Desenho meu espaço neste instante e ao que não mais há, concedo qualquer gosto quimérico. As letras e as imagens são intensas como aqueles dias de sol em que estendíamos alvos lençóis sobre os varais; como as noites frias em que contávamos lágrimas sob a lua. Sempre a história de ontem; a mesma cor, o mesmo gosto.

Vou dando corpo às lembranças; vou lembrando o corpo de sensações então esquecidas. Esquecidas somente para que neste momento eu pudesse recordá-las; aproximam-se num tumulto de vozes como se me quisessem oferecer consolo, palavras de afeto.

Então revelo meu segredo em baixa voz: minhas mãos já aprenderam a morte. Pouco ou nada mudou. De nada valeu gritar o fim e anunciar novas paisagens. Sempre torno ao mesmo ponto, ainda que faça meu curso em espirais.

sábado, 3 de janeiro de 2009

"Algumas vezes, pessoas lançam ao mar..."

Algumas vezes, pessoas lançam ao mar pedidos de socorro em garrafas; outras vezes, os lançam por sob as portas e os fazem penetrar as casas e as vidas. Não importa em que língua falem, a quem queiram falar, ou o quê; são sempre os mesmos pedidos de socorro.

Não estou diante do mar; mas lanço garrafas com bilhetes e durmo ao canto gostoso das vagas. Um canto que não é, ainda, o murmurinho do mar; apenas o som do amor que eu imagino para aquele corpo de maré.

Maré - eu sei que não estará nunca, sem ir embora um pouquinho. Mas eu imagino: imagino infinitos e eternos; de outro modo não sei fazer. Os dedos brincam desenhos na quentura da areia, silenciosos grãos: invento meu novo amor.

Que os ventos não soprem antes que eu o saiba verdadeiro, quente, doce.

(outubro/2006)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Puzzle

Fui teu puzzle de 1000 peças.
Jogo de monta e des-
monta; esquecido e incompleto,
neste agora em que cansaste
de brincar.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

"era uma vez ..."


era uma vez, tudo de mim em duas palavras:
o não e o sim

mas só, apenas hoje, sou universo em vocábulos:
sempre ou talvez.





Imagem: olhares

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Um querer de Hamlet para hoje e para o resto dos dias.

Sei que não poderia escrever isso aqui neste blog. Desculpe-me querida Arlequinal, mas palavras me somem da ponta da pena e não há nada que eu possa fazer a não ser refletir o bloco de pedra que se entalou em minha garganta, e a dúvida que me assola, nas palavras do mais célebre personagem Shakespeariano.

A todos que aqui nos visitam eu digo que não, por favor não quero ouvir sermões, eu já tenho uma coleção deles no meu armário. Eu sei que tudo tem a sua hora, que quando Deus fecha uma porta abre uma janela, que existem coisas melhores guardadas, que tudo tem um motivo e dessas paspalhadas todas eu já estou farto.

Por hoje eu quero Odes infernais, sistemas digestivos inteiros, sucos gástricos e ácidos que me ponham numa efervescência completa, que me façam digerir o bloco de pedra, o grito que não sai e a lágrima que não cai.


"Ser ou não ser. Eis a questão: é mais nobre sofrer na alma as pedras e flechadas de um destino ultrajante ou pegar em armas contra um mar de problemas, e enfrentando todos, acabar com eles? Morrer, dormir... mais nada. E no sono acabar com a aflição e os mil choques naturais que a carne traz em si. Essa é a consumação que se deve querer como uma bênção. Morrer, dormir. Dormir, sonhar talvez: isso é que é difícil! Porque os sonhos que podem existir nesse sono da morte, depois que nos livramos desta confusão mortal, nos fazem parar para pensar. É isso que tanto prolonga a calamidade desta vida. Quem há de preferir as chicotadas e o desprezo do tempo, a humilhação do opressor, a arrogância do orgulhoso, as dores do amor desprezado, a demora da lei, os desaforos do poder, e os chutes que os talentosos pacientemente recebem dos indignos, quando o próprio sujeito pode encontrar a paz na lâmina nua de um punhal? Quem é que agüenta esse fardo, gemendo e suando numa vida dura, senão pelo medo de alguma coisa depois da morte, o país desconhecido, fronteira que ninguém cruza de volta, que confunde a nossa vontade, que nos leva a preferir os males que já temos do que voar para outros que não conhecemos? É assim que a consciência transforma todo mundo em covarde, é assim que a cor natural da determinação acaba desbotada pela palidez do pensamento, e grandes projetos importantes perdem o rumo, e não podem ser chamados de ação."

