
Não foi o rouxinol nem foi a cotovia. Acendo um cigarro apressada olhando pela janela, não há notícias suas no rádio nem no jornal. Desaparecido.
Faz tempo que você se foi, prometeu-me um sinal, uma volta, um vôo rasante para me buscar. Dizem que está no México, mora num trailer, vive os dias mais quentes andando pela relva curta que nasce aos poucos na terra vermelha da América Central.
Daqui dessa janela o universo é azul, monocromático, estático. O frei veio benzer-me, nos casou há dias e também não traz notícias suas. Confessei, me matarei numa tarde cinzenta. Como uma mulher vive sem o marido antes que ao menos o ato fosse consumado?
Está confessado, mato-me agora e ninguém me possui.
O que é uma rosa? Um cheiro, um nome, uma cor? Continuaria sendo uma rosa mesmo tendo outro nome? Claro.
Cigarro, arsênico e pólvora.
Um bilhete singelo: Querida volto hoje para buscar-te.
Não foi o rouxinol nem foi a cotovia a madrugada é eterna.
* Ilustração de Octavia Monaco para o livro Romeu e Julieta, Nicola Cinqueti