sábado, 2 de fevereiro de 2008

O Vazio

Era uma casa completa. Tinha os móveis, os retratos, um jogo de sofá e televisão.Na cozinha tinha panelas, panos de prato, cristais e geladeira. No quarto cama, guarda roupa, tapete persa e cortinas. No banheiro tapetinho, escovinhas para os dentes, papel higiênico, escovinhas para os cabelos, toalhas e sabonetes. Felicidade.

Era Borges o morador daquela casa. Muitas vezes durante todos os anos que ali morou abriu as portas daquela casinha para as festas, para a entorpecência e para os cidadãos da aldeia. Mas um detalhe é valioso para os fatos que virão a seguir, Borges nunca saiu de sua casa, nem por motivo de doença grave. Era medo, era aflição, era insegurança, era um sei lá o quê de apavoro que rondava seus pensamentos.

Os anos passavam e Borges se bastava naqueles cômodos e Borges contentava-se com o mundo visto pela janela. Eram flores que nasciam na primavera, era a brisa fresca que entrava no verão, era a folha seca do outono que grudava no vidro e era o galho pelado que batia no telhado no inverno. Borges era feliz.

Numa noite dessas que a gente rola de um lado para o outro na cama sem conseguir dormir Borges ouviu um barulho na sala e foi ver o que era. Num pulo assustou-se, o sofá tinha sumido. Acendeu as luzes da casa, procurou achar o vão por onde o patife do bandido havia entrado, mas nada encontrou, nem uma marca de arrombamento ou uma marretada na massaneta. Naquela noite ficou tão apavorado que trancou a porta de seu quarto e ali debaixo das cobertas pegou no sono só quando o dia raiou.

Na dia seguinte tremeu, tremia, abriu os olhos e percebeu-se apenas com as roupas do corpo a cama havia sumido, o guarda roupas, o tapete persa, as roupas os chinelos o travesseiro a coberta a poltrona abriu a porta desceu as escadas a cozinha estava deserta sem sinal de vida sem sinal de garfo de faca de pia de torneira os quadros da parede esbranquiçaram as pessoas nas fotografias sumiram a televisão escureceu. Borges andava pela casa e o passo do pé passeava pelo assoalho e o eco batia no teto passando pelo pé e batendo na sola de volta, a respiração dentro da casa era uma conversa de fantasmas do século XV.

E naquela manhã, quando Borges olhou pela janela de sua casa e viu os campos floridos e o dia ensolarado que ali fazia, percebeu que sua casa era vazia.Ouviu um barulho vindo da cozinha, andou receoso de encontrar os larapios que lhe roubaram toda sua vida, mas só encontrou uma porta batendo, era a porta que dava para o campo da aldeia. Então era por ali mesmo que os contraventores tinham levado as relíquias de sua vida.

Mais que depressa correu para a fora de sua casa, a porta encerrou-se em suas costas e Borges percebeu-se do lado de fora, com a terra invadindo os vãos de seus pés e os sol perfurando suas retinas. Sentiu medo. Decidiu voltar para dentro de casa, mas a porta estava trancada. Era uma casa deserta.

4 comentários:

felipemaia disse...

Quando aquele ambiente, com o qual estava acostumado, não tem mais sua identidade, não adianta voltar, você não pertence mais àquele lugar.

Ótimo texto!
:D

UMA BANDOLEIRA disse...

Meu amor aquele baby é nossa afilhada, a Kemilly, q tem uma madrinha desleixada! bjuuuus e sempre te visitandso por essas terras!

Leitura Enigmática disse...

Você, precisa juntar tudo o que escreve e publicar um livro. Está perdendo seu tempo...Faça isso!

Abração

Gustavo

Unknown disse...

Nossa!!! Agora eu quero mais do ter um blog mais do que nunca... Sabe pra qu~e???
só pra colocar o este aqui entre os meus links favoritos!
Amei!

Bj, Mariana.