Caixinha de Achados e Perdidos - Faça sua busca no ...postelunar...

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sábado, 31 de outubro de 2009

Um ponto é...



.


Um ponto é uma convenção como tantas existentes. Sinal que se quer preciso - um sinal para quem o lança e para quem o recebe. Nisso e não em outro fato reside seu significado, suas significações.

Eu queria precisar uma ruptura. Eu queria precisar um começo
na outra linha, parágrafo (dois dedinhos), letra maiúscula. E tenho feito isso, deixando entre as linhas espaços em branco.
Mas são cavalos-marinhos, peixinhos, que pontuam minha vida - há muito desde que disse isso certa vez. Equilibro meus passos entre muitas dúvidas e algumas exclamações, reticências. Convenções?!...

Gosto disso.





E gosto de tocar mãos que me tragam estrelas, flores, pedrinhas.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Iniciantes

Duas coisas estão certas: 1) as pessoas já não se importam mais com o que acontece com os outros, e 2) nada mais faz alguma diferença de verdade. Vejam só o que aconteceu. E mesmo assim, nada vai mudar entre mim e o Stuart. Mudar de verdade, quero dizer. Vamos ficar mais velhos, nós dois, já dá para ver na cara da gente, no espelho do banheiro, por exemplo, nas manhãs em que usamos o banheiro ao mesmo tempo. E certas coisas à nossa volta são mudar, ficar mais fáceis ou mais difíceis, uma coisa aqui, outra ali, mas nada será diferente de verdade. Acredito nisso. Tomamos nossas decisões, nossas vidas foram postas em movimento e vão seguir adiante, até a hora em que vão parar. Mas, se isso for mesmo verdade, e daí? Quer dizer, a gente acredita nisso, e mantém isso escondido, até que um dia acontece uma coisa que devia mudar tudo, só que aí a gente vê que, no final das contas, nada vai mudar. E daí? Enquanto isso, as pessoas em volta da gente continuam a falar e a agir como se a gente fosse a mesma pessoa do dia anterior, ou da noite anterior, ou de cinco minutos antes, mas na verdade a gente está passando por uma crise, o coração sente que sofreu um estrago
(trecho extraído do conto Tanta água tão perto de casa - Raymond Carver)

*
Why do you come here when you know it makes things hard for me?(...)I'm so sorry!

*
Cena criada a quatro mãos com Anna Carolina Consenza no domingo dia 27/09, para nossa aula de montagem. O texto foi criado a partir do trecho extraído acima e de experiências de vida. Peço licença a minha querida Marcela, mas é que esse texto diz muito para mim.
*
(para ler ouvindo Suedehead - Morrissey. A cena só terá sentido se for lida ao som dessa música) http://www.youtube.com/watch?v=0AvuweztG4Q
(ritmo intenso, ofegante de respiração acelerada)
Ela - Desculpa.
Ele - Porque você fez isso?
Ela – Medo! Medo de acordar de manhã e olhar pro lado e ver que você está lá!
Ele – Mas era pra ser assim não era?
Ela – Não sei!
Ele – Não sabe? Quinhentas pessoas dentro daquela igreja sabiam e você não sabe?
Ela – Esse casamento não era pra mim!
Ele - Então pra quem era?
(silêncio)
Ele – Quem é você?
Ela- A esposa.
Ele - Egoísta
Ela – você tá aqui pra quê? Pra pedir pelo amor de Deus pra eu me casar com você, pra dizer que me ama e que toda sua vida se resume a uma mulher que você nem por um segundo conseguiu perceber quem era?
Ele – Você nunca se entregou e eu sempre me doei (...) pra você me deixar plantado no altar. Caramba, eu tô aqui, você não tá se vendo? Até ontem você dizia que me amava e que a gente ia ser um só pra sempre.
Ela – A gente ia...
Ele - Acabou?

terça-feira, 22 de setembro de 2009

...sempre, sempre, sempre...

"Apesar disso - escutem bem - todos os homens
Matam a coisa amada;
Com galanteio alguns o fazem, enquanto outros
Com face amargurada;
Os covardes o fazem com um beijo,
Os bravos, com a espada!"


Balada da Prisão de Reading,
Oscar Wilde.


Amado,
creia-me:
seus beijos são palavras caídas de algum céu.

Se minhas linhas parecem demasiado doces ao seu paladar, lembre-se: palavras caem, como hão de cair todos os anjos.

Hoje, chama-me “estranha” e lança aos ventos seu repúdio contra mim e minha pouca compreensão de si, dos outros, da vida. Entristeço-me por saber que há razão em seus dizeres, e mais por ter fingido esquecer.

Outrora também fui desconhecida de seus olhos e desde já eu o amava. Naqueles dias, nos salões e nas ruas, entre tantas vozes que se elevaram, foi a sua, em timbre e palavra, que me trouxe do sono que nunca, em verdade, abandonei.

Meus olhos não eram, e não serão, como os seus. Seus olhos, castanhos, estavam tomados pela cólera nascente apenas nos que sabem e revoltam-se contra inimigos reais; enquanto os meus, estes tateiam o espaço ordinário dos descrentes, dos apenas desejantes. Meu rosto, sabíamos desde o princípio, era face do deserto.

  
Minotauro acariciando a una mujer dormida, de Picasso (1933)Como o leite e bolachas de mel, porém, sobrevieram suas palavras. Tomei do alimento em seus lábios, bebi do calor em sua boca e, confesso, sonhei você para mim.

Nas ruas, de tantos rostos que sorriram, de muitos que choraram, foi o seu — distante — que eu quis e amei. Rompia em meus desejos os alicerces de nossa casa, enquanto que nos seus passos eu antevia florescerem as paredes. Com temor, amaríamos cada uma das frestas.

...

Você nunca quis minha realidade, eu sei. Buscava apenas aquilo que de mim são sonho e fantasia. Mas busquei todo você em toda parte, ainda que não me fosse dado conhecer senão parte do que éramos, tantos são os fragmentos de que nos compusemos. Peço, porém, que, antes de acusar-me por deixá-lo ao relento em certos dias, lembre-se: nos campos onde havia fogo e tantos gritos — que nenhum outro cavaleiro ousaria descer as portas e romper as correntes — eu lá estive em demanda. Abriguei seu medo e sua culpa em meus braços e em meu seio estiveram adormecidos.

Eram nossas mãos que se tocavam; eram nossas mãos, a minha e a sua.

Recebi, e não esqueço, o impossível amor... Se no espaço de seu corpo não nasceram os cometas, seja talvez porque tudo quanto semeei foi a vida estática.

Sim, pois também nossos lábios estiveram unidos; é certo que não mais em palavras: silenciamo-nos nesses beijos. Meus olhos estiveram novamente cerrados; a avidez em meus cabelos pintou gris o horizonte. Brotaram as águas de tantas tormentas, assistimos pacientes ao esvaecer de nossa morada.

Volta, então aos labirintos, corredores tão íntimos seus...

Quanto a mim, repousarei sob seus umbrais. Tenho ainda alguns fios que poderiam ser lançados, não estivéssemos tão ferozes em nossa calma, não fôssemos tão incansavelmente nós.

...


Será capaz, você, de velar o meu sono? Velará meu sono, para que eu seja, ainda nos dias em que tentarei matá-lo? Nos dias em que jovens portando espadas invadirem seu esconderijo e ferirem seu corpo em meu nome, ainda assim, lembrará que há entre nós o amor? Saberá que nossos beijos foram ausência em saraivada, caindo de todo céu?

Marcela P.

22/09/2005

"Fumo subia de toda a terra, dos oceanos vaporosos. O fumo do seu louvor!
A terra era como um turíbulo oscilando e balouçando, uma bola de incenso, uma bola elipsoidal. O ritmo morreu de vez; o grito do seu coração estava quebrado.
Os seus lábios começavam a murmurar os primeiros versos, sempre, sempre;
e foram até os versos médios, desatinadamente, gaguejando
e errando: depois pararam.
O grito do seu coração estava quebrado."

Retrato do artista quando jovem,
James Joyce

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Por que me tentas?

polvo


envolveste-me em teus tentáculos
metendo-me em desatino

fizeste de mim o Pecado
e de si o perdido menino

 mas por que me tentas, ainda na partida,
e não tentas, comigo, o clandestino?

Foto de Vlad Gansivsky, encontrada no blog pequenos delitos.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Aniversário

O blog completou 2 anos sem festa nem vinho, mas com a certeza de que há um sentimento que subsiste às adversidades do tempo, espaço e massacrante rotina.
Te amo, Murillo. 

"De repente me bateu uma saudade da metafísica; daquilo que é caleidoscopicamente sublime. Quando transformo esse encontro de almas em ação cotidiana, me sinto menos só. Te amo."
Murillo Marques, 21/08/2009, por sms

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Ao amado, o antigo



§
Nesta manhã de claro sol reconheço a existência de homens mutilados caídos uns sobre os outros em nosso chão. Sei que outros corpos haverão de tombar ainda hoje e amanhã e depois. Ontem; ontem era permitido fechar um instante os olhos, esquecer o mal e o que está além. Esquecer o desconhecido em que habitam nossos fantasmas. Além do mal, porém, há a lâmina que passeia meu corpo. Sinto-a nítida beijando a profundidade de minha pele, buscando o limite de meus ossos. Sinto o contato vibrante com o metal; a incisão imperativa redizendo sempre "abra os olhos". Tenho me esforçado por não esquecer, para manter-me em vigília - sabemos quão difícil tem sido: descobrir o que é afago, entender o que é distância; amar a nudez desses mortos e chorar por eles.

Nesta manhã, clara do sol, ouço seu clamor e respondo: sim. Lutemos juntos, pois será impossível descansar enquanto houver guerra. Juntos, não seremos mais fortes e não teremos o mundo somente nosso. Seremos ainda apenas nós entre todos, sob os olhares cegos de toda a gente. Seremos apenas você e eu, ainda que desejemos ser todos, ainda que partilhemos com os famintos nosso pouco vinho e nosso nenhum pão, nossa muita luz que nada lhes ilumina. Mas há os campos e há a guerra. Lutemos. Juntos. Uniremos nossas mãos.

Faz sol nesta clara manhã. Entrelacemos as mãos e reinventemos as palavras que temos dito todos os dias, ainda que não haja emissão de sons e letras. Sabemos que estão próximas as palavras; soluçando sobre nossos ombros, sempre estiveram. Neste agora estão contidos o que foi e o que será. Assisto proclamadas águas banhando os cortes e chagas, restituindo nossas cores mais belas.

Permanece em nossa casa a visita da manhã. Não esqueçamos, amado, que unir as mãos e entrelaçá-las é também unir os corpos - pensamentos e sentires - de modo que nenhuma linha, tênue que seja, os divise. Em vindouros combates, conseguiremos ser os mesmos sentimento, porta e palavra ao chegar da noitinha?
§

sábado, 1 de agosto de 2009

Dueto


Por que tem de ser assim
um solo em dueto
minhas perguntas seus silêncios.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Rayuela


“Certo dia, deu-se conta de que seus amores eram impuros porque pressupunham essa esperança, enquanto o verdadeiro amante amava sem esperar o que quer que fosse fora do amor, aceitando cegamente que o dia se tornasse mais azul e a noite mais doce..."
Julio Cortazar

Caminhar
entre o céu e o inferno
já não é
um jogo de amarelinha
e
nossas palavras cruzadas
são como espadas
em combate.
Somos, então, adversários
nos mesmos pátios
onde fôramos
companheiros
de
travessuras.
Qual moira às avessas,
desfazem, nossos passos,
a urdidura.
Mas a pedra, a pedra na linha,
no meio do meu destino,
será a mesma
que carregarás
por todo o teu caminho.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A rua da província

desenho de Aldo Zanetti

Vamos tomar um chá de pernas com a velha senhora que vende seus minutos de prazer em tantos buracos, negociaremos um chá de glandeos, períneos, auréolas e pêlos. Ao fundo o som decadente de um blues irritante em sua sala de neons multicoloridos.

