segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

"Em silêncio te amei"

"que a vida é breve, e o amor mais breve ainda "
Mário Quintana


Em silêncio te amei,
esperei, desesperei, desisti...
quase morri,
só porque te matei, aqui, bem dentro de mim.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Saldo

"Desde minha fuga, era calando minha revolta (tinha contundência o meu silêncio! tinha textura a minha raiva!) que eu, a cada passo, me distanciava lá da fazenda, e se acaso distraído eu perguntasse “para onde estamos indo?” - não importava que eu, erguendo os olhos, alcançasse paisagens muito novas, quem sabe menos ásperas, não importava que eu, caminhando, me conduzisse para regiões cada vez mais afastadas, pois haveria de ouvir claramente de meus anseios um juízo rígido, era um cascalho, um osso rígido, desprovido de qualquer dúvida: 'estamos indo sempre para casa'".
Lavoura arcaíca - Raduan Nassar


O tempo senhor do destino se encarrega de readequar os propósitos da vida. Era assim que eu divagava e me distanciava de tudo aquilo que um dia me compôs, numa quase noite de réveillon eu percebia como o dia, que antecedia o nascimento de um ano bebê, morria.

O ar se condensava e o tempo se estendia em fatias espessas me obrigando a olhar para minha vida, de repente um telefonema. Eram as contas sentimentais que eu protelava tanto para acertar com aquele que um dia partiu sem saber o quanto me doía agora e sempre a falta que seu lugar à mesa de homem da casa fazia.

Eu tentava não embargar a voz e me mostrar o mais forte que eu conseguia, não podia me dar ao luxo de sentimentalismos toscos em plena véspera fúnebre de morte e nascimento, os compassos do relógio espalhavam minhas lágrimas na cadência desordenada de um tic tac sem fim, era uma bomba prestes a explodir, era uma agonia de morte e um sopro de vida.

No computador surgiam as inúmeras ramificações do passado e o presente se transformava em incerteza pelas coisas que fiz, pelas coisas que deixei de fazer e pelas coisas que eu não poderia mais me arrepender de ter feito.

O tempo senhor do destino se encarrega de readequar os propósitos da vida - nessa falta de raiz, nesse chão arenoso e movediço eu procuro calcar a estabilidade que protela em chegar, minhas dividas sentimentais me assolam - é hora de morrer ano sangrento! - é hora de quebrar a linearidade do tempo num pequeno átimo de metafísica que transforma o velho em novo, o número 23:59 se torna 00:00, um choro derradeiro, um passo para o espaço e a obrigatoriedade de sonhar. É tudo novo de novo e de novo num ciclo sem fim, deve ser a tal 'vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro'.

Eu tenho medo do relógio não virar dessa vez, do agonizante vegetar, da fada da prosperidade esquecer o número da casa onde eu estarei esperando sua visita, do feto nascer morto.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

sem poema

desde que amo e tenho sido amada,
já não penso
em sílabas poéticas;
basta-me a fonética
dos teus sussurros e dos meus gemidos
assim
confundidos
numa só respiração:
eis a minha inspiração;
sem poemas e sem prantos
apenas todos os dias e o encanto
de ser tua e seres meu.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Atrito



atrito: sm. 1. Fricção entre dois corpos. 2. Deisnteligência, desavença.

