mente, o passarinho
cantando que bem me viu
num dia tão clarinho
comecinho de estação
da água que chovia, passarinho não diz, não
domingo, 16 de setembro de 2012
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
Deixa
estão trêmulas, as mãozinhas em prece;
esperam passar - e ficar - o amor...
tão apertadinhas as mãos quanto o coração
ao sentir que outro par os toca e penetra
(sem nada deixar)
com quem estará o anel?
deixa!
há de quebrar...
sábado, 4 de agosto de 2012
Ninguém vai entender isso: esse foi o ano mais feliz da minha vida. A compreensão é mesmo difícil de ser alcançada "Quem não vê bem uma palavra, não pode ver bem uma alma"... e quando não entendemos a palavra que sai de nossa própria boca, distorcida, turva, má? Ninguém vai entender isso. Mas haverá sempre o amor e seus derivados, raiva, medo, culpa, frio. O amor e seus derivados, aconchego, carinho, abraço, um nadinha que faz feliz. Não há compreensão possível, talvez aceitação. Mas amei todos, sem exceção, neste ano mais feliz da minha vida.
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Em São Paulo
final de tarde
garoa cai
a luz se esvai
o peito arde
vontade te ver
mais perto, esquecer
o errado e o certo
ser toda deserto
entregue ao sol
domingo, 6 de novembro de 2011
Procissão
I.
Santos saem dos oratórios,
meninos,
crianças,
senhorinhas,
velas amarelas,
canto entoado na seda da noite quente.
Passos que caminham e murmuram
pelas ruas centenárias do mártir,
do louco,
do homem pleno.
As pedras do caminho
ecoam sons negros,
gritos,
balidos
na noite alta.
Marília,
Barbára,
Gonzaga,
Joaquim,
Silvério,
Cláudio.
Senhoras com seus véus
audazes
- que esquecem os banidos,
ignoram
os parvos,
degradam
a memória
dos sem espíritos -
com suas vozes
vorazes,
velozes,
atrozes
em suas penitências,
em seus pecados,
em suas sandálias
deixam soarem os sinos das igrejas
escandalosos
sobrepondo os ecos
noturnos
das pedras douradas.
II.
De dentro da igreja saem negras
robustas,
senhoras augustas,
sons eloquentes,
Glórias!
Vivas!
Memórias pendentes.
Santos saem dos oratórios,
meninos,
crianças,
senhorinhas,
velas amarelas,
canto entoado na seda da noite quente.
Passos que caminham e murmuram
pelas ruas centenárias do mártir,
do louco,
do homem pleno.
As pedras do caminho
ecoam sons negros,
gritos,
balidos
na noite alta.
Marília,
Barbára,
Gonzaga,
Joaquim,
Silvério,
Cláudio.
Senhoras com seus véus
audazes
- que esquecem os banidos,
ignoram
os parvos,
degradam
a memória
dos sem espíritos -
com suas vozes
vorazes,
velozes,
atrozes
em suas penitências,
em seus pecados,
em suas sandálias
deixam soarem os sinos das igrejas
escandalosos
sobrepondo os ecos
noturnos
das pedras douradas.
II.
De dentro da igreja saem negras
robustas,
senhoras augustas,
sons eloquentes,
Glórias!
Vivas!
Memórias pendentes.
Evocação
I.
"Não chores tanto, Marília,
por esse amor acabado:
que esperavas que fizesse
o teu pastor desgraçado,
tão distante, tão sozinho,
em tão lamentoso estado?"
A bela, porém, gemia:
"só se estivesse alienado!"
Cecília Meireles
II.
"Marília, tu chamas?
Espera, que eu vou!"
Tomás Antônio Gonzaga
Pelas portas que adentrei conheci Vila Rica, aquela protegida pelo gênio original
-Tomás Antônio Gonzaga, o exilado, e sua casa,
casa de mil portas,
casa de mil ares.
Marílias se descortinam
em horizontes e janelas.
Marília efígie de rosto virado,
passarinho
que revela tempos idos.
Marília doce amada do poeta,
esquecida,
extraviada,
trocada.
Marília nos morros,
Marília na vista,
revista,
transfigurada,
deixada.
Marília, imagem
deformada,
empoeirada
que regressa
nas quadrinhas
bobas, apaixonadas e
insubstanciadas de verdade
no peito de um triste pastor que anseia por escuta.
Marília centenária.
Marília encarquilhada.
Marília eterna.
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
...
os laços desfeitos
são nós no peito
de quem ama
pensamentos que nos consomem
até mesmo à cama
cingem a alma ao corpo
e fazem-nos mais sós
pobres de nós
amantes desamados
fadados ao esquecimento
atados a algum momento
que desde já era senão
futuras lembranças
a certeira distância
pobres, perdidos
soltos na linha do tempo
são nós no peito
de quem ama
pensamentos que nos consomem
até mesmo à cama
cingem a alma ao corpo
e fazem-nos mais sós
pobres de nós
amantes desamados
fadados ao esquecimento
atados a algum momento
que desde já era senão
futuras lembranças
a certeira distância
pobres, perdidos
soltos na linha do tempo
terça-feira, 13 de setembro de 2011
...
o meu amor é feito de urgências urgentíssimas!
pressa de te ver me vendo ao teu lado mais um dia;
pressa de nunca acabar as noites de adormecer contigo;
pressa de amar à exaustão e jamais me cansar de te amar e te amar e te amar e te amar e te amar
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Chuva
vem, chuva
pra me molhar
lava minha alma
leva minhas mágoas
vem despertar
a semente guardada
a telha calada
o desejo de amar
rega meu corpo
o ar quente e seco
a planta no vaso
querendo brotar
vem
desagua nestas terras
vem
me enlamear
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Jogo da memória
Perdi o rumo
o prumo
o jogo
por ter encontrado
imagens que você não esquece, não
Do que adianta ocultar dos olhos o que não sai do coração?
Vontade me desprender da vida
da rima
do sonho
pra ver se me encontro,
só pra me ver, talvez mais perto de você
o prumo
o jogo
por ter encontrado
imagens que você não esquece, não
Do que adianta ocultar dos olhos o que não sai do coração?
Vontade me desprender da vida
da rima
do sonho
pra ver se me encontro,
só pra me ver, talvez mais perto de você
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
...
Para o meu irmão de canto,
Murillo Marques
Uma manhã é feita de muitos fios, de muitos cantos. A tarde tem seus encantos, mas é no quando nasce o dia que mora a real poesia. A noite é boemia; dos ébrios, a ilusão. Mas há que ser bem poeta quem de manhã desperta em busca de ganhar o pão e desde já lança o canto que ilumine e teça a rede que nos liberte da opressão.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
A mesma estação
Dá-me calor, frio, flores e vendavais;
vem e te recebo: hoje ou nunca mais
Sempre, porém, do mesmo modo
Como retornam as estações, e se vão
A próxima parada, a vinda
o ah! Deus! e a chegada...
O nunca acaba e o jamais tem fim?
segunda-feira, 6 de junho de 2011
Esperando... (inspirado em Becket)
(uma repartição pública, dois namorados, uma explosão, um barulho de vidro trincando e uma samambaia seca)
- Nada a fazer!
- O que?
- Nada fazer! (pausa vazia)
- Eu te amo. (pausa e eles se olham)
- Perdemos o bonde, ele passou. (aflito). O bonde se foi (perdido)
- Eu te amo (pausa e eles não se olham)
- A gente devia ter aproveitado enquanto ainda existia o tempo e o mundo ainda era um espaço e ter pegado o bonde até Paris, (maravilhado e sonâmbulico) poderíamos ter pulado da Torre de mãos dadas em cima das cabeças dos namorados franceses.
- Eu te amo (pausa)
- (ele o olha assustado, seco e indiferente) Eu também.
- Então vamos para casa. (pausa)
- Não podemos sair daqui, estamos esperando...
- O que?
- (irritadíssimo e descrente) L'amour.
- Nada a fazer!
- O que?
- Nada fazer! (pausa vazia)
- Eu te amo. (pausa e eles se olham)
- Perdemos o bonde, ele passou. (aflito). O bonde se foi (perdido)
- Eu te amo (pausa e eles não se olham)
- A gente devia ter aproveitado enquanto ainda existia o tempo e o mundo ainda era um espaço e ter pegado o bonde até Paris, (maravilhado e sonâmbulico) poderíamos ter pulado da Torre de mãos dadas em cima das cabeças dos namorados franceses.
- Eu te amo (pausa)
- (ele o olha assustado, seco e indiferente) Eu também.
- Então vamos para casa. (pausa)
- Não podemos sair daqui, estamos esperando...
- O que?