Esta velha senhora de néctar ousadamente delicado me deixa aos berros, coloca-me incerto de minha certezas planas, vamos beber o sumo candido em sua poltrona aveludada. Dona dos meus olhos, mostra-me o amor de suas virginias, abraça-me com seus paêtes e suas unhas encarnadas, deixa-me vulnerável com seu ópio, com seu sistema falho de ovulação.

Minha deusa, passei por muitas janelas em toda essas noites em que estive a vagar e a lutar contra dragões. No entanto, só agora que cheguei nessa província é que me deparo novamente em frente aquela única, de candeeiro baixo e paredes corroídas, em que eu não posso entrar.


sábado, 4 de julho de 2009

Carta ao dignissimo senhor D.


Digníssimo senhor D, venho por meio dessa carta informar ao senhor que o inverno chegou, as mocinhas trajam roupas mais quentes e os rapazes usam cachecóis, as árvores estão cada vez mais secas e peladas e as noites são um misto de marrom com um bordô meio enviezado para a tristeza.
Pelo visto o senhor tem trabalhado demais, e sua mãe, me diga dela, melhorou daquelas moléstias que o fez desaparecer tão repentinamente?
Por aqui as coisas andam frias, acho que logo mais a neve irá tampar a porta de entrada da casa. Sinto que é preciso que Agosto chegue logo e com ele os raios de sol primaveris, lembro-me bem do calor daqueles dias agostinos em que nós andávamos a contemplar os lírios e a dar risadas dos tolos obsecados que corroboravam com o cinzento ar matinal da cidade grande.
A Maricotinha está namorando firme, a Juju anda iludindo uns amores tolos. Terminei aquele livro e escrevi aquele texto, terminei o curso de datilografia e estou trabalhando numa repartição pública. Acho que me alistarei para o exército no verão, ouvi dizer que o Brasil está precisando de braços fortes para a luta armada.
Querido amigo, mande lembranças.Essa sua ausência que culmina nesse silêncio não lhe cai bem.

Do sempre seu companheiro de parque,

Mizu.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

O Trem das Cores




Eu queria um texto cheio de imagens, desses que vão refletindo como espelho aquilo que a gente não mostra claramente ao falar de amor, de solidão e de esperança, deixando toda a intenção real de quem escreve sublimada.
Um texto universal que falasse todas as línguas e ressonasse o som da chuva, chiando pelas encostas do riacho e desembocando na parte mais densa do mar tombando gotas fluídas de verbos esvaidos em flancos inflamados que pudessem dizer da paz que é sentir-se bem.
Eu queria saber usar as cores vibrantes e rubras dos tangos argentinos, que as minhas palavras escorressem como o sangue de minhas mãos cortadas pela lamina prata da navalha dizendo assim das escatologias, das visceras, daquilo que está dentro e que se põe exposto a partir do momento que o verbo se torna hemorragia de sensações.
O meu texto deveria pretender falar de coisas inerentes ao ser humano, mas eu percebi que sobre isso eu não sei falar, eu não consigo estabelecer a ponte entre o tu e o eu, não há o que dizer. Eu não sou poeta.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Jogos




Yann Tiersen - Comptine d´un Autre été: L´Aprés Midi
Found at skreemr.com

Nesta roda, também fui brincante:
ladrilhei as ruas que não eram minhas
para amores que não serão meus.
Sem mais voltas, finda a ciranda,
vou embora, digo adeus.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O marasmo.

1.
Assim ao Poeta a Natureza fala!
Enquanto ele estremece ao escutá-la,
Transfigurado de emoção, sorrindo...
.
Sorrindo a céus que vão se desvendando,
A mundos que vão se multiplicando,
A portas de ouro que vão se abrindo!
("Supremo Verbo" - Cruz e Souza)
2.
Marasmo: s.m. Magreza extrema, abatimento físico; atonia. / Fig. Estagnação, apatia, indiferença, descaso.
( Aurélio)
Eu tento escrever sobre esse nada, quero dizer desse vazio que não deixa a pena prosseguir. O marasmo.
Eu já tive a necessidade de ter algo para dizer, de saber como sentir, de me motivar para acender aquele cigarro. Hoje não.
Eu vivo, eu trabalho, eu não estudo mais.
É como viver da impressão, da imagem. Da imagem vazia.
Um significante vazio de significados, é incrível como até essas palavras não têm mais nexo, não tem poesia e nem tem sensibilidade é o verbo cru no presente que se esvai em linhas brancas, quero dizer nem em linhas porque as linhas não existem mais, é um universo branco que se borra com uma tinta preta, fedida, podre de palavras nulas.
Se eu pudesse pensar, ou agir, eu arrumaria meu quarto, tiraria as roupas do chão, dobraria meus lençóis, terminaria aquele projeto, colocaria a vida no ciclo comum de nascimento, crescimento e morte. Mas eu não quero.
Prefiro essa cadência de desencontros que não me encontra, prefiro esse samba de nada que um dia se chamou silêncio, prefiro a minha cadeira, a minha porta, os 3 metros de quarto em que me encontro nesta segunda feira ensolarada, mas fria.
O silêncio já não diz, o que é certo não convém, o que era para ser brilhante ficou perdido e o homem que eu me tornaria não faz mais diferença.

domingo, 10 de maio de 2009

Corpos Celestes

"Wrapped in Colour", Andrea Blackman


Se tua vista alcança-me em palavras, não te desesperes: és habitante em meu espaço. Todavia, se buscas ainda nestes infinitos: o corpo: haverás de tecer outras redes; caminhos de cometa haverás de percorrer. E eu-ilha, eu-planeta, permanecerei naquela mesma órbita, permanecem as mesmas coordenadas. Estarei aqui, à espera da colisão, talvez impossível, porém desde há milênios em mim inscrita
-
profetizada.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Não te enganes, isto é prosa


um dois três... cigarros
nunca aprendi a tragar
mas sorvi cada um deles
- teu prazer secreto -
como se teu sexo fossem

sexta-feira, 17 de abril de 2009

O Encontro ou "A persuasão de Caronte"

Orfeu, de Moreau (1826 - 1898)


Passos que se cruzam entre pernas que se trançam, nos pés sapatos, meias, pêlos, peles áridas que não se tocam e vão andando, misturando, corporificando e massificando tantos eus que estão aglutinados em nós. Neste mar de loucas enunciações entrecruzadas, entrelaçando-se, na grande metrópole o coito cotidiano segue, são milhões de referências, citações e soberbas ironias. Daqui ele vai para lá, risos, risadas, gargalhadas e histerias recheiam a tarde, passos entre braços, entre bolsas, entre rádios-celulares de alta resolução com seus mega-pixels que retratam o nada que se vê dentro de tudo. Corre as flores para a entrega, zarpa a moto pro delivery, são pastas de executivos, cabelos batidinhos, saias, meias calças, lojas, frango assado rodando na porta da padaria, exposições de arte assando dentro das galerias, livros, descontos, comprados, vendidos, difundidos, amassados, amarelados. Ali no café, depois no banco pra ir pro ponto. Prédio que mete tudo no céu sem vaselina ou saliva pra deslizar. Caos de manhã, aquecimento global a tarde, programa a noite. Vasto, vasto campo subterrâneo, rodam as loucas catracas numa sinfonia jazzistíca, apitos sonoros fecham portas errantes de uma vida que passa entre faíscas soltas dos fios elétricos que guiam o senhor Clímeno e seu cão Cérbero, que cuidam da distribuição das vidas pelas grandes estações subterraneas. Num instante, no meio da multidão que habita o Reino dos Mortos, o tempo se dilata. A lira põem-se a chorar. Eurídice vestida no seu manto azul celeste segue o fluxo putreficado dos que já morreram, mas por um instante ouve, reconhece e lembra. Olha para o tocador que com lágrimas nos olhos deixa-se engolir pelo som eletrizante do caos, ele abaixa a cabeça com sua candida lágrima a corroer o peito preenchido de silêncio. Eurídice olha-o e segue seu caminho.

domingo, 22 de março de 2009

Sobre as meninas e os lobos

Com o tempo a gente aprende que seguir regras, preceitos e dogmas não é garantia de que tudo vai dar certo. Ao contrário. Regras, preceitos e dogmas presumem uma realidade ideal e, muitas vezes, esquecemos o sentido da Vida em nome de aparências que se pretendem ideais. Deixamos de existir em nossa integridade para que tudo pareça e chegamos a crer mais nas parecências do que no ser. Regras, preceitos e dogmas geram medo. Medo de não ser aceito, medo de magoar, medo de ser magoado. Geram também perversidades. Porque tudo parece, há aqueles que em certas esferas de vivência suprimem de alguma forma o outro, o que teme e também o bravo. O inferno não são os outros. Há um pequeno inferno em cada um de nós e é preciso vencê-lo não apenas nas aparências. Apenas o verdadeiro respeito pelo outro; o reconhecimento dos limites entre o eu e o outro permitem a liberdade, permitem que a Vida se efetive em seu mais humano significado. Com o tempo a gente aprende que as piores coisas acontecem com quem menos merece. Aprende-se tarde demais, porém é quando as imagens falsas são quebradas e os elos verdadeiros fortalecidos.

Isso não foi um capítulo de auto-ajuda e não pretende ser nada além de um desabafo (desculpa, Menino Trovador, não foi esse o combinado para este espaço... mas eu precisava gritar... sei que ao correr seus olhos sobre essas linhas, eu os sentirei como um abraço...)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Tristeza no Céu



No céu da cidade

há também uma hora de

silêncio

Em que Deus não se pergunta nada.

ele só faz convulsionar lágrimas,

torrenciais e tempestivas,

de crocodilo pelo chão.

E põe-se a assoprar e apagar

os raios de sol

maldizendo

e extinguindo

um coloridinho

besta e inútil por de trás do morro.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Ausência





beirut - nantes
Found at skreemr.com



a mim, me confundem as tuas faltas
mais que a tua ausência em mim
a minha falta na tua falta
Campo Mourão/PR

domingo, 18 de janeiro de 2009

Fim de tarde na beira do mar


Relâmpago no mar,

é a mão de Deus que desce dos altos céus

para apanhar um golinho d'agua.

Marinheiro na beira do mar

senta,

bebe,

fuma

esperando que Deus alivie sua ressaca.



A lamparina acesa,

os barcos atracados no cais

Iaiá servindo um golinho d'aguardante

é o paraíso terreno.

Num fim de dia sem sol,

peixes fartos:

o silêncio da enseada se rompe,

às vezes pelos estrondos da mão n'agua,

às vezes pelo canto eufórico do marinheiro

à beira mar.

sábado, 17 de janeiro de 2009

"Hoje eu quero tocar a memória..."


Hoje eu quero tocar a memória com a ponta dos dedos e ouvir a quentura de sua face. Quando enternecida pelo longo tempo, a memória se nos dá febril. Seus beijos são labaredas em noite de chuva fina. Gosto de roçar os cílios na face dos dias passados; mas, sobretudo, amo sabê-los distantes de mim.
Desenho meu espaço neste instante e ao que não mais há, concedo qualquer gosto quimérico. As letras e as imagens são intensas como aqueles dias de sol em que estendíamos alvos lençóis sobre os varais; como as noites frias em que contávamos lágrimas sob a lua. Sempre a história de ontem; a mesma cor, o mesmo gosto.

Vou dando corpo às lembranças; vou lembrando o corpo de sensações então esquecidas. Esquecidas somente para que neste momento eu pudesse recordá-las; aproximam-se num tumulto de vozes como se me quisessem oferecer consolo, palavras de afeto.

Então revelo meu segredo em baixa voz: minhas mãos já aprenderam a morte. Pouco ou nada mudou. De nada valeu gritar o fim e anunciar novas paisagens. Sempre torno ao mesmo ponto, ainda que faça meu curso em espirais.

sábado, 3 de janeiro de 2009

"Algumas vezes, pessoas lançam ao mar..."

Algumas vezes, pessoas lançam ao mar pedidos de socorro em garrafas; outras vezes, os lançam por sob as portas e os fazem penetrar as casas e as vidas. Não importa em que língua falem, a quem queiram falar, ou o quê; são sempre os mesmos pedidos de socorro.