"Flor, minha flor
flor vem cá."
Grupo Galpão - Romeu e Julieta
Estávamos parados olhando para aquele horizonte negro que se abria no terraço da casa, a cidade inteira brilhava no espaço corrosivo do silêncio.
- Você quer uma cerveja?
- Quero.
- Você está bem?
- Estou.
- Vamos conversar?
- Aham.
- Fala alguma coisa.
- Ah, sim sobre o que você quer falar?
E era nessa sucessão de sins, e de agradabílissimas respostas que vertíamos o silêncio em repetitivos rodeios de cortesias. Eu não queria a cerveja e ele não queria falar, o céu queria ser noite e a noite trovejava incessantemente raios de silêncios que afastavam cada vez mais aquele pequeno espaço entre as duas cadeiras colocadas diante do infinito.
Eu pensava no mundo que se descortinava em contradições dentro dos meus pensamentos e todos os nãos que precisavam ser ditos fugiam da materialidade do som da minha voz, me perdia na abstração de sensações e nas muitas implicitudes que rondavam a minha falta de verbo - eu queria dizer que eu não consigo dizer não, eu não consigo brigar, eu não consigo lidar com as situações de desespero e de conflito, por isso eu aceito. Eu sou esse apanhado de nãos que não se materializam, eu sou o conflito interno que não se propaga. - Diante dessa lua imensa nos acariciávamos e sorríamos para o nada, engatilhavamos muitos assuntos para abafar o ruído do silêncio e fazíamos planos de cruzeiros pelas águas do Pacífico. Era perfeito sanar o tédio com miraculosos planos de vida que pressupunham um futuro, era no depois que transbordávamos a amplitude das dissonâncias do hoje, era sempre numa espera que alimentávamos a felicidade e que esquecíamos as nossas competições - eu queria dizer que eu não vou falar algo que você não queira escutar, justamente porque você não quer escutar eu não falo, tento amenizar meus pareceres e tento abrir a escuta para o que eu não ouço de você, mas eu não ouço nem mesmo os seus defeitos ou o que te torna humano, você não transparece, eu não transpareço, nós ficamos então na linha da perfeição, daí falta atravessamento, construção em conjunto, falta dueto no videokê e na vida, falta a falta, a saudade, e as fraquezas da carne que a saudade proporciona mesmo que essas fraquezas aconteçam no mundo subterrâneo da sua mente - eu gostava de abraçar você nos meus momentos de intempéries, eu sorria para você na inexatidão do meu sim, a gente transava na contradição das nossas idealizações.
- Vou pegar outra cerveja.
- ...
- Você quer?
É claro que eu não quero cerveja, eu nunca gostei de cerveja, eu sempre te enganei.
- Você quer?
- Traga a mais gelada.
E num sorriso voltamos ao ato amoroso de observar as malditas estrelas etílicas que reluziam na lata de cerveja.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Conto sem fadas

O herói desleal e uma princesa sem virtudes.
Uma ideia falsa e a má atitude.
Juntos no descaminho
- mais e mais distantes -
sozinhos.

domingo, 14 de novembro de 2010

Prosa sobre os olhos da amada

Antes de cruzar a soleira, portando uma valise e as carnes frias, arrancou, da própria face pálida, os olhos azuis de tempestade e os repousou sobre o criado-mudo. Sentenciou-lhes que não mais chorassem e que cuidassem do amado. Só então, pôde partir - cega - rumo ao desconhecido. O marido, que fora bom, compreensivo e raras vezes infiel, ao deparar-se com os olhos lacrimosos sobre o móvel, entendeu sem bilhete que desta vez não haveria volta. Adeus, amada. Sabia, também, que os olhos herdados eram desobedientes e continuariam a verter águas por tempo indefinido e acabaria por perder toda a mobília e os carpetes e os eletrodomésticos e o que restasse de valor. Por isso, foi com singular prazer que os levou à boca e, sem dificuldade, macerou entre os dentes os olhares incômodos, estrangulando as imagens da amada.

sábado, 13 de novembro de 2010

Uma fala à procura de qualquer personagem

— Olhe
vou lhe dizer uma coisa
mas não se acabrunhe, não
não se avexe
não é ofensa o que lhe faço
Tu é, em minha vida, uma moléstia desgraçada
um mal que nem Lázaro há de ter sofrido tão grande
cacei os santos tudin' e nada de alento
simpatia, encruzilhada, reza braba
tu é doença, mulher...
Mas, veja bem,
essa prosa é trova remendada
o que eu vim lhe dizer
e não se aperreie se lhe digo
é que ainda lhe quero bem, visse?

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A queda

"Naturalmente nunca é fácil viver" 
Albert Camus


Com ares de apaixonada - sem objeto de paixão - seguia rumo ao nada, talvez, sua libertação. Ruidosos passos correm a ponte como se houvesse pressa ou espera. Ninguém escuta os passos. Nenhuma pessoa ouviu o silêncio do coração em que se gestou o ato, a lágrima, o salto.



 

terça-feira, 26 de outubro de 2010

escritos

como a caneta fere o papel
e a faca ferisse a carne
a alma, abreviada
pela ausência

domingo, 24 de outubro de 2010

Vida

que meu verso seja livre
sem tema ou temor
e em sua rima escondida
neste instante, ainda
recuse a sina e o refrão

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Ciclo

"Ah, o amor é um capitoso vinho,
que nos embriaga,
que nos embriaga com um só pinguinho."

Furacão furioso que corrói a calmaria dos campos.
Tempestade intempérie que amolece o barro da terra e funda a orvalhada nesse chão de incertezas.
Em minutos se faz a calmaria, cheiro de terra molhada, mormaço, céu alaranjado e um clima de possibilidades propícia o desabrochar, as gotas embebedam a semente, enraiga-se a sensação de pertencimento e surge o botão.
E desabrocha em latentes e febris tensões, comichões, calores nítidos e plenos de sensações pulsantes. Toda flor que desabrocha quer ser deflorada ou pelo vento que passa, ou pelos dedos firmes da mão que rija acolhe, pela abelha que suga o mel ou pelo chão que nutre a força.
Cor, coito e vibração segue a semente gozando e florindo seus dias, sedenta e cheia de erupções sua seiva transborda pulsante o aroma orgiástico, enamorado e primaveril. Fecunda solos pelo vento, poliniza tudo que outrora fora devastado, multiplica-se em gozos caleidoscópicamente fulgurantes para aos poucos ir-se esvaindo, murchando, apodrecendo.
Então transforma-se, aduba o solo e espera furacões.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

"Fosse eu quem partisse..."