- (irritadíssimo e descrente) L'amour.
quinta-feira, 12 de maio de 2011
das carpideiras
ninguém para chorar amor tão pequeno
morto pelo próprio veneno
de não saber amar
morto pelo próprio veneno
de não saber amar
Published with Blogger-droid v1.6.8
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Cozinha II
Sempre faltam ingredientes para o algo chamado Vida
E nunca se tem receita certa para o algo chamado Amor.
E nunca se tem receita certa para o algo chamado Amor.
Published with Blogger-droid v1.6.8
Cozinha
(porcamente inspirado na belíssima Alice Ruiz)
dias de quibebe, noites de quiaboflores, orquídeas e gérberas
sorrisos de
dentes de alho
tormentos, choros, lágrimas
debaixo da terra como nabo
raiz forte
mesa quadriculada
incenso de macela-do-campo
pote de geléia
e gerâneo
sumo de dor eloqüente
fritado e uivado com cebola roxa
óleo quente
bote
serpenteado
falta de sal grosso
falta de caralho
falta do seu gosto
falta do meu parco avental
molhado e suado
de Hilda Hilst
cantado e melado de Alice Ruiz
sujo e fedido de
Adélia Prado
de te acender velas Colasanti
de te ler Flores Belas
(daquela mesmo que esse som possa te ter lembrado)
falta de te sentar nessa cadeira
e te reler toda minha vida
numa nota dissonante
do tempo perdido
na cozinha
preparando
dias de chuchu
sem tempero e sem orvalho,
lacrimado.
Vendo o vento levar o cheiro
o fio do cabelo,
o semblante
a suculência tardia
do coração de galinha,
derrubar a jarra de suco
de frutinhas vermelhas silvestres
que eu com tanto gosto
apanhei
e preparei
para esperar um dia da tua vida.
sábado, 23 de abril de 2011
Onde tudo começou
O poeminha que segue foi escrito em 1997, no meu último ano do Ensino Médio, durante as aulas de Simbolismo. Um pouco pesado nas aliterações e assonâncias, tal como pede o estilo; um pouco sombrio no tema, como tudo o que fazem os adolescentes deprimidinhos, rs...
Sinistros Sons
Aparente cintilante sinfonia desvairada
Quando for, leve consigo este inferno
que, tolo, insiste habitar meu ser
Antes, porém, repouse! boa estada!
O rio que lacrimoso corre o leito,
grita as marcas mais profundas,
Segue atraente flauta indiana
Tal qual surdo murmúrio do vento.
Numa hesitante certeza, então vejo,
Um orgástico som balançar
este manto azul que nos cobre...
Azul-marinho... negro, sem único lampejo.
"Diamantes no manto costurados,
Juro agora, vos almejo."
À alquimia negra, tênue soa no ar.
Vagarosa, a dor devora a fome,
enquanto as vísceras são dilaceradas.
Eis Lúcifer a me guiar.
Não a quero mais por perto, sonora magia
Vá embora, maldita!... radiosa!
Com tanto afinco lutou que...
... exicial, por fim me acaricia.
quinta-feira, 21 de abril de 2011
domingo, 17 de abril de 2011
Sobre o bálsamo
§
Então... é aquilo:
- o bálsamo não tem um valor místico.
Era preciso tomá-lo nas mãos, passar com cuidado e vigor sobre as feridas e, por fim, mastigá-lo amorosamente, deixando escorrer o sumo entre os lábios.
Mas você o deixou na caixinha, e por certo perdeu a fita negra que a envolvia...
- pode apagar seus escritos, pode apagar seus tantos nomes e mesmo queira apagar sua vida: porém, não apague;
- a mim importa que derramei lágrimas sobre suas mãos trêmulas - ritual de batismo desde o qual e para sempre terá um único nome: AMADO. ------------------- Ainda que recuse ser amigo, ainda que recuse ser amante.
. é isto:
- o bálsamo era o meu corpo.
Mas você o deixou na caixinha...
§
(abril/2006)
domingo, 20 de março de 2011
...
Será que nunca me amou ou simplesmente não me ama mais?
Aqueles nossos momentos, terão ficado pra trás?
Nalguma noite recordou as lembranças que me assolam os dias?
Não sei dizer. Não sei supor. E quer saber? Tanto faz
Aqueles nossos momentos, terão ficado pra trás?
Nalguma noite recordou as lembranças que me assolam os dias?
Não sei dizer. Não sei supor. E quer saber? Tanto faz
quinta-feira, 17 de março de 2011
...
Os sorrisos nas fotos. As lágrimas nos espelhos
As mentiras, os fatos...
Os olhos vermelhos.
( por @galldino e @arlequinal)
quarta-feira, 16 de março de 2011
Tempo
Porque quando faz calor e o sol brilha, há o imperativo de ser feliz.
Apenas o céu nublado e a garoa fina nos dão o direito de chorar por mágoas presentes e futuras.
05/02/2011
terça-feira, 15 de março de 2011
Sísifo
às vezes, a gente pula
às vezes, a gente cai
pode ser um mergulho ou um salto
um tropeço
e tanto maior é a queda
quanto mais se estiver no alto
o fim do orgulho
o começo do fim
a leveza e o peso
um amor que se esvai
sexta-feira, 4 de março de 2011
sábado, 26 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Filosofia
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Homem Urbano I
Dia de inseto, esmagado pelo mundo.
No adestramento do dia que segue, o mundo coloca o homem em seu lugar, no limiar da proibição velada da liberdade de pensar o homem sente-se dono do seu caminho, limpa a bunda com as cartas de amor que ontem escrevia para o destinatário silêncioso da ausência.
Felicidade de concreto é o relógio pontual na mesa do patrão, consentimento ao que se pensa custa caro para o bolso do patrão. Absolvição da trangressão é a morte do patrão.
Dia de inseto transfundido para homem, pequenês de pigmeu choca a invisibilidade do mundo gigante dos seres humanos. Dificuldade de minhoca é não ter mão para limpar a boca.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Palmas
Chegou o verão
e o
sol se pôs,
no passado
das ondas quebradas
pelo canto
ignóbil
gélido
e
cândido
da
gaivota triste.
Nas tentativas de ser,
a ressaca moral
tangível
e
efêmera
entorpece
os casais que observam
o
oceano em silêncio.
-Silêncio.
A
comunicação dos corpos
se põe em cores outonais
com a queda
frisante
do astro
no fosso avermelhado
do mar incandescente
a verborragia
da incompreensão
cintila com
as estrelas
na primavera do infinto.
"Em silêncio te amei"
"que a vida é breve, e o amor mais breve ainda "
Mário Quintana
Em silêncio te amei,
esperei, desesperei, desisti...
quase morri,
só porque te matei, aqui, bem dentro de mim.
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Saldo
"Desde minha fuga, era calando minha revolta (tinha contundência o meu silêncio! tinha textura a minha raiva!) que eu, a cada passo, me distanciava lá da fazenda, e se acaso distraído eu perguntasse “para onde estamos indo?” - não importava que eu, erguendo os olhos, alcançasse paisagens muito novas, quem sabe menos ásperas, não importava que eu, caminhando, me conduzisse para regiões cada vez mais afastadas, pois haveria de ouvir claramente de meus anseios um juízo rígido, era um cascalho, um osso rígido, desprovido de qualquer dúvida: 'estamos indo sempre para casa'".
Lavoura arcaíca - Raduan Nassar
Lavoura arcaíca - Raduan Nassar
O tempo senhor do destino se encarrega de readequar os propósitos da vida. Era assim que eu divagava e me distanciava de tudo aquilo que um dia me compôs, numa quase noite de réveillon eu percebia como o dia, que antecedia o nascimento de um ano bebê, morria.
O ar se condensava e o tempo se estendia em fatias espessas me obrigando a olhar para minha vida, de repente um telefonema. Eram as contas sentimentais que eu protelava tanto para acertar com aquele que um dia partiu sem saber o quanto me doía agora e sempre a falta que seu lugar à mesa de homem da casa fazia.
Eu tentava não embargar a voz e me mostrar o mais forte que eu conseguia, não podia me dar ao luxo de sentimentalismos toscos em plena véspera fúnebre de morte e nascimento, os compassos do relógio espalhavam minhas lágrimas na cadência desordenada de um tic tac sem fim, era uma bomba prestes a explodir, era uma agonia de morte e um sopro de vida.
No computador surgiam as inúmeras ramificações do passado e o presente se transformava em incerteza pelas coisas que fiz, pelas coisas que deixei de fazer e pelas coisas que eu não poderia mais me arrepender de ter feito.
