sábado, 22 de maio de 2010

Reencontro II

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Naquela noite redescobri como pude amar o menino. Lembrei-me. E lembrar, desta vez, não trouxe lágrimas. É certo que chorei. Mas um chorinho de alegria tão aérea, como jamais a tive. A nascente de alegria assim seja, talvez, o saber que nossos percursos não deformaram o que outrora nos fez unidos. 

Não, menino, não é ousadia supor seu percurso, seus caminhos. Sei que foram distintos dos meus pelo fato único de que em nenhum momento dessa jornada estivemos lado a lado. Minha visão talvez estivesse embaciada, porém confio em meus outros sentidos. Nesse tatear estradas nunca estive desatenta ou menos viva. Posso então dizer que foram distintos nossos percursos - estarei certa.

E nesses caminhos, tais quais navegantes ferindo mares intocados, tanta maravilha encontramos. Crescemos? Sim; mas não assim tão muito, pois somos ainda capazes de decalcar no mundo as cores da poesia. Reencontrando o seu, meu canto fez-se mais vívido. Reconhece em si a agudeza da vida, o pulsar destes algarismos todos, os infinitos signos. Reconhece sem decifrá-los.

Eu queria ter dito "vai-te embora, rapaz morto" e estaríamos já há mais tempo libertos - mas era o espinho de suas vidas outras que ainda feria meu seio e confundia-se com minhas já vividas angústias.

Éramos, menino, feitos de diversa matéria, porém éramos iguais em essência: o primeiro homem e a primeira mulher. O sopro que nos trouxe à vida foi o mesmo que espraiou o orvalho de minhas carnes fora de seu paraíso... Banida, estive vagando a lançar maldições e murmurar feitiços; busquei seus medos e brinquei com eles; eu era, então, sombras.

Mas hoje somos o pássaro e a menina; as primeiras coisas, dores e clamores, são passadas. Estão limpos os nossos olhos porque houve o intervalo da reinvenção. Eis que criamos nova mão e novo braço, verdadeiros cuidados a quem amamos. 

O braço acolhe, a mão entrega: a Deus. E hoje em meus braços você é uma oferta. Sei que são outros seus deuses, deusas e mitos; mas você bem sabe que já foi um dia meu único objeto de fé. Há, portanto, fração de seu sentido em mim - havia. Hoje faço o sacrifício último. Adeus, menino bonito.




Mundo maravilhoso, 
que guarda em algum lugar secreto 
o pássaro encantado que se ama…

Rubem Alves


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