Não estou diante do mar; mas lanço garrafas com bilhetes e durmo ao canto gostoso das vagas. Um canto que não é, ainda, o murmurinho do mar; apenas o som do amor que eu imagino para aquele corpo de maré.

Maré - eu sei que não estará nunca, sem ir embora um pouquinho. Mas eu imagino: imagino infinitos e eternos; de outro modo não sei fazer. Os dedos brincam desenhos na quentura da areia, silenciosos grãos: invento meu novo amor.

Que os ventos não soprem antes que eu o saiba verdadeiro, quente, doce.

(outubro/2006)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Puzzle

Fui teu puzzle de 1000 peças.
Jogo de monta e des-
monta; esquecido e incompleto,
neste agora em que cansaste
de brincar.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

...


era uma vez, tudo de mim em duas palavras:
o não e o sim

mas só, apenas hoje, sou universo em vocábulos:
sempre ou talvez.




Imagem: olhares

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Um querer de Hamlet para hoje e para o resto dos dias.

Sei que não poderia escrever isso aqui neste blog. Desculpe-me querida Arlequinal, mas palavras me somem da ponta da pena e não há nada que eu possa fazer a não ser refletir o bloco de pedra que se entalou em minha garganta, e a dúvida que me assola, nas palavras do mais célebre personagem Shakespeariano.

A todos que aqui nos visitam eu digo que não, por favor não quero ouvir sermões, eu já tenho uma coleção deles no meu armário. Eu sei que tudo tem a sua hora, que quando Deus fecha uma porta abre uma janela, que existem coisas melhores guardadas, que tudo tem um motivo e dessas paspalhadas todas eu já estou farto.

Por hoje eu quero Odes infernais, sistemas digestivos inteiros, sucos gástricos e ácidos que me ponham numa efervescência completa, que me façam digerir o bloco de pedra, o grito que não sai e a lágrima que não cai.


"Ser ou não ser. Eis a questão: é mais nobre sofrer na alma as pedras e flechadas de um destino ultrajante ou pegar em armas contra um mar de problemas, e enfrentando todos, acabar com eles? Morrer, dormir... mais nada. E no sono acabar com a aflição e os mil choques naturais que a carne traz em si. Essa é a consumação que se deve querer como uma bênção. Morrer, dormir. Dormir, sonhar talvez: isso é que é difícil! Porque os sonhos que podem existir nesse sono da morte, depois que nos livramos desta confusão mortal, nos fazem parar para pensar. É isso que tanto prolonga a calamidade desta vida. Quem há de preferir as chicotadas e o desprezo do tempo, a humilhação do opressor, a arrogância do orgulhoso, as dores do amor desprezado, a demora da lei, os desaforos do poder, e os chutes que os talentosos pacientemente recebem dos indignos, quando o próprio sujeito pode encontrar a paz na lâmina nua de um punhal? Quem é que agüenta esse fardo, gemendo e suando numa vida dura, senão pelo medo de alguma coisa depois da morte, o país desconhecido, fronteira que ninguém cruza de volta, que confunde a nossa vontade, que nos leva a preferir os males que já temos do que voar para outros que não conhecemos? É assim que a consciência transforma todo mundo em covarde, é assim que a cor natural da determinação acaba desbotada pela palidez do pensamento, e grandes projetos importantes perdem o rumo, e não podem ser chamados de ação."

Morrer, dormir. Dormir, sonhar talvez: isso é que é difícil depois de um final de semana como este.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Às manhãs


Eleven a.m. - Edward Hopper
As manhãs acordam tarde
Já não há como sorrir
E segue o canto triste:
“Estou tão feliz”.
Se fora ontem,
Quem sabe?
Quem sabe não teria
compactuado da felicidade
pura e simples do coração
que se mostra aos olhos meus?
Mas não hoje...
Não neste momento,
Nestas dez horas em que levanto
Querendo estar em coma.
Não nesta tardia manhã que segue uma noite
de mal caídas
lágrimas
(luciféricas? malditas? dementes? lúcidas?)
Não... Não sou capaz de me unir
ao coração puro e simples,
que a noite e o dia já não me bastam!
Busco o limbo, o lugar dos não-sentidos,
dos não-sentimentos, da não-vida e da não-morte...
Só quero negar se puder neutralizar todos os valores:
O dramático, o épico, o lírico
Já não me convencem mais
A realidade (se há) tampouco.
Não resta em mim
nenhum dos humores...
Se não me é de posse o ódio,
Também o amor abandonei/desde o princípio

“Pássaro de asas tortas,
(dos amigos, de Carlos, de Vinicius,
de quem mais? Não me lembro agora...)
Queria dominar teu canto zombador,
Marcar tuas dádivas inexclusivas
Com números profetizados,
Lançar-te ao lago de fogo.”

Não sou Deus. E estou tão feliz!


29 de Dezembro de 2006

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Trem de Carga



"As partes idas

dos vagões são

três passadas,

nos cora as ações"

O astro

Homenagem a Marlon Brando

Sentidos vagos,
tormentas,
suplícios,
incongruências, martírios.
O corpo celeste
na cama perene.
O olho não preenchido
que sente a falta
do membro.
O corpo sereno
saltado na cama maldita,
gemidos internos
esporram estrelas
que grudam no lençol.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Receita para um abraço infinito



"No mais, quando distante o abraço,
há sempre que se dizer um "olá".
Quando ausente o beijo,
precisamos (sempre) compartilhar o silêncio
e, nele, nos fazer mais unidos."



Dante Gabriel Rossetti, Paolo and Francesca Da Rimini (Detail) [1855]


Uniremos algumas três palavras e de sua indissociabilidade será gerado um sentimento. Quero entrelaçá-las num sempre e nunca desatado nó - serão chave para nenhuma porta. Quero o amálgama entre riso e lágrima e que sejam nova palavra em vida.


E a palavra seja instante subtraído de seu universo; e a palavra esteja só. Toda ela, palpitando apenas minha no ninho de meu corpo. Amarei a palavra.

Palavra, sentimento, porta.

Mas este senão de pequenas e muitas coisas procuradas está me enlouquecendo. Meus olhos não percebem os espelhos a fluírem do ventre e sobre tais estilhaços calco os pés desnudos.

À dispersão dos gestos, somam-se outros passos; discípulos e perseguidores tingindo de sangue o solo que a custo semeei; e sei que essas tintas são o mesmo sol espargido em incessantes fios pelos beirais de nossas casas; fios que embriagam nossas plantas e tomam nossas janelas, umedecem as paredes de nossos quartos em assombrosas figuras.


Tanta seiva entorpece-me; são revelações condenando à vida quem lhes ampara. Abrem meu peito em versos e outros maiores golpes; contam-me a existência de um leito em que convergiram estas águas. Mergulhos irrefletidos incidem sobre nossos corpos; submerge a fonte onírica de onde provieram as primeiras gotículas de lucidez.

São outros os sentidos que habitam o profundo em que construímos nossos paços e ensaiamos nossos dias. Sorvemos as emissões de sons dos quais já não nos ocupamos; na superfície instável, florescem segredos a lançar amantes contra as rochas. Mas, ei-los, no silêncio e na escuridão, pois que resistem: porta, sentimento, palavra.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Surrealismos



esta falta de
foda
me funde a
cuca



Jovem Virgem Auto Sodomizada Pelos Cornos de Sua Própria Castidade - Salvador Dali

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Sem título e sem final

Summer Interior - Edward Hopper


Eu sempre quis as coisas simples. Vez ou outra esquecia-me disso, mas acabava por recordar. Nesse então, gritava a todos os ventos meu desejo de leveza; eram-me pesados os dias, as vestes, as palavras. Segundos. Não tardava e eu estava de volta ao mesmo quarto, refugiando-me nas mesmas velhas e novas manchas no teto. E elas pareciam mesmo falar, pingando a chuva de ontem e a de agora.

E já não sei se o simples e o leve coincidem. Pode ser que não, embora tente associar esses dois também ao amor e à beleza. Talvez eu esteja errada mesmo. Eu nunca compreendo. Mas era simples, sempre foi simples: estar lá, entre as mesmas paredes; meu corpo e só; era, ainda é simples. Mas o amor, o amor e os novos espaços capaz de criar, ultrapassa os limites da beleza e da simplicidade. O amor revela novos medos, caleidoscópicas palavras e construções sintáticas - o mesmo arquetípico sentimento.

Flores

"as flores do jardim da nossa casa
morreram todas"

Porque durante toda a nossa vida teremos três amores, independente do número de pessoas que passem pela nossa vida.
O primeiro é o clichê, aquele que a gente nunca esquece, sempre estará lá como a ferida mal cicatrizada, ou o agouro mal curado. Leva consigo uma sublimação mágica dos tempos da primeira ruborização, leva um gosto de saudade que nunca cessa.
O segundo é o amor intenso aquele que vigora a paixão e a intensidade ímpar do sentir-se amado e amar em retorno, muitas vezes egocêntrico, mas assim mesmo surreal e verdadeiro. É quando o individuo se vê só no meio da multidão, esperando um telefonema, um "oi", um "sim, eu aceito" que muitas vezes nunca chega, é o amor verdadeiro, mas passageiro.
O terceiro é menos primaveril como o primeiro, sem muitos veraneios e calores internos como o segundo, mas é aquele que vai querer casar, namorar e te acompanhará para o tempo que for necessário. É o amor de velhinhos à beira do mar com chapéus de palha, chinelas havaianas e tardes alaranjadas.
Enfim, tem sorte aquele que encontra numa mesma pessoa essas sensações, aquele que consegue perceber as modificações e as múltiplas faces do ser amado. Isso requer muita paciência e muito desentendimento, muita briga e muita aceitação, muita desidealização do que poderia ser feito e muito contentamento com o que é de verdade, muita lágrima e riso, muita roupa intima jogada com os dentes pra fora da cama, muito café, muito sms, muita cadeira de balanço, muitos esquecimentos de datas e fatos importantes, muita abdicação e muito sonho sonhado juntinho. Para que assim seja compreendida a inexplicabilidade do eu e do outro bricolado numa tessitura de quereres.
Ah, não tenho muito o que dizer por esses dias, esse texto é mais uma droga que escrevi e que não deu certo...

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Fragmentos (ou Contradições)

Olho para o mundo sem a desconfiança de quem acaba de ser ferido - ferimento causado por lanças inimagináveis.

Abraço. Beijo. Amo. Abraço sem braços. Beijo sem boca. Amor sem mágoa.

Vejo o presente como a um espelho que me devolve imagens invertidas do passado. Presente delicado; cores ricamente combinadas.

Não alcanço o dia em que senti pena de mim mesma em meu sofrimento de palavras.

Piedade? Posso percebê-la quando sou surpreendida pela confusão alheia. Desta vez não há como sentir-me culpada. Porém não consigo ser piedosa, daquela piedade distante; asséptica. Sinto-a como se mil cristais cantassem em estilhaços dentro de mim.

Mesclados aos fragmentos de transparência, líquidos quentes e frios - que não são ainda sangue.

São apenas uma idéia daquilo que poderia ser o sangue, sem perderem a propriedade de cobrir todo sentimento com cores e impressões indeléveis.


terça-feira, 28 de outubro de 2008

Exceção...

Brindemos, amigo meu!

Brindemos aos corações cativos, porque brindes à liberdade são clichê!
Brindemos aos copos que se quebram na mesa ao lado.
Brindemos aos aniversariantes de hoje e aos de ontem... e aos do mês passado, porque deles não me esqueci. Esquecer-me-ei dos aniversariantes do próximo mês?
Brindemos aos poetas, estão vivos e passeiam entre nós!
E peçamos piedade, piedade aos "puretas" que nada sabem sobre o nosso amor.
Brindemos ao poeta de régua e compasso, esquadro medindo o tempo e o espaço, ao poeta que amava Drummond e os seus três mal-amados; ao poeta que sorvido em "minutos de sabedoria" , mostrou-se sabedor de todos os segredos que convulsionam os nossos corações.