O tempo senhor do destino se encarrega de readequar os propósitos da vida - nessa falta de raiz, nesse chão arenoso e movediço eu procuro calcar a estabilidade que protela em chegar, minhas dividas sentimentais me assolam - é hora de morrer ano sangrento! - é hora de quebrar a linearidade do tempo num pequeno átimo de metafísica que transforma o velho em novo, o número 23:59 se torna 00:00, um choro derradeiro, um passo para o espaço e a obrigatoriedade de sonhar. É tudo novo de novo e de novo num ciclo sem fim, deve ser a tal 'vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro'.
Eu tenho medo do relógio não virar dessa vez, do agonizante vegetar, da fada da prosperidade esquecer o número da casa onde eu estarei esperando sua visita, do feto nascer morto.
O ar se condensava e o tempo se estendia em fatias espessas me obrigando a olhar para minha vida, de repente um telefonema. Eram as contas sentimentais que eu protelava tanto para acertar com aquele que um dia partiu sem saber o quanto me doía agora e sempre a falta que seu lugar à mesa de homem da casa fazia.
Eu tentava não embargar a voz e me mostrar o mais forte que eu conseguia, não podia me dar ao luxo de sentimentalismos toscos em plena véspera fúnebre de morte e nascimento, os compassos do relógio espalhavam minhas lágrimas na cadência desordenada de um tic tac sem fim, era uma bomba prestes a explodir, era uma agonia de morte e um sopro de vida.
No computador surgiam as inúmeras ramificações do passado e o presente se transformava em incerteza pelas coisas que fiz, pelas coisas que deixei de fazer e pelas coisas que eu não poderia mais me arrepender de ter feito.
O tempo senhor do destino se encarrega de readequar os propósitos da vida - nessa falta de raiz, nesse chão arenoso e movediço eu procuro calcar a estabilidade que protela em chegar, minhas dividas sentimentais me assolam - é hora de morrer ano sangrento! - é hora de quebrar a linearidade do tempo num pequeno átimo de metafísica que transforma o velho em novo, o número 23:59 se torna 00:00, um choro derradeiro, um passo para o espaço e a obrigatoriedade de sonhar. É tudo novo de novo e de novo num ciclo sem fim, deve ser a tal 'vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro'.
Eu tenho medo do relógio não virar dessa vez, do agonizante vegetar, da fada da prosperidade esquecer o número da casa onde eu estarei esperando sua visita, do feto nascer morto.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
sem poema
desde que amo e tenho sido amada,
já não penso
em sílabas poéticas;
basta-me a fonética
dos teus sussurros e dos meus gemidos
assim
confundidos
numa só respiração:
eis a minha inspiração;
sem poemas e sem prantos
apenas todos os dias e o encanto
de ser tua e seres meu.
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Atrito
atrito: sm. 1. Fricção entre dois corpos. 2. Deisnteligência, desavença.
"Flor, minha flor
flor vem cá."
Grupo Galpão - Romeu e Julieta
Estávamos parados olhando para aquele horizonte negro que se abria no terraço da casa, a cidade inteira brilhava no espaço corrosivo do silêncio.
- Você quer uma cerveja?
- Quero.
- Você está bem?
- Estou.
- Vamos conversar?
- Aham.
- Fala alguma coisa.
- Ah, sim sobre o que você quer falar?
E era nessa sucessão de sins, e de agradabílissimas respostas que vertíamos o silêncio em repetitivos rodeios de cortesias. Eu não queria a cerveja e ele não queria falar, o céu queria ser noite e a noite trovejava incessantemente raios de silêncios que afastavam cada vez mais aquele pequeno espaço entre as duas cadeiras colocadas diante do infinito.
Eu pensava no mundo que se descortinava em contradições dentro dos meus pensamentos e todos os nãos que precisavam ser ditos fugiam da materialidade do som da minha voz, me perdia na abstração de sensações e nas muitas implicitudes que rondavam a minha falta de verbo - eu queria dizer que eu não consigo dizer não, eu não consigo brigar, eu não consigo lidar com as situações de desespero e de conflito, por isso eu aceito. Eu sou esse apanhado de nãos que não se materializam, eu sou o conflito interno que não se propaga. - Diante dessa lua imensa nos acariciávamos e sorríamos para o nada, engatilhavamos muitos assuntos para abafar o ruído do silêncio e fazíamos planos de cruzeiros pelas águas do Pacífico. Era perfeito sanar o tédio com miraculosos planos de vida que pressupunham um futuro, era no depois que transbordávamos a amplitude das dissonâncias do hoje, era sempre numa espera que alimentávamos a felicidade e que esquecíamos as nossas competições - eu queria dizer que eu não vou falar algo que você não queira escutar, justamente porque você não quer escutar eu não falo, tento amenizar meus pareceres e tento abrir a escuta para o que eu não ouço de você, mas eu não ouço nem mesmo os seus defeitos ou o que te torna humano, você não transparece, eu não transpareço, nós ficamos então na linha da perfeição, daí falta atravessamento, construção em conjunto, falta dueto no videokê e na vida, falta a falta, a saudade, e as fraquezas da carne que a saudade proporciona mesmo que essas fraquezas aconteçam no mundo subterrâneo da sua mente - eu gostava de abraçar você nos meus momentos de intempéries, eu sorria para você na inexatidão do meu sim, a gente transava na contradição das nossas idealizações.
- Vou pegar outra cerveja.
- ...
- Você quer?
É claro que eu não quero cerveja, eu nunca gostei de cerveja, eu sempre te enganei.
- Você quer?
- Traga a mais gelada.
E num sorriso voltamos ao ato amoroso de observar as malditas estrelas etílicas que reluziam na lata de cerveja.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Conto sem fadas
O herói desleal e uma princesa sem virtudes.
Uma ideia falsa e a má atitude.
Juntos no descaminho
- mais e mais distantes -
sozinhos.
domingo, 14 de novembro de 2010
Prosa sobre os olhos da amada
Antes de cruzar a soleira, portando uma valise e as carnes frias, arrancou, da própria face pálida, os olhos azuis de tempestade e os repousou sobre o criado-mudo. Sentenciou-lhes que não mais chorassem e que cuidassem do amado. Só então, pôde partir - cega - rumo ao desconhecido. O marido, que fora bom, compreensivo e raras vezes infiel, ao deparar-se com os olhos lacrimosos sobre o móvel, entendeu sem bilhete que desta vez não haveria volta. Adeus, amada. Sabia, também, que os olhos herdados eram desobedientes e continuariam a verter águas por tempo indefinido e acabaria por perder toda a mobília e os carpetes e os eletrodomésticos e o que restasse de valor. Por isso, foi com singular prazer que os levou à boca e, sem dificuldade, macerou entre os dentes os olhares incômodos, estrangulando as imagens da amada.
sábado, 13 de novembro de 2010
Uma fala à procura de qualquer personagem
— Olhe
vou lhe dizer uma coisa
mas não se acabrunhe, não
não se avexe
não é ofensa o que lhe faço
Tu é, em minha vida, uma moléstia desgraçada
um mal que nem Lázaro há de ter sofrido tão grande
cacei os santos tudin' e nada de alento
simpatia, encruzilhada, reza braba
tu é doença, mulher...
Mas, veja bem,
essa prosa é trova remendada
o que eu vim lhe dizer
e não se aperreie se lhe digo
é que ainda lhe quero bem, visse?
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
A queda
"Naturalmente nunca é fácil viver"
Albert Camus
Com ares de apaixonada - sem objeto de paixão - seguia rumo ao nada, talvez, sua libertação. Ruidosos passos correm a ponte como se houvesse pressa ou espera. Ninguém escuta os passos. Nenhuma pessoa ouviu o silêncio do coração em que se gestou o ato, a lágrima, o salto.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
domingo, 24 de outubro de 2010
Vida
que meu verso seja livre
sem tema ou temor
e em sua rima escondida
neste instante, ainda
recuse a sina e o refrão
sem tema ou temor
e em sua rima escondida
neste instante, ainda
recuse a sina e o refrão
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Ciclo
"Ah, o amor é um capitoso vinho,
que nos embriaga,
que nos embriaga com um só pinguinho."
Furacão furioso que corrói a calmaria dos campos.
Tempestade intempérie que amolece o barro da terra e funda a orvalhada nesse chão de incertezas.
Em minutos se faz a calmaria, cheiro de terra molhada, mormaço, céu alaranjado e um clima de possibilidades propícia o desabrochar, as gotas embebedam a semente, enraiga-se a sensação de pertencimento e surge o botão.
E desabrocha em latentes e febris tensões, comichões, calores nítidos e plenos de sensações pulsantes. Toda flor que desabrocha quer ser deflorada ou pelo vento que passa, ou pelos dedos firmes da mão que rija acolhe, pela abelha que suga o mel ou pelo chão que nutre a força.