"A vida é a arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida"
Samba da Benção
, Vinicius de Morais

fosse eu quem partisse:
escreveria
em teus espelhos
a despedida em carmim

se fosses tu a partir:
embeberia
o carpete de meu quarto
com teu perfume para que
a despedida fosse um
pouco a pouco e pouco

mas porque foi a vida
a nos partir
em dois e os corações:

deixo-te
em silêncio desesperado
enquanto tu
me deixas somente lembranças
sem felicidades ou adeus.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Cadência




"Comprei a casa de um amor, sem estar na posse dela;
vendida embora me ache, possuída não fui ainda."


(Julieta cena ato III cena 2)
Dancing couples - Ivan Koulakov



Vai longa noite,
vai ao encontro
de sonhares noturnos vãos,
fonte sibilante de horas ausentes,
amansa
a saudade silente.
Volta!
Volta,
pela madrugada
alma prudente
que a falta da lágrima prestante
seca a retina
nebulosa
dos meus olhos cadentes
torna vã a suplica
latente
de um louco amante enfermo,
febril e
descrente.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O que não é o que não pode ser

Das flores que ainda não colhi, dos beijos que nem se quer vou provar, dos trabalhos que não são pra mim, das provas que já reprovei, das que me reprovarão, da falta de vontade de prosseguir, da incerteza do caminho que vou trilhar, da lágrima que teima em não cair, do cabelo que finjo não cortar.
De todas as situações que eu não quero me livrar, dos problemas que não quero resolver, da existência que não florescerá, dos amigos que não fiz, dos amigos que não vi, dos que não pedi, dos remédios que não tive coragem de tomar, do pessimismo que tento me livrar, dos rumores do coração que não terminei.
Das provas, dos trabalhos, dos ritos
do que me impede
do que me pesa
do que me esmorece
do que me desencoraja
do que não consigo escrever
do que não tenho motivo pra falar
daquilo que não acontece
da vida que não é pra mim
da vida que não vivi
da idéia de vida
da imagem subjetiva da vida
da imprecaução da felicidade
da não felicidade
do medo
do erro
do medo do erro
da possibilidade
da negativa
do não
da desistência de mim.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

"da tua boca..."

da tua boca
recebo: o gosto e o desgosto
com ela me degustas e
dela, jamais ouço
o que gostaria ouvir;
mas se vens
assim
mansinho
também me calo
e sufoco
e deixo morrer
(quentinho no peito, en-
quanto me entrego)
a minha vontade
do teu gostar;
pois se de mim levas o gosto
e me provas
sem nunca
gostar de mim,
outros sabores há
que me provem
e me levem
e me deixem
e se deixem
onde tu, jamais, ousaste tocar.

domingo, 18 de julho de 2010

terça-feira, 13 de julho de 2010

"saudades de quando..."

saudades de quando eu jamais fôra tua...
meu corpo era o templo
o sexo, um rito
e não se havia criado este dogma chamado Amor.

domingo, 11 de julho de 2010

Voltas

teu regresso
é sempre despedida

prenúncio da partida
o começo do fim

cansei deste folhetim
fecho a última porta

tudo o que importa
é curar esta ferida

some de minha vida
não é muito o que te peço


"O sândalo perfuma o machado que o feriu"

sexta-feira, 9 de julho de 2010

São quase oito

Em meio a instrumentos, ferramentas individuais, músicas e supostas poesias me vejo aqui perdido.
Olho o meu irmão, vejo o nosso fazer e não encontro sentido em prosseguir.
Para onde levaremos essas individualidades escatológicas? Para qual lugar essa prática nos leva, o que nos transforma e o que nos trespassa?
Não sei.
Talvez eu suponha que seja a simples vontade de mostrar-se, a felicidade momentanea do "eu sei", a concubinação do eu pela imagem oca que a gente produz e pelo prazer falso do aplauso vazio e sem sentido do final.
É dificil optar pelo "não sei", pela descoberta e pelo coletivo.
E afinal de contas o que é o coletivo? Como eu comungo com o meu irmão?
Estamos tão perto e ao mesmo tempo dispersos, somos amplos mundos que não se influenciam, que não trocam e em nada se completam.
São quase oito e eu almejo o fim dessa angústia chamada ensaio.