"Junto a ti esquecerei..."
(João Cabral de Melo Neto)

I
Junto a ti esquecerei as inúmeras partidas
- as cordas e as amarras nunca se quebraram
e talvez por isso eu permanecerei imóvel sob a tua influência...
Tu pesarás para mim como produto de âncoras
como a pedra amarrada do pescoço do pecador.
Os portos passarão a ser beira de cais
as terras longínquas nada mais me dizem
- quebrei a bússola para evitar a tentação.
Tua presença é poderosa como urros na floresta.
Sinto que extingues em mim
a sombra dos navegadores.

II
A tua atitude te eleva para o alto.
Vejo que cortaste definitivamente todas as amarras.
Daqui eu adivinho os olhos dos homens
perdidos no tempo que nada descobrirão de ti.
Deixa que os não-poetas falem de tua beleza,
esses nunca compreenderão o que há em ti de sombras
de sementes germinando, de vozes de cavernas.
Nem ao menos que é o teu olhar que nos aproxima
que nos torna irmãos para o resto do tempo.
Eu te reconheceria entre todas, porque tua presença eu a pressinto.
Deixa que tuas formas eles a tomem pela essência.
Esses te perderão ainda mais
e nunca compreenderão tuas inúmeras sugestões
que tu mesma desconheces.

III
Esquecerei os teus convites de fuga.
As coisas presentes serão absolutamente insignificantes.
Sentir-me-ei em tua presença como o primeiro homem
que se ia apoderando de todas as formas conhecidas.

IV
Esquecerei todos os convites de fuga.
Os portos serão para nós apenas
as âncoras e as amarras.
Nossos olhos não mais distinguirão
caravelas e transtlânticos sobre o mar.
Nossos ouvidos não mais perceberão
o barulho das ondas que são um chamamento constante.
Então leremos poetas bucólicos
debaixo de uma árvore que deverá ser frondosa.
Indefinidamente rodaremos em torno dela como num carrossel
indefinidamente estarás comigo.

1937

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

O tempo da espera...

O tempo da espera também me faz viver. Contar nos anéis cada segundo; saber que entre os dias há o instante em que silenciam os males. Eu queria levar meus pés aos campos onde caminha seu corpo; nos espaços em que, graves, acenam seus gestos. Porém, sei que isso não faria de mim, sua companheira; não seria pra você, aquela que sou. Decerto, sabíamos quem éramos, por isso existiu o amor. Quisera eu fosse o corpo e o rosto em que pudesse repousar sua face ao fim do dia, dos tantos dias que parecem não ter mais fim. Entretanto, sabemos, isso não faria de mim melhor amante — e não aprendi de todo, confesso, como ser a amante esperada. Espero, apenas. Brincando com a areia da praia, juntando esses peixinhos que pontuam minha vida — espero. Que há sempre neblina em meus olhos; e não tem sido também a névoa a nos fazer próximos? Ouvir o mar e seus ruídos é quanto basta para que permaneçam o nome e o amor. Eu quero tanto, tanto... e tanto querer já está contido em meu silêncio. O mesmo silêncio que sustenta minha espera pelo impossível, pela luz nascendo de sua boca e adormecendo estes cortes, estas inquietações.

*texto antigo, com pequena variação.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Biografia para Neusa Sueli com o mesmo desfecho de Emma (a Bovary, de Flaubert)

Inspirado numa leitura de Navalha da Carne

Hoje quando cheguei, o Vado ainda estava aqui. Então foi mais cedo que a gente brigou a briga nossa de todo dia. Antes, quando eu ainda me chamava Olímpia Eugenia, eu não brigava por nada. Ficava sempre quieta porque a tia me ameaçava bater e mais uma porção de pragas que me jogava se eu não procurasse andar direito. Eu ainda acreditava em Deus, naquele tempo, e tinha medo de sofrer todos os martírios que, dizem, existe no inferno. Agora eu sei que o inferno e a purgação são aqui mesmo nesta terra. Sei que o céu e o paraíso não existem em nenhum lugar.

Eu queria ter tido muitos irmãos, mas o dia em que eu nasci, em 17 de março de 1934, foi também o dia em que morreu minha mãe. Eu bebezinha fui ser cuidada por uma tia, ali mesmo na região de Sorocaba, onde o pai morava. A tia era boa. Era a tia Lurdinha quem me dava o comer e o vestir. Ela me ensinou a lavar, engomar e passar; me ensinou a fazer comida e a cuidar da casa.

Então, quando eu tinha seis anos e já sabia fazer todas essas coisas, fui cuidar do pai na tapera em que ele vivia. Desde que a mãe se fora, ele não mais conheceu mulher e passava os dias trabalhando na roça dos outros. Ele pouco falava comigo ou com qualquer pessoa. Quando chegava em casa de noite, ele tragava umas cachaças e cantava músicas tão tristes que me doía o coração só de ouvir. Parecia que ele já sabia que não existe nem céu nem paraíso. Só de vez em quando é que ele quebrava o silêncio e dizia: "- Limpinha! 'ocê precisa arrumar logo um marido, que não demora e eu desinfeto desse mundo e 'cê fica mais sozinha!".

Mas o pai não imaginava que eu queria, mesmo, era ser como a voz bonita de mulher que eu ouvia no rádio. Eu queria cantar cantigas que também enchessem qualquer coração de tristeza, tristezinha bonita, que faz o coração levinho.

O pai não queria saber do meu querer; me arrumou noivo e vestido. Eu tinha quatorze anos quando entrou aliança no meu dedo. Depois da festa, que durou três dias, o pai tomou uma colher de arsênico e descansou o corpo que carregava a alma havia tanto tempo morta.

Meu marido era homem bom e mascate. Junto dele, viajei muito por esses interior todos e aprendi toda sorte de vendagem fajuta. Ele também pouco falava comigo. Mas também não me batia, como fez o Vado ainda há pouco. O que me tristecia era ver tanta riqueza que ele vendia e a tão pouca que ele me dava. As peças estampadas que me negava eu via cobrindo o corpo das meretrizes nos lugarejos onde passávamos. Eu queria ser aqueles corpos e os vestidos que usavam, os anéis e colares que ostentavam nas janelas.

Um dia, nessas andanças, eu estava lavando roupa na beira do riacho, cantando as músicas tristes que o pai cantava para ninguém. Apareceu um moço, que era mais um boto de tão bonito, e disse que eu tinha voz de artista. Tinha certeza de que se eu fosse para São Paulo e me apresentasse na rádio, enricava em dois tempos e que ia viver coberta de luxo. Eu contei para o senhor meu marido e ele escarneceu de mim, numa gargalhada que ainda hoje toca na minha cabeça.

No dia seguinte eu parti com o moço bonito, me disse que eu não me chamaria mais Olímpia Eugênia Chalipp, mas Júlia Márcia, apenas. Na cidade grande, eu cantei. Cantei em um lugar bonito de paredes vermelhas de veludo, onde homens importantes aplaudiam minha voz. Ele disse que precisava ser assim, pois era ali que o dono da rádio me conheceria. Como eu era nova, eu precisava pagar para cantar, e como não trouxera nenhum dinheiro, dizia o homem boto, teria que me deitar com um senhor muito rico que pagaria para mim; se não o fizesse me cobriria de pancadas.

Eu queria cantar e me deitei com aquele senhor e com muitos outros, sem nunca receber convite para cantar em nenhuma rádio. Quando me atingiu a tísica, perdi minha voz e meu protetor. Não sei como me curei, pensava que fosse com o poder de Deus; não, agora não acredito mais em Deus. Em nenhum deus.

Uma vez curada, meu corpo recebeu muitos outros homens e nomes: Ana Pia, do Machado; Solange Magrinha, do Jorge; tantas de tanto. Hoje eu era a Neusa Sueli, do Vado. Agora, volto a ser Olímpia Eugênia, do meu pai. Como ele, mergulho numa colher de arsênico e desinfeto daqui.



*Texto com o qual representei a cidade de Osasco na Fase Estadual do Mapa Cultural Paulista 2007/2008.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Fragmento I

* Quadro de Salvador Dalí

É uma falange de dispersões que rodopia.

Hoje não chora, amanhã não ri, depois de amanhã esqueceu, daqui a um mês vinte e duas partes e daqui a um ano trezentos e tantos pedaços.

Lembrar é a causa de não seguir.

Dentro do grande armário das lembranças restam apenas grãos de areia guardados.

Grãos que remetem a praias distintas e distantes, grãos que constróem um mosaico de infortúnios e lamentações.

Lembrar, lembrar, lembrar e num sopro esquecer.

Esparramar e não saber se o vento voltará ou se a areia ficará dispersa,

perdida.

Para sempre perdida.

sábado, 9 de agosto de 2008

...postelunar... - aniversário de 1 ano


Poste Lunar 09/08/2007 05:01h Osasco

Sol: 16 Leão 23 Ascendente: 19 Câncer 10
Lua: 1 Câncer 23 2a. casa: 24 Leão 42
Mercúrio: 9 Leão 17 3a. casa: 1 Libra 04
Vênus: 29 Leão 52 Fundo do Céu: 3 Escorpião 08
Marte: 1 Gêmeos 21 5a. casa: 0 Sagitário 02
Júpiter: 9 Sagitário 56 6a. casa: 24 Sagitário 14
Saturno: 26 Leão 55 Descendente: 19 Capricórnio 10
Urano: 17 Peixes 53 8a. casa: 24 Aquário 42
Netuno: 20 Aquário 45 9a. casa: 1 Áries 04
Plutão: 26 Sagitário 31 Meio do Céu: 3 Touro 08


11a. casa: 0 Gêmeos 02


12a. casa: 24 Gêmeos 14

Seu Projeto:
Você nasceu na Terra para desvendar muitas intrigas, e envolver-se em situações e problemas de difícil solução. Nesse sentido, você terá de tomar cuidado para não se tornar o alvo principal dessas intrigas, assim como também deverá ser muito cauteloso para não pisar desnecessariamente nos calos alheios. De qualquer forma, o destino lhe trará muitos segredos que não poderão de forma alguma ser revelados, sob pena de acontecer coisas bastante fortes, talvez mais fortes das que você pensar, na hora em que se ver obrigado a administrá-las. Você se interessará por conhecer os meandros da alma humana, e será um psicólogo natural, tendo a capacidade de atrair as pessoas que precisem de apoio e conselho. Tome cuidado para não misturar esta habilidade com os assuntos amorosos, apaixonando-se por pessoas que precisem de ajuda, em vez daquelas que possam oferecer-lhe amor.

Fonte: Quiroga.net

Peregrino

"saudade? este
sopro que, em meu
corpo, grita."

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Estrangeiro

"Sondo a saudade
é a sua voz,
silêncio."

sábado, 12 de julho de 2008

Nada

Nunca gostei que me olhassem fundo nos olhos. Meus olhos significam mais do que as milenares palavras de um dicionário.

Certa vez, numa situação de amor, lançaram-me um olhar febril de paixão, meus olhos convulsionaram-se de uma fria languidez e aqueles olhinhos souberam enfim o que tanto havia no meu coração. Aquela face empalideceu, o sorriso se desfez ao compreender o mistério que há no espaço entre o ver e o olhar.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Visto a máscara...


Visto a máscara e corro todos os bailes, mas eles não sabem. Eles não sabem que suas vozes e suor permanecem nas estampas que lhes envolviam os corpos, mesmo neste instante em que os namorados se fizeram conhecer e os risos recolheram-se no sono da embriaguez.

Então sou eu a buscar os retalhos esquecidos nos cantos dos salões. Tingidos de vinho ou sangue, são eles que compõem meu costume.

Parece não ter passado muito tempo desde que recusei meus trajes mais antigos. Tentei vestir o muito leve que são a cor do vento e o som de luas espirais. Permiti que desconhecidas vozes deslizassem sobre meus sentidos enquanto eu permanecia quieta, silenciosa. Não o silêncio de quem cala, mas o silêncio de quem não sabe e precisa aprender.