Cor, coito e vibração segue a semente gozando e florindo seus dias, sedenta e cheia de erupções sua seiva transborda pulsante o aroma orgiástico, enamorado e primaveril. Fecunda solos pelo vento, poliniza tudo que outrora fora devastado, multiplica-se em gozos caleidoscópicamente fulgurantes para aos poucos ir-se esvaindo, murchando, apodrecendo.
Então transforma-se, aduba o solo e espera furacões.
terça-feira, 28 de setembro de 2010
"Fosse eu quem partisse..."
"A vida é a arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida"
Samba da Benção, Vinicius de Morais
Embora haja tanto desencontro pela vida"
Samba da Benção, Vinicius de Morais
fosse eu quem partisse:
escreveria
em teus espelhos
a despedida em carmim
se fosses tu a partir:
embeberia
o carpete de meu quarto
com teu perfume para que
a despedida fosse um
pouco a pouco e pouco
mas porque foi a vida
a nos partir
em dois e os corações:
deixo-te
em silêncio desesperado
enquanto tu
me deixas somente lembranças
sem felicidades ou adeus.
escreveria
em teus espelhos
a despedida em carmim
se fosses tu a partir:
embeberia
o carpete de meu quarto
com teu perfume para que
a despedida fosse um
pouco a pouco e pouco
mas porque foi a vida
a nos partir
em dois e os corações:
deixo-te
em silêncio desesperado
enquanto tu
me deixas somente lembranças
sem felicidades ou adeus.
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Cadência

"Comprei a casa de um amor, sem estar na posse dela;
vendida embora me ache, possuída não fui ainda."
(Julieta cena ato III cena 2)
Dancing couples - Ivan KoulakovVai longa noite,
vai ao encontro
de sonhares noturnos vãos,
fonte sibilante de horas ausentes,
amansa
a saudade silente.
Volta!
Volta,
pela madrugada
alma prudente
que a falta da lágrima prestante
seca a retina
nebulosa
dos meus olhos cadentes
torna vã a suplica
latente
de um louco amante enfermo,
febril e
descrente.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
O que não é o que não pode ser
Das flores que ainda não colhi, dos beijos que nem se quer vou provar, dos trabalhos que não são pra mim, das provas que já reprovei, das que me reprovarão, da falta de vontade de prosseguir, da incerteza do caminho que vou trilhar, da lágrima que teima em não cair, do cabelo que finjo não cortar.
De todas as situações que eu não quero me livrar, dos problemas que não quero resolver, da existência que não florescerá, dos amigos que não fiz, dos amigos que não vi, dos que não pedi, dos remédios que não tive coragem de tomar, do pessimismo que tento me livrar, dos rumores do coração que não terminei.
Das provas, dos trabalhos, dos ritos
do que me impede
do que me pesa
do que me esmorece
do que me desencoraja
do que não consigo escrever
do que não tenho motivo pra falar
daquilo que não acontece
da vida que não é pra mim
da vida que não vivi
da idéia de vida
da imagem subjetiva da vida
da imprecaução da felicidade
da não felicidade
do medo
do erro
do medo do erro
da possibilidade
da negativa
do não
da desistência de mim.
De todas as situações que eu não quero me livrar, dos problemas que não quero resolver, da existência que não florescerá, dos amigos que não fiz, dos amigos que não vi, dos que não pedi, dos remédios que não tive coragem de tomar, do pessimismo que tento me livrar, dos rumores do coração que não terminei.
Das provas, dos trabalhos, dos ritos
do que me impede
do que me pesa
do que me esmorece
do que me desencoraja
do que não consigo escrever
do que não tenho motivo pra falar
daquilo que não acontece
da vida que não é pra mim
da vida que não vivi
da idéia de vida
da imagem subjetiva da vida
da imprecaução da felicidade
da não felicidade
do medo
do erro
do medo do erro
da possibilidade
da negativa
do não
da desistência de mim.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
"da tua boca..."
da tua boca
recebo: o gosto e o desgosto
com ela me degustas e
dela, jamais ouço
o que gostaria ouvir;
mas se vens
assim
mansinho
também me calo
e sufoco
e deixo morrer
(quentinho no peito, en-
quanto me entrego)
a minha vontade
do teu gostar;
pois se de mim levas o gosto
e me provas
sem nunca
gostar de mim,
outros sabores há
que me provem
e me levem
e me deixem
e se deixem
onde tu, jamais, ousaste tocar.
recebo: o gosto e o desgosto
com ela me degustas e
dela, jamais ouço
o que gostaria ouvir;
mas se vens
assim
mansinho
também me calo
e sufoco
e deixo morrer
(quentinho no peito, en-
quanto me entrego)
a minha vontade
do teu gostar;
pois se de mim levas o gosto
e me provas
sem nunca
gostar de mim,
outros sabores há
que me provem
e me levem
e me deixem
e se deixem
onde tu, jamais, ousaste tocar.
domingo, 18 de julho de 2010
terça-feira, 13 de julho de 2010
"saudades de quando..."
saudades de quando eu jamais fôra tua...
meu corpo era o templo
o sexo, um rito
e não se havia criado este dogma chamado Amor.
meu corpo era o templo
o sexo, um rito
e não se havia criado este dogma chamado Amor.
domingo, 11 de julho de 2010
Voltas
teu regresso
é sempre despedida
prenúncio da partida
o começo do fim
cansei deste folhetim
fecho a última porta
tudo o que importa
é curar esta ferida
some de minha vida
não é muito o que te peço
é sempre despedida
prenúncio da partida
o começo do fim
cansei deste folhetim
fecho a última porta
tudo o que importa
é curar esta ferida
some de minha vida
não é muito o que te peço
"O sândalo perfuma o machado que o feriu"
sexta-feira, 9 de julho de 2010
São quase oito
Em meio a instrumentos, ferramentas individuais, músicas e supostas poesias me vejo aqui perdido.
Olho o meu irmão, vejo o nosso fazer e não encontro sentido em prosseguir.
Para onde levaremos essas individualidades escatológicas? Para qual lugar essa prática nos leva, o que nos transforma e o que nos trespassa?
Não sei.
Talvez eu suponha que seja a simples vontade de mostrar-se, a felicidade momentanea do "eu sei", a concubinação do eu pela imagem oca que a gente produz e pelo prazer falso do aplauso vazio e sem sentido do final.
É dificil optar pelo "não sei", pela descoberta e pelo coletivo.
E afinal de contas o que é o coletivo? Como eu comungo com o meu irmão?
Estamos tão perto e ao mesmo tempo dispersos, somos amplos mundos que não se influenciam, que não trocam e em nada se completam.
São quase oito e eu almejo o fim dessa angústia chamada ensaio.
sexta-feira, 2 de julho de 2010
Conversa de passarinhos.
Sua voz quando ela canta me lembra um pássaro, mas não um pássaro cantando: lembra um pássaro voando.”
Ferreira Gullar
Ferreira Gullar
Meu olhar procurou conforto na arvrinha onde mora um passarinho, mas ele não teve companhia.
Ah, Essa vida é um breve desconforto permanente.
Por que não amantes?
Por que não amores?
Meu olhar ficou voando com ares de pintassilgo e tristezas de sabiá.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Das observâncias
São duas as coisas que observamos à distância:
- as que tememos, como as feras selvagens;
- as que desejamos alcançar, como o horizonte.
- as que tememos, como as feras selvagens;
- as que desejamos alcançar, como o horizonte.
set/2007
sábado, 19 de junho de 2010
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Entremeio
Modo de usar: lê em sussurros...
![]() | |
| Victoria Abril e Antonio Banderas em "Ata-me!" de Pedro Almodovar. |
Para R. H. S.
Queria encontrar o fio e desfazer a trama que todo dia se emaranha no meu coração. Refazer o novelo, desenrolar a novela sem mescla de drama. Vem. Ajuda-me neste enredo, tira de mim o medo de voltar pra tua cama. Desenlaça meus cabelos; qualquer bobice, exclama. Ata-me! neste ponto. Ensaia a cena, prepara o ato, enfrenta a chama. Lança as teias deste conto, escreve em mim o gosto de ser tua cortesã e tua dama. Vem. Aproxima o rosto, aperta os laços, dize que também me...
domingo, 6 de junho de 2010
Esse sentimento
"Ah, não acreditas em mim. Pois eu acredito na sua descrença e já penso em como parecer mais verdadeiro, em mostrar dados, fatos; esta aí: minha vida. Mostro-a com minhas duas pequenas mãos. Ainda não posso falar, porque toda essa correria me fez perder o fôlego.