Morrer, dormir. Dormir, sonhar talvez: isso é que é difícil depois de um final de semana como este.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Às manhãs

 
Eleven a.m. - Edward Hopper
As manhãs acordam tarde
Já não há como sorrir
E segue o canto triste:
“Estou tão feliz”.
Se fora ontem,
Quem sabe?
Quem sabe não teria
compactuado da felicidade
pura e simples do coração
que se mostra aos olhos meus?
Mas não hoje...
Não neste momento,
Nestas dez horas em que levanto
Querendo estar em coma.
Não nesta tardia manhã que segue uma noite
de mal caídas
lágrimas
(luciféricas? malditas? dementes? lúcidas?)
Não... Não sou capaz de me unir
ao coração puro e simples,
que a noite e o dia já não me bastam!
Busco o limbo, o lugar dos não-sentidos,
dos não-sentimentos, da não-vida e da não-morte...
Só quero negar se puder neutralizar todos os valores:
O dramático, o épico, o lírico
Já não me convencem mais
A realidade (se há) tampouco.
Não resta em mim
nenhum dos humores...
Se não me é de posse o ódio,
Também o amor abandonei/desde o princípio
“Pássaro de asas tortas,
(dos amigos, de Carlos, de Vinicius,
de quem mais? Não me lembro agora...)
Queria dominar teu canto zombador,
Marcar tuas dádivas inexclusivas
Com números profetizados,
Lançar-te ao lago de fogo.”
Não sou Deus. E estou tão feliz!

29 de Dezembro de 2006

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Trem de Carga



"As partes idas
dos vagões são
três passadas,
nos cora as ações"

O astro


Homenagem a Marlon Brando

Sentidos vagos,
tormentas,
suplícios,
incongruências, martírios.
O corpo celeste
na cama perene.
O olho não preenchido
que sente a falta
do membro.
O corpo sereno
saltado na cama maldita,
gemidos internos
esporram estrelas
que grudam no lençol.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Receita para um abraço infinito



"No mais, quando distante o abraço,
há sempre que se dizer um "olá".
Quando ausente o beijo,
precisamos (sempre) compartilhar o silêncio
e, nele, nos fazer mais unidos."


Dante Gabriel Rossetti, Paolo and Francesca Da Rimini (Detail) [1855]


Uniremos algumas três palavras e de sua indissociabilidade será gerado um sentimento. Quero entrelaçá-las num sempre e nunca desatado nó - serão chave para nenhuma porta. Quero o amálgama entre riso e lágrima e que sejam nova palavra em vida.


E a palavra seja instante subtraído de seu universo; e a palavra esteja só. Toda ela, palpitando apenas minha no ninho de meu corpo. Amarei a palavra.

Palavra, sentimento, porta.

Mas este senão de pequenas e muitas coisas procuradas está me enlouquecendo. Meus olhos não percebem os espelhos a fluírem do ventre e sobre tais estilhaços calco os pés desnudos.

À dispersão dos gestos, somam-se outros passos; discípulos e perseguidores tingindo de sangue o solo que a custo semeei; e sei que essas tintas são o mesmo sol espargido em incessantes fios pelos beirais de nossas casas; fios que embriagam nossas plantas e tomam nossas janelas, umedecem as paredes de nossos quartos em assombrosas figuras.


Tanta seiva entorpece-me; são revelações condenando à vida quem lhes ampara. Abrem meu peito em versos e outros maiores golpes; contam-me a existência de um leito em que convergiram estas águas. Mergulhos irrefletidos incidem sobre nossos corpos; submerge a fonte onírica de onde provieram as primeiras gotículas de lucidez.

São outros os sentidos que habitam o profundo em que construímos nossos paços e ensaiamos nossos dias. Sorvemos as emissões de sons dos quais já não nos ocupamos; na superfície instável, florescem segredos a lançar amantes contra as rochas. Mas, ei-los, no silêncio e na escuridão, pois que resistem: porta, sentimento, palavra.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Surrealismos



esta falta de
foda
me funde a
cuca



Jovem Virgem Auto Sodomizada Pelos Cornos de Sua Própria Castidade - Salvador Dali