Aprender que as mãos — as minhas próprias e quaisquer outras — guardam algum segredo, algum encantamento: ainda que cerradas em punho, ainda que voltadas para o céu em completo abandono de prece.

Aprender que os pés sempre tornam ao antigo movimento — o mesmo andar desordenado de quando criança — apesar de o ritmo mostrar que, para além do mal, a vida e o desejo também são motrizes de mim.

Silêncio de quem acreditou nascer, em algum corpo de amante, o beijo que fizesse não mais pensar em infinitos e eternos sobre os quais, de fato, nada sei dizer.

Não estive sóbria naquelas manhãs; mas a fuga aos sentidos era necessária e esperada enquanto houvesse vestígios de tantas festas.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Amor Perfeito II


"Porém, como uma promessa de vida nova, te digo:
Regarei, cuidarei e amarei..."



Aprendi a máxima irrefutável de que não basta recolher as flores caídas e encerrá-las em livros. O muito cuidado não lhes restituiria vida ou beleza. Ensinaste-me que devemos reinventá-las junto ao corpo, como são inventados os amores. Conduzir os lábios ao cálice; estreitar o dorso aos espinhos; despentear suas pétalas para que, ausente, persista o perfume entre os dedos.

Ensinaste a mim o que aprendeste das orquídeas e dos narcisos. Não sabias, porém, que eu já lançara meu corpo a toda sorte de bem-e-mal-me-queres ou que, desde o primeiro instante, já me precipitara e me perdera no espelho de teus olhos. Não, não me condenes por esmagar flores em livros nem reclames a memória de eflúvios em tuas mãos viajantes. Contudo, se puderes chorar esta flor morta — parte do que em mim há do mais vivo amor apieda-te também das violetas.

Pequeninas, confundidas e esquecidas entre o solo fértil e as plantas dos teus pés.

domingo, 6 de julho de 2008

De quando beijei a morte...

Francis Picabia, Femme aux oiseaux


Eram cinco ou seis grãos de areia dispostos de modo a imitar a forma de uma casa. Casa branca, murada baixa, cortinas azuis a cobrir a vista de seu interior. Dois pássaros: amarelo; preto. Nunca alçaram vôo, senão no interior da casa que desde sempre habitaram. O mesmo espaço ruinoso persistia em sua brancura de paredes, tal como se fizera existir no instante de sua construção. Então num sopro - muito leve sopro de menina - cada um dos grãos ventou o som de sua própria voz, lançando em espanto as aves dormentes.

marcela p. em 13/11/2004

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Conversinha Real


- E então não é lindo?
- Lindo! Mas tem de tudo mesmo?
- De tudo, só não tem favela. Proporcionamos saneamento básico e um programa de educação sexual para reduzir a natalidade.
- E fome, têm?
- Distribuímos cestas básicas, vale refeição, décimo terceiro, quarto e quinto salários para os trabalhadores. Aqui a fome passa longe!
- Casas?
- Próprias.
- Economia?
- Crescente.
- Desemprego?
- Nulo.
- Homicídios, seqüestros e roubos?
- Quase zero. Sequestro, o que é isso mesmo? Ah! Deixa de bobeira Manuel, não precisamos de cadeia, aqui o cidadão é honesto.
- E aquelas mulheres ali no porto?
- São Helenas, Marias e Joanas esperando por marinheiros, poetas e economistas.
- E os tísicos? Elas também esperam os tísicos?
- Já disse que tu terás a mulher que quiseres na cama que escolherás.
- Mas eu ainda não sou feliz.
(Tosse, tosse, tosse.)
- Respire Fundo Manuel!
.........................................................................................................................................................
- É disso que precisas, ar fresco, prostitutas bonitas e banhos de mar. Isso não é felicidade?
- Majestade, um quase defunto como eu destoa nesse paraíso.
- Então não vais ficar Manuel?
- Sinceramente? Vou-me embora. Pasárgada é um soneto de amor romântico encerrado.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Deitada no topo...

Gustav Klimt - The Sunflower


*para ler ouvindo The Scientist, Coldplay;
continuar ouvindo depois de ler e,
se possível, voltar ao começo...



Deitada no topo do meu girassol, esqueço melhor o mundo. Mundo inventado em pedacinhos de papel; desenhado nas paredes de meu quarto com um movimento de olhos. Às vezes, o corpo cansa desses jogos - de vida ou de invenção - e precisa estar quieto. Esqueço tudo; esqueço de mim na superfície desta ou daquela flor. É o sol, somente, a vestir quentinho a pele nua, o coração exposto. Nenhum êxtase ou comoção; apenas a calma, a serenidade.


sábado, 28 de junho de 2008

...




mar de amor, em ondas
me vagueias, enreda-me em tuas teias
ardentes águas-vivas





Imagem:
First Light, Christina Hope (1989)

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Romeu Silenciado.


Não foi o rouxinol nem foi a cotovia. Acendo um cigarro apressada olhando pela janela, não há notícias suas no rádio nem no jornal. Desaparecido.

Faz tempo que você se foi, prometeu-me um sinal, uma volta, um vôo rasante para me buscar. Dizem que está no México, mora num trailer, vive os dias mais quentes andando pela relva curta que nasce aos poucos na terra vermelha da América Central.

Daqui dessa janela o universo é azul, monocromático, estático. O frei veio benzer-me, nos casou há dias e também não traz notícias suas. Confessei, me matarei numa tarde cinzenta. Como uma mulher vive sem o marido antes que ao menos o ato fosse consumado?

Está confessado, mato-me agora e ninguém me possui.

O que é uma rosa? Um cheiro, um nome, uma cor? Continuaria sendo uma rosa mesmo tendo outro nome? Claro.

Cigarro, arsênico e pólvora.

Um bilhete singelo: Querida volto hoje para buscar-te.

Não foi o rouxinol nem foi a cotovia a madrugada é eterna.


* Ilustração de Octavia Monaco para o livro Romeu e Julieta, Nicola Cinqueti

sábado, 14 de junho de 2008

...

Gosto de chorar os meus mortos e já não sei se meu murmúrio atrai estes fantasmas.

Tão distante como não acordar por um dia; tão próximo como levar a mão à boca - e eu sorrio e choro e vivo. Sei que não é meu corpo ainda clamando por luz. Não busca a luz e os espaços, meu corpo. Espera, ainda, que os mortos da última estação comecem a brotar; que eles sejam as flores a enfeitar minha mesa.

Mesa posta para o jantar. Todos bebem. Riem de seus próprios ditos espirituosos. Eu, que nunca sei bem o que dizer, ouço a tudo. Atenta, embora meus lapsos de memória não permitam que eu distinga as palavras em forma e sentido.

Mas percebe aquela formiga se movendo entre as pétalas? Silenciosa. Atônita. Mimética. Ainda há pouco, não era a mesma que vejo agora. Ou, então, é a mesma de ontem. E isso não tem a menor importância. O que me interessa são as vozes contidas em seu movimento desordenado, neste instante em que não está entre os seus. E quem, de mim, espera que eu não seja o mesmo vulto de cores e negrume contidos nas flores e nos insetos?

Sejamos bem educados. Movamos os talheres sem agitação e tentemos não acordar as crianças com nossos risos desmedidos. É preciso conter os gestos e fazer-nos sisudos para não sentirmos dor. Não preciso que me ensinem a sepultar os dias mal vividos e queria para sempre não ensinar.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

"Tentativa De Prosa Numa Tarde De Junho" ou "Relicário" ou "A História Da Menina Em Poucas Linhas"




A menina caminhava cabisbaixa. Olhos voltados para nada. Cabelos pretos, pés descalços. Pisa o chão lameado da chuva de ontem. Uma formiga sozinha no caminho. A mão em pinça colhe o inseto e o põe na boca. Ela já não segue o caminho.

sábado, 7 de junho de 2008

- Vem!

olhares.comMereces um amor de lascívia e poesia!

Um amor, assim, como o meu: insaciável
e melancólico, decerto. Amor em versos
que repousam na atmosfera inconsciente
das palavras sussurradas e nunca ouvidas;
... ensurdecido por ofegante respiração.

Um amor, assim, como o meu, merece
tua volúpia e teu desatino e teus dizeres
de libertino, que são mais um ímpeto infantil;
desejo curioso de menino, desvendando
segredos inconfessáveis do espelho ao avesso.

Perdoa-me, pois esqueço que este amor, nosso,
é feito de portas que se fecham e despedidas.
Mas é, ainda, memória viva. Pequeninas mortes
e delícias revividas, enquanto me debruço na
janela, desmerecendo sorte e adeuses:

- Quero-te, amor, com lascívia e poesia!

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Dois dedos de prosa

Paulino Barreiros: Rodolfo (pai) , Sebastião (avô) e Tobias (tio)

§

Cresci ouvindo de meu pai sobre o dia em que estava ajudando o vovô a fazer uma porteira. Meu pai menino admirava aquele homem pelas histórias que sabia contar e pelo trabalho que executava - tão difícil era a arte da carpintaria e tão importante num Paraná que precisava se abrir em campos de pasto e lavouras.

Trabalhavam calados. Não poderíamos supor quantas coisas pensavam, cada um deles, enquanto exerciam suas tarefas principais: o pai deveria ensinar, o filho deveria aprender. Num momento, porém, o menino expressou a única comparação que julgara digna do pai de quem tanto se orgulhava:

- Papai, São José devia ser um bom carpinteiro, né? Ele era pai de Cristo...

Ao que vovô respondeu:

- Ele não era pai de Cristo e era péssimo carpinteiro.

§

Os tios são aqueles sujeitos que costumávamos visitar em nossa infância. Fartávamo-nos de brincar com os objetos de sua estante, entediávamo-nos com as longas palestras entre nosso pai e eles, por fim, dormíamos profundamente em seu sofá. Acordávamos no dia seguinte em nossa cama - ou berço - sem saber como havíamos chegado ali.

Chega um dia em que a gente cresce e os tios morrem.

§

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Sou uma fazedora de caixinhas...

Eu sei fazer caixinhas. Nelas, escondo toda sorte de matérias. São miçangas, fitas, pedrinhas coloridas, agulhas e alfinetes, moedas sem valor, fotos e cartas, peças de antigos jogos de tabuleiro. Minhas caixinhas não são como a de Pandora. Não contêm quaisquer males. São inofensivas e, talvez, inúteis. Minto. Há dias em que algumas pulsam rancorosas; e sinto medo.

Traço nova caixa, esperando que desta vez permanecerá vazia, na compreensão exata das distâncias que nos cercam. Mas se toda grande distância não é de todo lacuna, poderia permanecer desabitado o novo espaço? Percebo minhas mãos a despregar botões de velhas camisas, amando-os como se fossem o corpo que um dia as vestiu. Não culpo estas minhas mãos. Buscam, apenas. Não um objeto, mas um halo de santidade. Algo como uma idéia. Um motivo. Qualquer sentido que as faça quedar em oração. E movem-se. Dezoito pequenas peças circulares abrigadas na caixa lilás. Lilás. Lilases são as flores nela desenhadas – o fundo em que repousam se faz entre azul e cinza, sem que possa ser dito cor de chumbo. A leveza desta combinação de cores será para sempre associada ao que na caixa está contido.

Precisarei de envelopes perfumados nesta tarde. Não conheço destinatário que os mereça; serão meus e ocuparão a caixa azul. São olhos. Pálidos. Aproximam-se de mim; sou agora o mirante. Tudo lhes pertence – toda terra, toda água e toda gente, até onde a vista alcança. Tudo. Todo o amor e toda a fúria. Poucos sentires para seu anseio em descobrir novos ares e aromas. Não. Nenhum endereço será inscrito em meus envelopes. Tremo por desconhecidas terras que jamais tomarão conhecimento de suas cores. Mas vejo, grande, a caixa azul. É um pouco céu. Um tanto mar. Em muito de sua altura, letra. Não poupo esmero e afeição no fabrico dessas caixas, mesmo quando ensaiam qualquer gesto de piedade.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Falsa Oração

em face a lucidez de suas palavras
ofereço a incerteza de minhas letras


Peço ao Senhor Jesus Cristo, por intermédio
das mitologias grega, egípcia, africanas, indígenas, cristã (...),
Que não me abandone nos momentos de cruzes
ou na crueza da aflição

Desde o dia de hoje até que me acabem os anos.