Respira então criança.
Acredito nas pessoas e no poder de revelação delas, daí que surja sempre a desconfiança em mim. Estou sendo correto? - pergunto."
Mateus, O Antigo
Aprendi que não se diz "respira, criança" olhando nos olhos e pronunciando os fonemas de "respira, criança". Dizemos isso estendendo as mãos, tomando nos braços, beijando. É assim que se faz. Assim devemos fazer para que a criança confesse o vaso quebrado e não precise mais mentir, e perdoamos.
As crianças mentem o tempo todo e não é de maldade que o fazem. Eu minto às vezes e sei que você quase sempre duvida de mim. Digo que você deve mesmo duvidar, mas apesar da dúvida peço que confie em mim. Confie no amor que declarei assim: olhando nos olhos e pronunciando cada fonema de "eu te amo" - um "eu te amo" sufocado entre tantas outras palavras desnecessárias, erguidas como barreira entre a verdade enunciada e a realidade imediata.
Não acredite, porém, se sob a garoa fina eu pedir para que vá embora. Eu quero que fique. Eu quero você sempre perto e não sei por qual motivo. Não sei porque eu te amo e não acredite em nenhuma de minhas tentativas de explicação - eu não sei explicar e talvez não queira mesmo racionalizar esse sentimento. Não esteja tão certo de que quero ficar sozinha se por acaso eu voltar as costas - eu quero que impeça minha partida. Mas de tudo isso, e tantas outras coisas de que você pode duvidar, não duvide nunca de que eu te amo.
E se eu disser que não espero nada de você, duvide. Eu digo isso apenas para que você não se sinta constrangido; trata-se de uma resignação forjada - uma defesa contra esse peso tão pesado e disforme que é a esperança. Eu não espero nada de você, apenas que me surpreenda nesse meu querer. Não exijo nada de você, mas eu quero tanto...
Não sei se cabe ao amor dissipar a amargura que nasce na alma no infinito dos tempos, de um tempo que o homem nem ousa medir. Não sei se é preciso estar vazio para o amor se fazer pleno - isso é você quem diz. E se não fosse você a dizer, eu teria amado essas palavras? E se não fossem suas as palavras, eu te amaria tanto? Ninguém deveria se preparar para o amor, julgando que um dia estará pronto - porque amamos, plenos ou vazios, por tudo o que fazemos e dizemos. Eu te amo por tudo o que você faz e diz; te amo por tudo o que você quer fazer e dizer; te amo por tudo o que você não quer fazer ou dizer; por tudo o que silencia.
E também te amo pelo que eu mesma faço ou desfaço, digo ou apago, grito ou calo.
dez/2004
segunda-feira, 31 de maio de 2010
Futuro Imperfeito
Antecipo o final:
Não de todo desperta, abrirei os olhos para o vulto ao pé da cama. Demoro a reconhecê-lo. Jamais o surpreendera assim, me observando. Talvez estivesse absorto entre ideias inóspitas; refletia, possivelmente, um futuro sem razão.
Voz doce, trêmula. Ar sóbrio em trajes negros. Luto pelo amor extinto.
- Não quero mais, Marcela.
- Tá bom...
sexta-feira, 28 de maio de 2010
maria, Maria
Ou isto ou aquilo. Hoje sou Maria, não mais maria. Porque maria era aquela que quanto mais se pedia, mais e mais chovia. Infindáveis versos de Drummond me fizeram encharcar a alma com toda sorte de águas. Deus bradou um dom. Hoje existe apenas Maria; a que olhava e sorria: "Bom dia!". Nunca pude ser a mais bela, mas conheço bem a altura de minha janela e sorrio: "Bom dia!". Também não sou a mais sábia menina - que essa guarda em seus olhos toda a dor do mundo e eu não sofro tanto assim. Tudo o que faço (e já fazia) é sorrir: "Bom dia!".
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Meus amores vãos
Suponho que me entender
não é uma questão de inteligência
e sim de sentir, de entrar em contato...
Ou toca, ou não toca.
Clarice Lispector
não é uma questão de inteligência
e sim de sentir, de entrar em contato...
Ou toca, ou não toca.
Clarice Lispector
Não é o gosto pelo trágico, meu amor. É a aversão pelo que é metade.
Eu não queria ter abandonado sua cama sem me despedir, há alguns anos. Eu não queria ter feito você adoecer, há alguns meses. Eu não queria ter batido a porta do seu carro, hoje à tarde.
Eu queria que todo aquele amor em cânticos, tivesse se feito carne ao menos por uma noite para eu me sentir mais viva. Eu queria que aquele desejo demoníaco, se satisfizesse todos os dias de nossas vidas para eu me sentir eterna. Eu queria que você me lançasse palavras duras, ásperas, que expressassem a medida exata do seu desprezo por mim; para eu saber o meu lugar, para eu sentir que você está vivo.
Eu queria que você tivesse me resgatado; segurado firme a minha mão e não me deixasse fugir nunca mais: porque eu já não sei viver sozinha.
Eu queria que você tivesse me assassinado - docemente - na última noite, me punisse por toda a minha vileza: porque eu já não sei morrer sozinha.
Eu queria que você me curasse ou me ferisse: porque eu já não sei amar sozinha.
Eu queria que você, o que ainda me ama, fosse capaz de me desejar. Você que às vezes me deseja, fosse capaz me alcançar. Você que sempre me alcança, fosse capaz me amar.
Eu queria que vocês tivessem corpo, nome e voz.
Eu queria que vocês tivessem corpo, nome e voz.
Não, não quero nada - abismo e silêncio, talvez - mas que seja por inteiro.
*
Perdão, minha pretinha, por dedicar em sua memória um textinho tão mal escrito, cheio de rasgos sentimentais, feito no calor da hora - caneta bic em papel manchado de lágrimas. Mas pra além do sorriso mais bonito do mundo que você tinha, eu lembro de você recitando e se emocionando com o "Poema em Linha Reta" do nosso Álvaro de Campos. Lembro das palavras da Clarice que me serviram de epígrafe e que foram as últimas que você usou em seu perfil. Penso na blusa vermelha d' "O Teatro Mágico" que você usava quando toquei suas mãos frias pela última vez e eu sei, eu sei que "sou tão perto de você". Te amo. Esteja bem. Luz!
domingo, 23 de maio de 2010
"Não era preciso que dissesses..."
Não era preciso que dissesses dos precipícios. Tenho caminhado em derredor deles e, vez ou outra, mergulho. Mergulho num salto largo rumo ao que minha vista sequer alcança: não aprendi ainda a decifrar teus olhos. Sei que são duros como a rocha onde firmo meus pés, sei que são áridos como os vales de adiante. Não poderei cultivá-los como faço em meus jardins. Os jardins são espaços de artifícios que servem às minhas tentativas de enredar toda sorte de passantes. Apresento-lhes as cores e as fontes, mas, sabíamos desde sempre, eles são cegos. Esmagam as pequeninas flores a pés desnudos e partem; deixarão nestas terras senão um tanto de si. Resistem os penhascos e as selvas, permanecemos nós.
sábado, 22 de maio de 2010
Reencontro II
§
Naquela noite redescobri como pude amar o menino. Lembrei-me. E lembrar, desta vez, não trouxe lágrimas. É certo que chorei. Mas um chorinho de alegria tão aérea, como jamais a tive. A nascente de alegria assim seja, talvez, o saber que nossos percursos não deformaram o que outrora nos fez unidos.
Não, menino, não é ousadia supor seu percurso, seus caminhos. Sei que foram distintos dos meus pelo fato único de que em nenhum momento dessa jornada estivemos lado a lado. Minha visão talvez estivesse embaciada, porém confio em meus outros sentidos. Nesse tatear estradas nunca estive desatenta ou menos viva. Posso então dizer que foram distintos nossos percursos - estarei certa.
E nesses caminhos, tais quais navegantes ferindo mares intocados, tanta maravilha encontramos. Crescemos? Sim; mas não assim tão muito, pois somos ainda capazes de decalcar no mundo as cores da poesia. Reencontrando o seu, meu canto fez-se mais vívido. Reconhece em si a agudeza da vida, o pulsar destes algarismos todos, os infinitos signos. Reconhece sem decifrá-los.
Eu queria ter dito "vai-te embora, rapaz morto" e estaríamos já há mais tempo libertos - mas era o espinho de suas vidas outras que ainda feria meu seio e confundia-se com minhas já vividas angústias.
Éramos, menino, feitos de diversa matéria, porém éramos iguais em essência: o primeiro homem e a primeira mulher. O sopro que nos trouxe à vida foi o mesmo que espraiou o orvalho de minhas carnes fora de seu paraíso... Banida, estive vagando a lançar maldições e murmurar feitiços; busquei seus medos e brinquei com eles; eu era, então, sombras.
Mas hoje somos o pássaro e a menina; as primeiras coisas, dores e clamores, são passadas. Estão limpos os nossos olhos porque houve o intervalo da reinvenção. Eis que criamos nova mão e novo braço, verdadeiros cuidados a quem amamos.
O braço acolhe, a mão entrega: a Deus. E hoje em meus braços você é uma oferta. Sei que são outros seus deuses, deusas e mitos; mas você bem sabe que já foi um dia meu único objeto de fé. Há, portanto, fração de seu sentido em mim - havia. Hoje faço o sacrifício último. Adeus, menino bonito.
Mundo maravilhoso,
que guarda em algum lugar secreto
o pássaro encantado que se ama…
Rubem Alves
§
Naquela noite redescobri como pude amar o menino. Lembrei-me. E lembrar, desta vez, não trouxe lágrimas. É certo que chorei. Mas um chorinho de alegria tão aérea, como jamais a tive. A nascente de alegria assim seja, talvez, o saber que nossos percursos não deformaram o que outrora nos fez unidos.
Não, menino, não é ousadia supor seu percurso, seus caminhos. Sei que foram distintos dos meus pelo fato único de que em nenhum momento dessa jornada estivemos lado a lado. Minha visão talvez estivesse embaciada, porém confio em meus outros sentidos. Nesse tatear estradas nunca estive desatenta ou menos viva. Posso então dizer que foram distintos nossos percursos - estarei certa.
E nesses caminhos, tais quais navegantes ferindo mares intocados, tanta maravilha encontramos. Crescemos? Sim; mas não assim tão muito, pois somos ainda capazes de decalcar no mundo as cores da poesia. Reencontrando o seu, meu canto fez-se mais vívido. Reconhece em si a agudeza da vida, o pulsar destes algarismos todos, os infinitos signos. Reconhece sem decifrá-los.
Eu queria ter dito "vai-te embora, rapaz morto" e estaríamos já há mais tempo libertos - mas era o espinho de suas vidas outras que ainda feria meu seio e confundia-se com minhas já vividas angústias.
Éramos, menino, feitos de diversa matéria, porém éramos iguais em essência: o primeiro homem e a primeira mulher. O sopro que nos trouxe à vida foi o mesmo que espraiou o orvalho de minhas carnes fora de seu paraíso... Banida, estive vagando a lançar maldições e murmurar feitiços; busquei seus medos e brinquei com eles; eu era, então, sombras.
Mas hoje somos o pássaro e a menina; as primeiras coisas, dores e clamores, são passadas. Estão limpos os nossos olhos porque houve o intervalo da reinvenção. Eis que criamos nova mão e novo braço, verdadeiros cuidados a quem amamos.
O braço acolhe, a mão entrega: a Deus. E hoje em meus braços você é uma oferta. Sei que são outros seus deuses, deusas e mitos; mas você bem sabe que já foi um dia meu único objeto de fé. Há, portanto, fração de seu sentido em mim - havia. Hoje faço o sacrifício último. Adeus, menino bonito.
Mundo maravilhoso,
que guarda em algum lugar secreto
o pássaro encantado que se ama…
Rubem Alves
§
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Reencontro
Para um instante e pergunta, olhos contra olhos:
- Cadê, hein?
Diante de minha expressão de dúvida, enfatiza:
- Cadê, hein? Cadê a marca do 666 no seu corpo?
Não sei o que responder. Percebo-me ainda mais nua; descoberta em meu segredo, pois sei que um demônio habita o meu coração.
Calo, atônita. O demônio sorri.
Novamente, só. Penso em como eu era. Penso nos meus atuais gestos de súcubo. Tenho a resposta tardia e desnecessária, pois ele bem sabe:
- Diga você. Foi você quem a inscreveu em mim, há exatos dois anos.
quarta-feira, 24 de março de 2010
Ritornelo
A perplexidade diante das palavras não é privilégio das crianças e dos poetas. Também nós, pessoas comuns, nos surpreendemos distraídos a repetir uma sequência de fonemas, como fôssemos pregoeiros; religiosos. É o efeito encantatório das palavras que subtrai nossas vidas da banalidade, do usual. Nem sempre se trata de uma palavra por si bela, como "centopeia"... É tão gostoso repetir inúmeras vezes... centopeia... escandindo... centopeia. Inúmeras. Inúmeras. Acalma. Deixa mais leve o espírito. Repetir os sons à exaustão, reduzindo os semas, esvaziando o significado... ah, maria maria... tereza... repetir, reduzir, dessignificar... ah, maria... ah, tereza... joão raimundo joaquim joaquim joaquim escandindo joaquim joaquim joaquim joaquim joaquim joaquim o amor comeu metros e metros de gravata joaquim joaquim


segunda-feira, 15 de março de 2010
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Palavra

"Pensar numa flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido." - Alberto Caeiro
O que mais me apavora são os sons abstratos das palavras que eu não vejo, eu ouço, eu penso, eu construo por meio desse código o discurso, eu sinto todas as sensações. Eu juro que sinto. Me sinto, em muitos momentos, fantoche das palavras que eu sei que existem aqui dentro, mas quando pulam da minha boca ou da tua boca pra fora não são mais simples combinações de códigos ou palavras que a gente aprendeu, são sim a combinação de todas as outras palavras que ainda não sabemos e que nos fazem organismos vivos.
Minhas palavras são folhas mansas levadas pela rudeza dos ventos fortes que passam, são abstratas demais as minhas sensações, é quase impalpavel e imensurável o tamanho dos meus sentimentos. No entanto são tão fluídos, tão vertiginosos e tão invísiveis que precisavam ser concretos em folhas de papel, em livros de romance, em páginas policiais, em textos de teatro, em muros, em portas, em cimentos frescos em traseiras de caminhões em adesivos autocolantes em embalagens de shampoo em lousas verdes pretas e brancas em caixas de sapatos em outdoors em corpos nus.
Eu queria poder dizer o que eu sinto.
As palavras correm no ar, fragmentam-se nos ouvidos alheios, os sons do meu amor são captados por todos ouvidos que me cercam, mas os sons do meu amor servem de fato para ti uma pessoa no interlúdio da nota anterior e da seguinte.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Vem, ou a oração do amor carnavalizado.

Vem meu amor,
vem
que eu estou inteiro
intenso
pleno e de peito aberto.
Vem meu amor,
vem
nas faltas
nas inconstâncias
e inconsistências
vem na insegurança.
Vem meu amor
vem
me conhecer como eu realmente sou
vem me reconhecer.
Vem meu amor bandido
mesmo sem circunstâncias
sem caridade
vem pra girar minha cabeça
vem pelo sexo
pelo beijo
vem
por aquilo que pulsa
por aquilo que jorra
por aquilo que goza
vem
por aquilo que geme
vem meu amor
pela falta de sol
pelo excesso de chuva
pelo mormaço
vem...
...vem
...
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Poeminha para Quarta-feira
para R.H.S.
Que tudo se desfaça em chamas; meu corpo em brasa...Chamaste-me e meu fogo se fez no teu.
Que tudo se desfaça em chamas e restem somente cinzas;
Que tudo seja desfeito, mas só ao fim do carnaval.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Dessine-moi un mouton
Outro dia, desses dias em que chorei, o André me abraçou pra eu nunca mais querer partir e disse que eu era uma menina. Menininha de seis anos. Sorriu. Sorri; chorando ainda porque preciso crescer e não sei como isso acontece. Eu imaginava que a gente crescia um pouco a cada amanhecer, então, já velhinhos, a gente passava a encolher e encolher até desaparecer pra sempre desse mundão de Deus. Acho que foi meu pai que me ensinou assim. Mas o sol vem muito freqüentemente por aqui e continuo a mesma tontinha de vinte e cinco anos atrás. O pai gosta de contar causos pançudos e eu tento acreditar, porque sei que cada história é um presente.
Meus olhos brincam com qualquer coisa, pequeninha, que eu ganhe. Seja a boneca que vi num anúncio de televisão (tão linda), o caramelo comprado na doceria do seu Sílvio ou a letrinha que me foi ensinada ontem. Eu me alegro muito facilmente ainda, percebe-se.
Só às vezes, e às vezes tem se repetido com frequência, sou triste. Triste, me transformo na boneca de louça que minha mãe sempre teimou em não quebrar. Ela fingia que sim, mãe brava, mas eu sei que os cuidados persistem. Desse jeito amor de mãe põe medo em criança que quer crescer, pois em muito lembra a dívida que todos nós temos com nossosenhorjesuscristinhoquemorreunacruzparanosredimirdospecados. Mãe, quando a gente-anjinho morre, vai pro céu? Se eu rezar bastante e tomar biotônico acordo bem crescida?