Que eu veja a escureza de alma dos seres humanos
e num ato de carrasco inexperiente, covarde e piedoso de si
Possa cravá-la no branco das folhas de papel
em cenas de flagelo intermináveis

Até que amanheça o dia.

Comprometo-me a mergulhar na poesia
e dela fazer meu pão de todas as horas
Comungar a minha vida
e nunca dizer não

Até que venha o tédio.


* para Fábio Gomes

terça-feira, 13 de maio de 2008

Se eu fosse...

Eram os seus gestos que eu amava. Amava de um amor investigativo que buscava decifrar as imagens desenhadas no espaço pelo movimento de suas mãos. Eu não gostava muito de falar, pois a cada frase dita, seguiam o sorriso e a pergunta: “O que você quis dizer com isso?”. O sorriso anunciava que ela já conhecia a resposta de antemão, a pergunta denunciava a mim mesma que eu não sabia como havia amarrado aquela seqüência de palavras e que não havia explicação para as coisas que eu pensara. Amava, mas sem reverência, aqueles gestos de professora. Meu amor era feito de inveja. Nas brincadeiras de criança, minha voz nunca era ouvida. Admirava-me com a atenção que todos lhe dedicavam quando se punha a nos contar histórias e a explicar coisas. Quando eu crescesse, era como ela que eu deveria ser — mesmo sabendo que jamais seria.

Se eu fosse... Esse era o tema de redação que nos foi proposto. Se eu fosse isso, faria aquilo; meus colegas quiseram ser muitas coisas e coisas extraordinárias fariam com as propriedades que viessem a adquirir em sua transformação. Foram prefeitos, governadores, presidentes. Médicos, professores, Deus. Jogador de futebol, pugilistas, costureiros. Príncipes, princesas, magos. Trapezistas, atores, milionários. Divertiriam a si e aos outros. Extinguiriam a miséria, a ignorância, as doenças. Já não haveria luto, dor e lágrima.

Eu, eu quis ser um pássaro. Naquele tempo, acreditava que os pássaros não fizessem quase nada. Acreditava que buscassem em seus vôos apenas o prazer de estarem livres. Um pássaro não se preocupava com outro pássaro, para o bem ou para o mal. Exatamente o que eu queria: voar, sozinha. Havia certa poesia no meu escrito de menina de nove anos. Poesia que continha e escondia minha fuga ao pressentir a impossibilidade de se construir algo importante. Era assim que eu tecia e justificava meus insucessos futuros.

Aconteceu que a professora gostasse do meu texto. Não apenas o leu em voz alta na sala de aula, como o leu em voz alta nos corredores para vários professores de outras turmas. No recreio, alunos de outras salas e séries pediam para ler minha redação. Êxito literário na 3ª série é coisa muito séria. Então eu sabia escrever? E se descobrissem que eu era uma farsa na próxima redação? Esses dias me trouxeram a questão que ainda permanece.

A professora quis que brincássemos de política. Pela primeira vez em muitos anos haveria eleições para presidente em nosso país. Fato de importância imensurável, já que muitas pessoas lutaram para que tivéssemos o direito de votar em eleições presidenciais. Pois então, deveríamos nós, alunos da 3ª série A, em nossa sala de aula, numa escola pública de periferia, exercitar nossos direitos democráticos. Dois grupos de alunos escolhidos por sorteio apresentariam, cada qual, seu candidato e tinham a tarefa de defender suas propostas. O árduo desta tarefa estava em convencer os colegas eleitores de que nosso grupo e não o outro merecia seu voto.

Não poderíamos comparecer aos debates sem termos feito uma pesquisa sobre os presidenciáveis. Assistimos aos horários eleitorais na TV e recortamos notícias de jornal, tudo para compor o perfil de nosso candidato em oposição ao adversário. O mais importante, porém, foi conversar com nossos pais, tios, vizinhos, irmãos mais velhos, que compartilharam suas experiências com relação a um passado que nos parecia ao remoto e que agora ganhava vida diante de nossos sentidos.

Preparada para o debate, defendi com paixão o candidato no qual eu não votaria. Assim, nos meus primeiros passos em política usei palavras nas quais não acreditava com o objetivo de convencer e obter a vitória. Conseguimos eleger nosso candidato.

O episódio da redação somado ao dos debates e outras coisas das quais me lembro, fazem com que eu perceba o modo velado com que a professora exercia sua liderança. Jamais dissera “faça isso”, “é assim que deve ser”, mas seus gestos eram as palavras em vida. Palavras às quais deveríamos dar corpo para em seguida dissecá-lo.

Nunca mais pude deixar de pensar que as palavras eram perigosas e que dedicaria minha vida na tentativa de dominá-las. E eu já não queria estar só. Precisava compartilhar, aprender e ensinar - porém, preciso destruir a máscara que separa meu discurso de minhas ações. Discernir o que são as verdades e quais são as farsas.


(Escrevi este texto em 2004, pensando na professora Teka, mas como homenagem a todas as pessoas inspiradoras que me deixaram lições. Publicado originalmente por ocasião do 15º aniversário da Oficina Cultural "Sérgio Buarque de Holanda", em São Carlos, na antologiaConsurso Literário "Contos de Poesias", Tema: Brasil, mostra a tua cara. São Carlos, RiMa, 2005. A publicação no blog foi motivada pela postagem da Liz).

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Poligamia


*para ler ouvindo Poligamia (dedico à Paula Toller!rs)

São tantos rostos,
são tantas bocas,
são tantos ais,
são tantos uis.

São tantos pés,
são tantas mãos,
são tantos peitos,
são tantos erros.

São tantos e um,
são tantos em um,
são múltiplos,
são cúbicos.

são tantos sem razão.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Arlequinal

Edward Hopper, Excursion into Philosophy, 1959.

As vidas estilhaçadas
compõem desiguais caminhos
— retalhos originais

"Os versos que escrevias,
enquanto juravas amor
à humanidade vil,

sempre foram canto hostil.
Não pensaste nunca a flor
que teu falo recebia."

Entre palavras armadas,
estamos, assim, sozinhos.
Não há quem cante os meus ais.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Eclipse

estranho que, no meu riso, haja sempre o siso
em meu amor, mil formas de não amar
se ora me escondo, ora me entrego
eclipsante, como as faces do luar
mas nova, plena ou minguante
não é, ainda, a mesma lua?
não sou a mesma e tua,
dependente de luz
de estrela para
brilhar?

* ao meu amor, minha lhama, meu sol

quarta-feira, 9 de abril de 2008

...

(arte de Flor Garduño)

Medo de estar sob teus olhos e ao alcance de tua voz;

Desejo de me render ao teu domínio e desfalecer em teu colo.

São puros os meus desejos; os medos, imemoriais.

Minha face tomada pelo perfume em teus cabelos;
minha boca em teus ombros: embriaguez.

São puros os meus desejos; os medos, imemoriais.

Minhas mãos, amantes, em tua pele de lírio;
Nossos lábios unidos, luz das manhãs.

São puros os meus desejos; os medos, imemoriais.

O frêmito em teu corpo na morada dos meus braços;
nossas pernas enlaçadas, teias de amor.

São puros os meus desejos; os medos, imemoriais.

Medo de ler nas tuas formas o que imagino todos os dias:
esta linguagem sem palavras que nasce em mim.

(dez/2006)


segunda-feira, 31 de março de 2008

Cidade do Silêncio



Neste beco tão florido e silencioso fica a casa eterna daqueles que têm meu nome. Aqueles que eu conheço e que me compadeço. Moram ali quatro meu bisavô, seus dois varões e aquele que mora lá antes do tempo.

Eu os visito em tempos esparsos, em tempos de adeus, caminho descendo aquela pequena ladeira e passo por casas conhecidas, por pessoas que eram antes que eu fosse, passo por pessoas que partiram antes que eu pudesse chegar. São casas singelas, pequenas e apertadas, mas que guardam grandes memórias.

A brisa toca meu rosto e ao longe além dessa cidade silenciosa o sol alaranja o mármore, as folhas despencam das árvores na minha frente e cobrem um chão de adeuses e louvam do chão os deuses, implorando misericórdia para quem dorme.

Caminhando, descendo, percebo que um desconhecido preocupa-se em lavar os quintais e a água desce, escoando, escorrendo, seguindo o fluxo da ladeira intermitente levando folhinhas, lavando pedrinhas, passando pelas raízes desobstruindo passagens, seguindo, perdendo o volume, se diluindo, tornando-se umidade do chão.

Logo chego no portão da casa dos meus compadecentes, mas não ouso chamar. Eles dormem.

Olho para a casa como aquele que olha para as estrelas em busca do infinito. Olho para a casa, como aquele que olha nos olhos da pessoa amada buscando o eterno. Porém o eterno se desfaz e o infinito silencia, agora somos paz, agora somos silêncio.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Chuva



Meu deus, a chuva parou! Abri a porta nesta manhã e andei pela grama molhada, meus pés descalços sentiam o chão e a terra e os olhos molhados enchiam-se da luz do sol. Sentei-me embaixo duma árvore, numa pedra molhada, eu queria assistir o dia claro. A branca tez umedecia-se pelas finas gotas do vapor que voltava para o céu e os resquícios da chuva ainda molhavam o dia. Aquela massa densa de água molhava minhas têmporas, meus olhos, meus cabelos e lábios. Era uma espécie de suor que corria em sentido inverso, um suor que entrava pelos poros, tempestiava o branco dos olhos, relampejava nos cristais marrons de minha visão e acabava pelas transfusões químicas da poluição por cair acidamente de volta à terra corroendo as maçãs, o verde da grama e infertilizando a terra da semente.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

...


"Porque, num universo em guerra, encontrei você. E em todo canto semeei as cores do amor..." (Fragmento)



* para Scaliest

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Ou: "és eternamente responsável por aquele que cativas"







idealização:
Murillo Marques

execução e direção de fotografia:
Hugo Henrique

direção artística:
Marcela Primo

rsrsrsrsrsrsrsrsrsrs


Fonte: debaixo d'água

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

The Red Dry Leaves



Autumn.
Dawn.
Red Dry leaves.
The Moonlight kissed the street and she appeared among a rain of red dry leaves. Probably she was singing a song; maybe she had blue on her brown eyes.
Loafing, She laughs, Loafing, He drinks. Loafing, the leaves brought fine cares, when all the things are new and the entire world is sensitive.
Keys.
Door.
Room.
They were just hands and kiss, bed and sheet, hips and arms, lips and moans. It was 5 a.m. and he slept, while she stood on the left side of the bed. She was extremely tired; she had red lips, red nails, red thoughts. She had a mirror on a dressing table in front of her, a mirror which had never reflected her before; She looked around that unknown room and smiled when she laid her eyes upon that unknown face sleeping like a child on the bed. The walls had a suburban smell and the first rays of sun were crossing the curtains and everything she could see were painted by morning colors.
The night was about to go out and the morning was singing the autumn song.
She dressed her fine black stockings, then the skirt and the blouse. On the table near the keys and the empty bottle of wine were the cigarettes. She lit one. On the cigarette box was a little post it, saying “The money in the wallet is yours” she took his wallet in the coat pocket and she paid herself.
Keys.
Door.
Street.
The car drivers were blowing the horns, people were walking and the sun started to shine. “Just one more day and that will be enough” she thought. How many thoughts haunted her mind before she got home? She needed go on, she must go on, step by step she walked home.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

O Vazio

Era uma casa completa. Tinha os móveis, os retratos, um jogo de sofá e televisão.Na cozinha tinha panelas, panos de prato, cristais e geladeira. No quarto cama, guarda roupa, tapete persa e cortinas. No banheiro tapetinho, escovinhas para os dentes, papel higiênico, escovinhas para os cabelos, toalhas e sabonetes. Felicidade.

Era Borges o morador daquela casa. Muitas vezes durante todos os anos que ali morou abriu as portas daquela casinha para as festas, para a entorpecência e para os cidadãos da aldeia. Mas um detalhe é valioso para os fatos que virão a seguir, Borges nunca saiu de sua casa, nem por motivo de doença grave. Era medo, era aflição, era insegurança, era um sei lá o quê de apavoro que rondava seus pensamentos.

Os anos passavam e Borges se bastava naqueles cômodos e Borges contentava-se com o mundo visto pela janela. Eram flores que nasciam na primavera, era a brisa fresca que entrava no verão, era a folha seca do outono que grudava no vidro e era o galho pelado que batia no telhado no inverno. Borges era feliz.

Numa noite dessas que a gente rola de um lado para o outro na cama sem conseguir dormir Borges ouviu um barulho na sala e foi ver o que era. Num pulo assustou-se, o sofá tinha sumido. Acendeu as luzes da casa, procurou achar o vão por onde o patife do bandido havia entrado, mas nada encontrou, nem uma marca de arrombamento ou uma marretada na massaneta. Naquela noite ficou tão apavorado que trancou a porta de seu quarto e ali debaixo das cobertas pegou no sono só quando o dia raiou.

Na dia seguinte tremeu, tremia, abriu os olhos e percebeu-se apenas com as roupas do corpo a cama havia sumido, o guarda roupas, o tapete persa, as roupas os chinelos o travesseiro a coberta a poltrona abriu a porta desceu as escadas a cozinha estava deserta sem sinal de vida sem sinal de garfo de faca de pia de torneira os quadros da parede esbranquiçaram as pessoas nas fotografias sumiram a televisão escureceu. Borges andava pela casa e o passo do pé passeava pelo assoalho e o eco batia no teto passando pelo pé e batendo na sola de volta, a respiração dentro da casa era uma conversa de fantasmas do século XV.

E naquela manhã, quando Borges olhou pela janela de sua casa e viu os campos floridos e o dia ensolarado que ali fazia, percebeu que sua casa era vazia.Ouviu um barulho vindo da cozinha, andou receoso de encontrar os larapios que lhe roubaram toda sua vida, mas só encontrou uma porta batendo, era a porta que dava para o campo da aldeia. Então era por ali mesmo que os contraventores tinham levado as relíquias de sua vida.

Mais que depressa correu para a fora de sua casa, a porta encerrou-se em suas costas e Borges percebeu-se do lado de fora, com a terra invadindo os vãos de seus pés e os sol perfurando suas retinas. Sentiu medo. Decidiu voltar para dentro de casa, mas a porta estava trancada. Era uma casa deserta.

A PALAVRA

A palavra não diz nada, a palavra é vento
é água rolando na ribanceira, cachoeira.
Me diz,
Me disse,
Me dissestes.
Silêncio.
A palavra armada,
concreta e discreta,
não se assina
assassina a liberdade, o pensamento,
a leveza de uma brisa metafísica.
A palavra se constrói.
A palavra se destrói,
num átimo,
numa sequência de idéias,
em meia duzia de linhas.
A palavra se corrompe
se disfarça
não diz nada.
A palavra se encerra aqui.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Devastação...

Tudo começou assim...

Um casal, uma cama, música.
Não existisse a cômoda, talvez...
Mas uma gaveta foi aberta
e as águas vieram torrenciais
Tudo acabou assim.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Poème

O poema a seguir é bastante antigo. Publiquei no meu antigo blog em 27 de janeiro de 2004, mas creio que eu tenha escrito em 1997.

A republicação se deve à visita recente de Moghrama a este blog. Uma blogueira tunísiana que merece todo nosso apreço e respeito.
Dans un bois plein de fleurs
Je pourrais au loin courir
Courir au-devant du coeur
Au-devant de mon avenir

Je n'aurais pas d'argent
Je n'habiterai pas un château
J'aurais seulement le chant
Le fort chant des oiseaux

Sinon ça, ce sera ma vie
Je vivrai pauvre et contente
Mais l'avenir n'est pas vivre
Il est mourir doucement

Et au ciel, je serai une étoile
Qui s'allume fortement
Quand la nuit déroule ses noirs voiles.
Em um bosque cheio de flores/Poderei ao longe correr/Correr ao encontro do coração/Ao encontro do meu futuro.

Não terei dinheiro/Não habitarei um castelo/Terei somente o canto/ O forte canto dos pássaros

Mas isso, isso será a minha vida/Viverei pobre e contente/Mas o futuro não é viver/É morrer docemente.


E no céu, serei uma estrela/Que brilha fortemente/Quando a noite desenrola seus negros véus.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Briga de Casal


a Genivaldo de José

O quarto estava ali, com suas estantes, sua cama, seus criados mudos, sua escrivaninha, sua TV de vinte e nove polegadas da marca CCE, alguns livros, cinzeiros, cobertas, cinzas, sapatos, meias, calças, camisas, toalha molhada, cinzas, cinzas, cinzas...

Lá estava a janela, posta em cima da cama, e a fresta estava aberta e daquela fresta um raio de luz cortava o escuro, como uma faca entrando no peito do jagunço, pensei comigo que ninguém nunca percebeu como o céu fica limpo algumas horas antes do dia nascer.

A lua brilha intensa, tontinha, ingênua às três horas da manhã achando que os casais são felizes e que se amam pelas ruas contemplando um lirismo cafona e antigo.

“Lua cretina mal sabes como são claros os pesares desse peito!”

São três horas e ele lá fora, na rua, onde está o rum, eu sei há de ter uma garrafa de outro dia, maldito rum...Ah! Esse gosto puro e quente que me desce goela abaixo, me faz divagar essa lâmina lunar estancando o breu alcoólico desse quarto que teima em me afogar enquanto ele não chega.

São cinco e cinquenta e dois, o quarto continua aqui, abro meus olhos embaçados, onde estou, o cinzeiro a cama as estantes a TV as cinzas as cinzas ah! Cinzas...Acho que acordei com o tilintar de chaves no portão, o rum onde está o rum...Vazio do outro lado da cama. Ele abriu o portão, a lua, foi, embora, ele abriu o portão, a lua, foi, embora, ele subiu degrau por degrau do maldito corredor cantarolando El dia que me quieras.

Eu sei que ele está do outro lado dessa porta sem encontrar a chave redondinha, se, se, se eu, seu eu pudesse eu até levantaria. Mais cinco minutos e ele abre a porta, ah, a luz inunda o quarto e ele não me viu.

Fechou a porta, não achou o interruptor, me procurou, tateou o lençol revirado, derrubou as cinzas, chutou a garrafa, acendeu o cigarro, tirou os sapatos, desabotoou a camisa, sentou na cama, me procurou, receou chamar pelo meu nome, ensaiou, murmurou, cerrou os dentes, mas fui mais ágil:

“estou aqui.”

“ oi meu bem?Desculpe, eu, estava...” esbaforiu uma mentira opiante.

“dorme querido, antes que o sol nasça.”

Deitamos na cama e dormimos antes do dia raiar. Afinal, ninguém gosta de dormir com o sol nascendo na janela.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Again

(L'etreinte, Pablo Picasso)

Um tanto de água; um tanto de sal.

Corpos entregues ao mar
- amores distantes; lágrimas -
corpos unidos; suor.

Sal; tempero da vida: Amor.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Almost



Eu só, no meio da tarde.

Pensamento breve ilumina a orvalhada face:
a aurora em teus olhos abriga e aquece
a madrugada fria: o corpo meu.

No meio da tarde, eu. Só.


*Ao Glauber.


domingo, 13 de janeiro de 2008

Eu





submersa no teu mundo,
que é o meu mundo vestido em águas:
calmas ou revoltas





*Para Hugo Henrique.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

2008... docemente bárbaros...

Mu,

Te amo!!!

Nunca mais vou te deixar só...

Beijos, da tua Marcela.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Go Back...

Quão difíceis foram os tempos de exílio?

― Muitas foram as batalhas travadas e, de
arma em punho, um tanto de mim se
perdia, a cada golpe desferido. Depois, era
caminhar os campos: reconhecer, entre
os corpos tombados, os rostos de meus
irmãos. O calor da guerra, tudo desvirtua. Já
não é defender nossas terras e vidas que
almejamos. Antes, anseamos beber, num
cálice de glória, o sangue inimigo. Em dias tais, não
só a matéria, mas sobretudo a alma se faz
cativa. E quando o último, entre eles ou
nós, cai derrotado, ainda não é o fim. Havemos
de preparar o retorno; peregrinar ao encontro de
quem sempre ou nunca nos esperou. Não creio que
seja eu, mas estou de volta ao lar: ferida, maculada;
aqui estou, tal como não era quando parti. Há
quem ouça meus rumores? Há quem saiba o que
eu sei?

A guerra se faz com lâmina e fogo; a guerra é o amor.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

A Onda

Dessa vez pensei, juro, pensei. Passou a onda e pensei um mar, passou o sal e me senti no mar. Mareou, marejou.
A onda passando, suave e sonora.
Ah, saudadinha boa, a água do mar me saudadifica. A onda na areia esvaindo entre o grão e a conchinha deixa marcada a pegada molhada de outrora.
Ai saudade doida que vai e vem,
se esvai
e quando vem passa pelos dedinhos enrugando, envelhecendo.
A pele envelhece a a água, a onda, o mar...
Ali na beira daquele mar eu vejo o horizonte, eu vejo o céu, eu vejo o sol. Ali, bem ali naquela linha rente entre o céu e o mar o sol vai debulhando, mergulhando, dissolvendo-se como uma enorme aspirina.
E a onda vem espumante, desfazendo a grande azia do mar,
toca os meus pés,
minha alma,
toca uns pensamentos tontos que se escondem no coral abandonado da minha mente.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Cecília Meireles

4o. Motivo da rosa

Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.


Serenata

Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.

Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.

Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.

Dia de Primavera

Um sopro, não uma palavra. Um sopro, não um olhar. Um sopro, não um musculo articulado. Era só um sopro para a porta não fechar, um sopro para a mala não encher, um sopro e findava-se o adeus. O gesto rotatório das areias que movem o sim e o não com um simples sopro se confundiriam e o não viraria sim e o sim não mais existiria.
Sentado no sofá assisto do décimo andar o dia que passa pelo plasma simbiótico da minha janela. O dia esta assim, parado.O ar se rarefaz sem vento, sem movimento.Os dias primaveris são lentos. O tempo da maturação da flor não é o mesmo tempo da maturação de meus ais que floriram numa pálida tarde invernal.
O tempo da maturação da flor densifica a exatidão dos sentimentos que se rarefizeram. Olho para aquele horizonte, olho para as montanhas, verdinhas, estupidazinhas e me lembro da ausência, do quarto escuro e do frio que gela as terras comodais deste apartamento, ao norte as geleiras pérfidas dos sonhos perdidos, ao sul a lareira que nunca fora acesa, a oeste seu retrato me gela os calcanhares e a leste sinto o incomodo dos alpes gelados ao tocar em suas cartas e seus dizeres.
Da minha janela o sol vai escurecendo este mundo gelado, esta é a escuridão. O frio e o silêncio da escuridão sem palavras, sem os olhos e sem promessas. E tudo é raro, e tudo é escasso, e tudo é denso, e tudo é fraco e cheio de defeitos. Seis meses, cento e cinquenta e oito dias. O dia não veio, seus olhos não vieram, as palavras não disseram, os abismos se fizeram mais altos, a morte gelada come meus membros e orgãos, decepa-me as pontas, arranca meus pêlos. E tudo é frio, e tudo é solitário, e tudo é silencioso.

sábado, 22 de setembro de 2007

Amor Perfeito


Meu peito acordou bosque pleno de flores cor-de-roxo anunciando a chegada da primavera. Retiro-nas, uma a uma, delicadamente e desde a raiz. Com um laço de fita, arranjo-nas em buquê e as ofereço ao amado ausente.


Violeta Parra - Gracias a la Vida
Found at skreemr.com

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Resposta em duas partes

Poema que escrevi durante uma série de conversações poéticas com o amigo Fábio Leonel de Paiva e com o qual representei a cidade de Osasco no Mapa Cultural Paulista no biênio de 2005/2006.