Faz um sol bem bonito - com montanha gaivota e mar - um sol que seja abraço infindo e eu sei que não vou mais querer fugir.
Só às vezes, e às vezes tem se repetido com frequência, sou triste. Triste, me transformo na boneca de louça que minha mãe sempre teimou em não quebrar. Ela fingia que sim, mãe brava, mas eu sei que os cuidados persistem. Desse jeito amor de mãe põe medo em criança que quer crescer, pois em muito lembra a dívida que todos nós temos com nossosenhorjesuscristinhoquemorreunacruzparanosredimirdospecados. Mãe, quando a gente-anjinho morre, vai pro céu? Se eu rezar bastante e tomar biotônico acordo bem crescida?
Faz um sol bem bonito - com montanha gaivota e mar - um sol que seja abraço infindo e eu sei que não vou mais querer fugir.
(imagens do livro Le Petit Prince, de Antoine de Saint-Éxupéry)
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Texto antigo com gosto de novo
§
Navegando os ventos de tua íris, aprendo melhor a imperfeição dos meus amores. Deixo o corpo um tanto solto, embalada pelo tropel de tuas ondas - tão azuis como o céu onde recolheste tuas mágoas. E todo ele, o meu corpo que já imagino teu, se faz também em vagas; projeto em mim o movimento das estampas que tens amado; pequeninas flores de toda cor. Esqueço-me por instantes que são tecidos leves os teus desejos; distintos, distantes dos retalhos que tenho reunido em minhas vestes arlequinais. Esquecendo um tanto as correntes que ancoram meus passos, posso amar-te. E há temores em meus braços quando lanço a impossível rede que trouxesse teu perfume até mim. Não quero hoje a dor dos espelhos; mirando as tempestades inscritas em minhas janelas, perco-me, como se fossem por mim o peso de tuas águas. Mergulho em tua pupila, menina dos olhos, evitando sentir na língua o sal de minhas tormentas.
§
Para Gabriela Camargo e seus amores,
aos meus amores.
sábado, 30 de janeiro de 2010
Ao amante
§
Escondo minha face de seus olhos, porque a mim mesma não me posso ver em tantos espelhos. Ferem-me o peito essas imagens, entenda.
Entenda que eu não busquei suas mãos; o contato se fez ao acaso, ou por algum motivo que somente se revelará quando vierem sobre nós as estrelas. As estrelas e a voracidade de suas luzes; verdadeiras luzes - luzes que roubam de nós todos os sentidos, deixando apenas a fome e o insaciável. Entenda.
Entenda que eu não posso morar em seus braços, por mais hospitaleiros que possam parecer. Tenho já a minha casa e não foi sem lutas que levantei suas paredes; amo cada grão de areia que juntei para construí-la; amo o barro e o sangue com os quais temperei seu reboco; amo as frestas pelas quais observo os encantos de alheios jardins. Mas, entenda, que eu não posso tocar aquelas flores.
E também não engane a si, se eu mesma sou capaz de ouvir seus pés à minha porta - você já está aqui dentro. Sinto que já está aqui dentro, mas eu, eu estarei sempre no detrás das velhas cortinas e não permitirei que seus olhos me alcancem, porque são viajantes.
Tenho medo de seus olhos e não farei de meu corpo algum porto ou pouso; tudo o que sou são esses muros e essas velas apagadas.
Sei da fragilidade desta minha casa e antecipo a existência de tormentas, ou leve sopro, que a faça ruir. Neste dia terei de retomar a insegurança de meus caminhos, tortos. Serei novamente espírito peregrino em desconhecidos céus. Por isso, amante, peço que entenda. Entenda que, hoje, eu tenho pouco a oferecer, embora seus sinais sejam estrada para mim.
§
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Amar é pensar
"Penso em ti, murmuro o teu nome; não sou eu: sou feliz."
("O Pastor Amoroso", II, Alberto Caeiro)
- Diga: o que vê quando olha dentro dos olhos dele?
- Eu vejo que são verdes.
"E sentiu que de novo o ar lhe abria, mas com dor, uma liberdade no peito."
("O Pastor Amoroso", VIII, Alberto Caeiro)
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Textos de brisas, ventos e algas...
Nesta enseada a brisa tropical anuncia a chegada da chuva que cai levando cores, lavando nomes, aquificando sons. É neste colorido de sensações que seu nome me vêm à boca, escorre pelos dentes como um bulbucio lacrimoso e engasgante. Olho ao redor e estou sentado na beira do cais, deixo os pinguinhos caírem sobre o papel, ninguém está aqui. E a guerra tempestuosa de nuvens contra o oceano escurece o horizonte e eu, espectador solitário, envolvido numa brisa quente de lembranças ponho-me a contemplar maravilhado as teias relampejantes que trincam destinos e abrem caminhos .
* *
*
Nesse dia vejo o sol que sai fugídio pela tangente do meu campo de visão. Lá vai ele colorindo o horizonte de uma noite de esperanças, de corpos lívidos que se encontram e se separam numa dança de desencontros.
* *
*
Em cantos
me despeço
em adeuses tronxos
Dez entre cantos
eu me perco entre todos
que me rodeiam.
sábado, 31 de outubro de 2009
Um ponto é...
Um ponto é uma convenção como tantas existentes. Sinal que se quer preciso - um sinal para quem o lança e para quem o recebe. Nisso e não em outro fato reside seu significado, suas significações.
Eu queria precisar uma ruptura. Eu queria precisar um começo
Mas são cavalos-marinhos, peixinhos, que pontuam minha vida - há muito desde que disse isso certa vez. Equilibro meus passos entre muitas dúvidas e algumas exclamações, reticências. Convenções?!...na outra linha, parágrafo (dois dedinhos), letra maiúscula. E tenho feito isso, deixando entre as linhas espaços em branco.
Gosto disso.
E gosto de tocar mãos que me tragam estrelas, flores, pedrinhas.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Iniciantes
Duas coisas estão certas: 1) as pessoas já não se importam mais com o que acontece com os outros, e 2) nada mais faz alguma diferença de verdade. Vejam só o que aconteceu. E mesmo assim, nada vai mudar entre mim e o Stuart. Mudar de verdade, quero dizer. Vamos ficar mais velhos, nós dois, já dá para ver na cara da gente, no espelho do banheiro, por exemplo, nas manhãs em que usamos o banheiro ao mesmo tempo. E certas coisas à nossa volta são mudar, ficar mais fáceis ou mais difíceis, uma coisa aqui, outra ali, mas nada será diferente de verdade. Acredito nisso. Tomamos nossas decisões, nossas vidas foram postas em movimento e vão seguir adiante, até a hora em que vão parar. Mas, se isso for mesmo verdade, e daí? Quer dizer, a gente acredita nisso, e mantém isso escondido, até que um dia acontece uma coisa que devia mudar tudo, só que aí a gente vê que, no final das contas, nada vai mudar. E daí? Enquanto isso, as pessoas em volta da gente continuam a falar e a agir como se a gente fosse a mesma pessoa do dia anterior, ou da noite anterior, ou de cinco minutos antes, mas na verdade a gente está passando por uma crise, o coração sente que sofreu um estrago
(trecho extraído do conto Tanta água tão perto de casa - Raymond Carver)
*
Why do you come here when you know it makes things hard for me?(...)I'm so sorry!
*
Cena criada a quatro mãos com Anna Carolina Consenza no domingo dia 27/09, para nossa aula de montagem. O texto foi criado a partir do trecho extraído acima e de experiências de vida. Peço licença a minha querida Marcela, mas é que esse texto diz muito para mim.
*
(para ler ouvindo Suedehead - Morrissey. A cena só terá sentido se for lida ao som dessa música) http://www.youtube.com/watch?v=0AvuweztG4Q
(ritmo intenso, ofegante de respiração acelerada)
Ela - Desculpa.
Ele - Porque você fez isso?
Ela – Medo! Medo de acordar de manhã e olhar pro lado e ver que você está lá!
Ele – Mas era pra ser assim não era?
Ela – Não sei!
Ele – Não sabe? Quinhentas pessoas dentro daquela igreja sabiam e você não sabe?
Ela – Esse casamento não era pra mim!
Ele - Então pra quem era?
(silêncio)
Ele – Quem é você?
Ela- A esposa.
Ele - Egoísta
Ela – você tá aqui pra quê? Pra pedir pelo amor de Deus pra eu me casar com você, pra dizer que me ama e que toda sua vida se resume a uma mulher que você nem por um segundo conseguiu perceber quem era?