Resposta em duas partes

I


Altaneiros teus versos cruzam mares
De palavras concertadas em luz...
O tolo viu-se belo em teus cantares
— melodia e vaidade, sonhos nus —

Faz-se um mundo o que era tão estreito
E dilui-se já em questão cruel:
Que beleza existiu no antigo feito?
Alçou, teu canto, uma pedra ao céu.

Nenhum mérito ou leveza contidos
No prisma com carinho esquadrinhado,
Na dedicatória tão mal escrita,

Nos alheios ditos... minha desdita...
Pois são um grito desequilibrado
— Tecido sobre versos jamais lidos.

II

Por instantes o pássaro impedido de cantar se imaginou liberto
E agora o eco da gratidão soa triste em mim
Em quaisquer ouvidos sou

Voz muda
Interrompida
Esquecida

Nos subsolos
escorregadios
da memória escondida

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

O Olho


Sentado na cadeira, os olhos piscam. O quarto está vazio, fumaça, cinzas e o silêncio das auroras de meus dias. Um espelho, uma cadeira, os olhos que abrem e fecham. Sentado na cadeira, as pupilas dilatam-se, a formigação de meus ais abrem meus poros e do espelho me subtraio. Só olho o olho que se olha refletido, o olho vermelho.
O olho que abre.
O olho que fecha.
Num estado eufórico de dançar o olho se olha. Sentado na cadeira percebo que o olho é só uma metáfora do olho que vejo, é só uma metáfora daquilo que entendo. Eu que não entendo nada do que vejo.
O amor ganha um nome e está representado pela figura em cima do criado mudo, a dor ganha um nome e é representada por Januário Almeida Barbosa, o homem que se foi.
O braço não é mais o braço o braço entrelaçado é um abraço. E numa explosão de cores a mente se dissolve o vermelho torna-se azul, que se explode num amarelo derramado da gema do ovo caído, e a água da torneira com seu barulhinho azul de gotejar alucina meus ouvidos numa sinfonia fácil de executar e o branco que se funde na janela, o copo de leite se transforma em nuvem, algodão tão macio de pisar e a tinta verde que jorraram no quintal parece tão fofinha, do décimo andar sinto vontade de saltar no verde clarinho, tapete macio para se deitar. Enquanto o roxo, o lilás vão tomando conta de mim, meus sentidos se dissolvem no amarelo quentinho que vai inundando paredes, provocando gargalhadas e despertando felicidades fáceis de sentir. Ele não voltará e o quarto ali, refazendo, resignificando, numa catarse sem fim.
Sentado na cadeira, os olhos piscam.

Canções

Fui agora mexer nas tuas cartas.
Quem pudesse voltar a acreditar
Nessas palavras doidas e transidas
De febre no delírio da paixão
Que arrastaram num sonho as nossas vidas
Misturando-as na mesma reacção!

Aqui há um juramento além da morte.
Ali dizes que vens logo à noitinha;
E um cheiro a vinho e a fruta – Que doidice!,
Paira naquele quarto de hotel
Onde fiquei três dias e três noites
Esquecido de tudo à tua espera!

Estávamos em Março; Primavera.

Nesta um abraço ainda cinge e aperta
Meu corpo vibrante,
E ali rasga o papel o teu ciúme
Num beijo sensualíssimo de amante.

Além, mais alto, impões que te apareça
– E a noite era uma noite muito fria!

Tanta carta a falar do nosso amor,
Tanta coisa que morre e nem nos deixa
Sequer um vago som de simpatia?

O que eu chorei quando esta recebi,
Esta que diz: «Não volto a procurar-te.»
E atrás de ti segui por toda a parte,
Até que te encontrei; e ardentemente
Voltámos à loucura que findou.

Como é que a gente pode mudar tanto
Sem sentir pela hora que passou
– Por essa hora linda de prazer,
Uma saudade, um pormenor qualquer
– Ficarmos alheados ou suspensos
–Uma tristeza, uma tremura, um ai
Que nasce e vai morrer lá onde a realidade
Começa e não acaba e nunca expira?...

Não leias estes versos.
Tudo isto,Tudo isto, afinal, é só mentira.

(Antônio Botto)

António Botto nasceu em Abrantes, em 1897, tendo vindo a falecer em 1957, no Brasil, para onde emigrara em 1947. Viveu em Lisboa e foi contemporâneo e amigo de Fernando Pessoa.

Lindo poema, lindo mesmo.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Nossa Senhora dos Ventos

O fino fio de vento que entrava pelo quarto, soprava uma cantiga e brincava com os pêlos do braço da menina que olhava para fora e via um movimentar calmo de lá para cá das folhinhas das árvores, era a origem dos ventos.
Uma cigana de traços firmes, espelho na mão, saia rodada e coroa na cabeça saía para a boemia da noite, para a liberdade bacante do Breu, seu mais que velho e conhecido amigo. Cigana brava, sorria e dançava levemente e quando sua saia rodava o vento obedecia de lá para cá, de cá para lá. A cigana andava por entre matos e se sentia movida pela música que seus guisos emitiam ao bater nas pedrinhas do chão e corria, dançava, rodopiava e os ventos voavam em torno das saias que espiravam em zunidos fáceis de cantar e ela assoviava e cantava e rodava e voava num ato livre e leve de dançar, caía deitada nas relvas e dos pássaros e das terras se desposava. O vento úmido molhava a terra firme deixando um barro mucoso por entre as pernas do mato, tufões copulavam e uma prole de ventinhos nascia, um manso ranger de dentes, as mãos apertando o barro, os gemidos eólicos que batiam no telhado da cidadezinha era resultado da profanação da cigana que ventando deixava que as senhoras árvores ouvissem os ecos da noite fria. Ali eram só os ventos e as terras, a cigana e o espelho, a noite e a lua que refletida no espelhinho prenunciava um azul clarinho e um amarelinho meio avermelhado no horizonte. A cigana e seus guisos, as saias que rodavam, os cabelos que batiam, os dentes que rangiam. Logo pela manhã, os cabelos presos, os passinhos cautelosos, apenas um rebolar de quadril e o tontinho do guisinho apenas soando uma brisa fresca que movimentava a folha na água, que despetalava a ultima margarida e entrava pela janela, brincando com os pêlos do braço da menina que olhando pela janela perguntava "qual a origem dos ventinhos?"

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Arlequinal


Não sou um mundo só de palavras:
posso oferecer deleite e refinada vinha
a quaisquer-bem-me-queres.

Sei mais que sons e gestos ensaiados;
quando finda a luz, cessa a cena
- e findará, em qualquer aurora.

Apesar da máscara pregada à cara,
há sempre uma amarra que se desprende -
um losango que cai.

São pesadas as minhas vestes arlequinais;
não obstante, tenho o coração a mostra.
Nu, mas em retalhos.

§ Ilustração de Sidnei Akiyoshi, feita em 2005 para o layout do meu antigo blog.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Túnel das ilusões


Eu andava por aquele túnel e percebia-me chegando ao fim, a luz estava próxima, os pensamentos envoltos em sensações de um outro lugar. Eu andava por aquele túnel e eu não estava ali, estava nas quimeras esplendorosas, no abstracionismo de amores novos e perdidos, mas ali eu não estava.

Eu andava, a luz me cegava, o pensamento me anestesiava. Eu estava ali naquele túnel e ela também, negra flácida, cabelos grisalhos, olhos caídos, desaprumada com um cadáver no colo. Tetas murchas, azeite jorrado, fétidas entranhas, o pretume do chão se molhava e a sujeira misturava-se ao odor, urinava.

Eu não estava ali, ela estava. Eu tinha a moeda, ela pedia. Eu tinha o casaco, ela tremia. Eu tinha os sonhos e eles esmagavam-na.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Carpe Diem

O hoje? não sei.
Tampouco sei dizer do que passou,
do que será.

Sei do que nunca há
nem há de ser... sei das
voltas e das espirais.


Sei porque entendo o verso,
o reverso do que sempre esteve:
sempre estará.

Estrela, és tempo para mim.
Tempo que não meço, mas vem e volta,
tira as coisas do lugar.

Teu mais forte brilho
Não hás de mostrar, tão assim, sem enigma
Haveremos de decifrar... de sentir.

Não sei se hoje ou quando.
Talvez nunca; sempre talvez...
Não raro, repito dizeres tais.

Não é concha, o teu habitar:
Estrela, és: ora no céu, ora no mar.
Isso, apenas isso eu sei.












§ Para Gabriela Camargo.

sábado, 25 de agosto de 2007

"Não, meu coração não é maior que o mundo"

Ilustração de Rita Braga

Meus lábios, minha voz...
Eu quero dizer.
Deveria?

Deveriam meus braços
tornar a ser abrigo?
Quereria.

Num abraço, próximo está o corpo querido;
mas distante dos lábios, a precisa fala.
Desejaria?

Outras histórias e gestos vividos. Como
ler no tato - no olhar - o pulso desejante? O desejo amante?
Poderia.

Se eu pudesse ver o quanto queres me dizer,
entenderias, talvez, que sou abrigo de teus anseios.
Por fim, deveríamos?

§ Ilustração de Rita Braga.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Mundo, mundo, vasto mundo.

A conversa é a interação de dois corpos, um pergunta e o outro responde, numa dança de sons, gestos, cores, risadas tornando o momento da enunciação um ballet de sentimentos. Um ato singelo de manifestar um interesse, uma curiosidade, um nada ou um tudo cheio de nada. É pela conversa que acessamos o outro, é pela conversa que nos colocamos como objeto sentimental para o outro.
Os corpos transcendem numa conversação, o olho pisca, a mão cala, o corpo dança a língua fala. Numa conversa refletimos o eu e o outro busca em nós aquele eu das sensações perdidas.

"Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
Seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração."

Não sei porque me deu vontade de escrever sobre coisas infâmes. "Eu não devia lhes dizer, mas essa lua e esse copo de ópio deixa agente saudosista como o demo!"

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Noite

Foto de Rui NabaisEra apenas uma noite.

Uma noite, muitos rostos;
muitos rostos e a embriaguez.
Não a embriaguez do vinho;
era o sabor da descoberta que nos entorpecia.

Vimo-nos, é certo, pela primeira vez.
Cada qual tirou o véu de seu coração e sorriu.
Deveríamos chorar, pois a janela estava aberta
e não era belo o que se mostrou. Mas sorrimos...

Havia o céu... nenhuma estrela;
a lua, Ártemis crescente, a lua eu já ofertara a outrem...
Restávamos nós e a rua - havia o céu e a perdida lua.
Ouvíamos, já, um ao outro?

Vozes confusas, talvez embaraçadas.
O fuso em mãos, novos sentimentos teceríamos:
renascíamos em cada palavra e, em todas elas,
Nossas vozes fundiram-se.

Não era belo o que se mostrava,
Mas tudo a nossa volta e a nós mesmos
O sorriso reinventava:
Olhar o chão e ver estrelas
No topo de um poste, avistar tão linda lua.

Era apenas hoje. Eram todos os amanhãs de nossas vidas.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Luas e Copos

Ali naquele lugar eu davaneei junto a ti, sorrateiramente pensávamos tufões e redemoinhos que giravam entorpecendo mentes e postes e luas, embaçando sorrisos, confundindo palavras, transcendendo risadas e provocando histerias.
Ali, bem ali, tinha um coração, um copo e uma lágrima que nunca caiu.

Sim

Entre o anúncio e a ação há segundos intermináveis.

"Quero te pedir uma coisa!"

Quantos quereres contidos? Olvidados mundos renascem neste intervalo.

E porque nossos souvernirs quebraram-se em bolsos de jaqueta, mochilas; porque nossos tesouros perderam-se de nós, menino e menina, enquanto brincávamos de roda, a resposta - qualquer que fosse, quaisquer fossem os pedidos - deveria ser sim!

Aqui estou, amigo querido, à sua espera!

Trago as mesmas vestes arlequinais; uma garrafa de vinho e muitos céus de muitas luas para reinventarmos.

Poderia ser conhaque.