Ele – Você nunca se entregou e eu sempre me doei (...) pra você me deixar plantado no altar. Caramba, eu tô aqui, você não tá se vendo? Até ontem você dizia que me amava e que a gente ia ser um só pra sempre.
Ela – A gente ia...
Ele - Acabou?
terça-feira, 22 de setembro de 2009
...sempre, sempre, sempre...
"Apesar disso - escutem bem - todos os homens
Matam a coisa amada;
Com galanteio alguns o fazem, enquanto outros
Com face amargurada;
Os covardes o fazem com um beijo,
Os bravos, com a espada!"
Balada da Prisão de Reading,
Oscar Wilde.
Amado,
creia-me:
seus beijos são palavras caídas de algum céu.
Se minhas linhas parecem demasiado doces ao seu paladar, lembre-se: palavras caem, como hão de cair todos os anjos.
Hoje, chama-me “estranha” e lança aos ventos seu repúdio contra mim e minha pouca compreensão de si, dos outros, da vida. Entristeço-me por saber que há razão em seus dizeres, e mais por ter fingido esquecer.
Outrora também fui desconhecida de seus olhos e desde já eu o amava. Naqueles dias, nos salões e nas ruas, entre tantas vozes que se elevaram, foi a sua, em timbre e palavra, que me trouxe do sono que nunca, em verdade, abandonei.
Meus olhos não eram, e não serão, como os seus. Seus olhos, castanhos, estavam tomados pela cólera nascente apenas nos que sabem e revoltam-se contra inimigos reais; enquanto os meus, estes tateiam o espaço ordinário dos descrentes, dos apenas desejantes. Meu rosto, sabíamos desde o princípio, era face do deserto.

Nas ruas, de tantos rostos que sorriram, de muitos que choraram, foi o seu — distante — que eu quis e amei. Rompia em meus desejos os alicerces de nossa casa, enquanto que nos seus passos eu antevia florescerem as paredes. Com temor, amaríamos cada uma das frestas.
...
Você nunca quis minha realidade, eu sei. Buscava apenas aquilo que de mim são sonho e fantasia. Mas busquei todo você em toda parte, ainda que não me fosse dado conhecer senão parte do que éramos, tantos são os fragmentos de que nos compusemos. Peço, porém, que, antes de acusar-me por deixá-lo ao relento em certos dias, lembre-se: nos campos onde havia fogo e tantos gritos — que nenhum outro cavaleiro ousaria descer as portas e romper as correntes — eu lá estive em demanda. Abriguei seu medo e sua culpa em meus braços e em meu seio estiveram adormecidos.
Eram nossas mãos que se tocavam; eram nossas mãos, a minha e a sua.
Recebi, e não esqueço, o impossível amor... Se no espaço de seu corpo não nasceram os cometas, seja talvez porque tudo quanto semeei foi a vida estática.
Sim, pois também nossos lábios estiveram unidos; é certo que não mais em palavras: silenciamo-nos nesses beijos. Meus olhos estiveram novamente cerrados; a avidez em meus cabelos pintou gris o horizonte. Brotaram as águas de tantas tormentas, assistimos pacientes ao esvaecer de nossa morada.
Volta, então aos labirintos, corredores tão íntimos seus...
Quanto a mim, repousarei sob seus umbrais. Tenho ainda alguns fios que poderiam ser lançados, não estivéssemos tão ferozes em nossa calma, não fôssemos tão incansavelmente nós.
...
Será capaz, você, de velar o meu sono? Velará meu sono, para que eu seja, ainda nos dias em que tentarei matá-lo? Nos dias em que jovens portando espadas invadirem seu esconderijo e ferirem seu corpo em meu nome, ainda assim, lembrará que há entre nós o amor? Saberá que nossos beijos foram ausência em saraivada, caindo de todo céu?
22/09/2005
"Fumo subia de toda a terra, dos oceanos vaporosos. O fumo do seu louvor!
A terra era como um turíbulo oscilando e balouçando, uma bola de incenso, uma bola elipsoidal. O ritmo morreu de vez; o grito do seu coração estava quebrado.
Os seus lábios começavam a murmurar os primeiros versos, sempre, sempre;
e foram até os versos médios, desatinadamente, gaguejando
e errando: depois pararam.
O grito do seu coração estava quebrado."
Retrato do artista quando jovem,
James Joyce
A terra era como um turíbulo oscilando e balouçando, uma bola de incenso, uma bola elipsoidal. O ritmo morreu de vez; o grito do seu coração estava quebrado.
Os seus lábios começavam a murmurar os primeiros versos, sempre, sempre;
e foram até os versos médios, desatinadamente, gaguejando
e errando: depois pararam.
O grito do seu coração estava quebrado."
Retrato do artista quando jovem,
James Joyce
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Por que me tentas?
envolveste-me em teus tentáculos
metendo-me em desatino
fizeste de mim o Pecado
e de si o perdido menino
mas por que me tentas, ainda na partida,
e não tentas, comigo, o clandestino?
e não tentas, comigo, o clandestino?
Foto de Vlad Gansivsky, encontrada no blog pequenos delitos.
terça-feira, 25 de agosto de 2009
Aniversário
O blog completou 2 anos sem festa nem vinho, mas com a certeza de que há um sentimento que subsiste às adversidades do tempo, espaço e massacrante rotina.
Te amo, Murillo.
"De repente me bateu uma saudade da metafísica; daquilo que é caleidoscopicamente sublime. Quando transformo esse encontro de almas em ação cotidiana, me sinto menos só. Te amo."
Murillo Marques, 21/08/2009, por sms
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Ao amado, o antigo
§
Nesta manhã de claro sol reconheço a existência de homens mutilados caídos uns sobre os outros em nosso chão. Sei que outros corpos haverão de tombar ainda hoje e amanhã e depois. Ontem; ontem era permitido fechar um instante os olhos, esquecer o mal e o que está além. Esquecer o desconhecido em que habitam nossos fantasmas. Além do mal, porém, há a lâmina que passeia meu corpo. Sinto-a nítida beijando a profundidade de minha pele, buscando o limite de meus ossos. Sinto o contato vibrante com o metal; a incisão imperativa redizendo sempre "abra os olhos". Tenho me esforçado por não esquecer, para manter-me em vigília - sabemos quão difícil tem sido: descobrir o que é afago, entender o que é distância; amar a nudez desses mortos e chorar por eles.
Nesta manhã, clara do sol, ouço seu clamor e respondo: sim. Lutemos juntos, pois será impossível descansar enquanto houver guerra. Juntos, não seremos mais fortes e não teremos o mundo somente nosso. Seremos ainda apenas nós entre todos, sob os olhares cegos de toda a gente. Seremos apenas você e eu, ainda que desejemos ser todos, ainda que partilhemos com os famintos nosso pouco vinho e nosso nenhum pão, nossa muita luz que nada lhes ilumina. Mas há os campos e há a guerra. Lutemos. Juntos. Uniremos nossas mãos.
Faz sol nesta clara manhã. Entrelacemos as mãos e reinventemos as palavras que temos dito todos os dias, ainda que não haja emissão de sons e letras. Sabemos que estão próximas as palavras; soluçando sobre nossos ombros, sempre estiveram. Neste agora estão contidos o que foi e o que será. Assisto proclamadas águas banhando os cortes e chagas, restituindo nossas cores mais belas.
Permanece em nossa casa a visita da manhã. Não esqueçamos, amado, que unir as mãos e entrelaçá-las é também unir os corpos - pensamentos e sentires - de modo que nenhuma linha, tênue que seja, os divise. Em vindouros combates, conseguiremos ser os mesmos sentimento, porta e palavra ao chegar da noitinha?
sábado, 1 de agosto de 2009
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Rayuela
“Certo dia, deu-se conta de que seus amores eram impuros porque pressupunham essa esperança, enquanto o verdadeiro amante amava sem esperar o que quer que fosse fora do amor, aceitando cegamente que o dia se tornasse mais azul e a noite mais doce..."
Julio Cortazar
Caminhar
entre o céu e o inferno
já não é
um jogo de amarelinha
e
nossas palavras cruzadas
são como espadas
em combate.
Somos, então, adversários
nos mesmos pátios
onde fôramos
companheiros
de
travessuras.
Qual moira às avessas,
desfazem, nossos passos,
a urdidura.
Mas a pedra, a pedra na linha,
no meio do meu destino,
será a mesma
que carregarás
que carregarás
por todo o teu caminho.
Assinar:
Postagens (Atom)


















